por - Jul 22, 2013

A História de… The Last of Us

Este artigo contém spoilers. Continuem a ler apenas se já tiverem concluído a história principal de The Last of Us.

Não é segredo nenhum que com o avançar do potencial tecnológico na indústria dos videojogos, a capacidade de transmitir narrativas complexas e interessantes tem sido uma das caraterísticas principais das experiências jogáveis modernas. Apesar de nem todos os jogadores darem a mesma importância a este aspeto dos seus jogos, para mim, a história de um título é muito provavelmente a sua parte mais importante, embora isso seja, como é óbvio, bastante discutível.

É com este pensamento que eu vou dar início a uma nova rúbrica aqui no VideoGamer Portugal. “A História de…” será um espaço completamente dedicado à discussão da narrativa dos títulos que merecerem tal atenção, ou seja, aqueles jogos que, logo após serem terminados, suscitam em nós um desejo insaciável de partilhar rapidamente as nossas vivências e interpretações de tudo aquilo que acabamos de experienciar. Esta nova rúbrica não terá uma periocidade pré-estabelecida, uma vez que estará dependente quer dos títulos que possam vir a ser lançados como do desejo da comunidade em ver a história de algum dos seus jogos preferidos ser discutida abertamente.

Para começarmos este novo espaço em grande, o primeiro título a ver a sua narrativa ser totalmente esmiuçada é a mais recente obra-prima da Naughty Dog, The Last of Us. O jogo tem recebido críticas bastante positivas, tendo inclusivamente conseguido a fantástica nota de 10/10 na análise do Pedro Martins. Se ainda estão com dúvidas sobre o conteúdo desta rúbrica, então deixem-me dizer, muito claramente, que este artigo estará repleto de SPOILERS do princípio ao fim, por isso se ainda não completaram a campanha deste título, gravem esta página nos vossos favoritos e voltem assim que o tiverem feito.

Antes de dar início à análise propriamente dita da história de The Last of Us, é importante esclarecer que esta é a minha opinião subjetiva sobre todos os acontecimentos do jogo, podendo estar bastante longe de ser a interpretação mais correta. Dessa forma, incentivo todos os membros da nossa comunidade que ainda estejam a ler este especial a participarem nos comentários e a deixarem as suas visões sobre a narrativa, sendo que eu estarei disponível para uma saudável troca de impressões.

Para um melhor entendimento da história como um todo, o melhor será seguir os acontecimentos de forma cronológica, por isso comecemos então pelo prólogo, provavelmente o segredo mais bem escondido de todo o jogo, tendo inclusivamente sido uma das sequências da narrativa que a Naughty Dog fez questão de pedir à imprensa para não ser referida nas análises ao título.

The Last of Us abre com a imagem de Sarah, filha de Joel, a dormir no sofá, onde terá adormecido enquanto esperava pelo regresso a casa do seu pai para festejar o seu aniversário. Sem qualquer informação sobre a mãe de Sarah, é facilmente visível que o protagonista do título é um pai esforçado que nutre um enorme amor pela sua filha. A cinemática inicial serve também para estabelecer ligações com situações futuras seja a brincadeira de Joel com Sarah sobre o relógio estar partido que é mais tarde referenciada por Ellie ou a inocência da sua filha quando comparada com a jovem rapariga que nasceu num mundo já devastado pela infecção. Apesar de Joel não o demonstrar de uma forma extremosa, o carinho entre pai e filha é enorme e isso é demonstrado pelo cartão de aniversário que Sarah se esqueceu de dar ao seu pai e que é possível encontrar no seu quarto.

Depois da cinemática inicial surge provavelmente uma das maiores surpresas do jogo. Não é Joel que estamos a controlar, mas sim a sua filha, Sarah. Este simples facto é suficiente para instalar em nós um sentimento de pânico, uma vez que estamos a controlar uma jovem rapariga indefesa. O pânico aumenta exponencialmente quando sabemos que o início do apocalipse está para breve e não fazemos ideia do que poderá estar para lá de cada porta que abrimos. O início do fim é nos apresentado à medida que exploramos a casa, sem nunca perder tempo com explicações super complicadas do que está a acontecer por todo o mundo e isso é um ponto muito positivo, pois o que interessa neste jogo é a relação entre os humanos e a forma como a humanidade procura resistir a algo que é superior a si.

Após a exploração da casa, temos o primeiro encontro com um infetado. Um vizinho e possivelmente amigo de Joel e Sarah. Mas logo aqui se vê a fibra do nosso protagonista e a sua capacidade inata para a sobrevivência. Joel mata sem grande hesitação o seu vizinho em frente à sua filha que tem dificuldade em entender a ação do pai. Isto é também visível quando este recusa ajudar a família que se encontra na rua, deixando desde o início a ideia de que Joel não tem medo de fazer o que for preciso para garantir a sobrevivência de quem lhe é mais querido. Avançando um pouco mais até à fuga de Joel com Sarah a seus braços, momento envolto num enorme simbolismo como veremos mais à frente, chegamos até à barreira de segurança estabelecida pelas forças militares que procuram impedir a fuga de possíveis infetados da cidade. Apesar de aceitar relutantemente as ordens do seu superior, o militar dispara a matar contra Joel e Sarah. Se o nosso protagonista é salvo a tempo pelo seu irmão Tommy, Sarah não teve a mesma sorte e acaba por morrer nos braços do seu pai, num dos momentos com cariz emocional mais intenso do jogo.

É certo que a morte de Sarah era previsível para qualquer jogador que tivesse estado em contacto com qualquer tipo de informação sobre o título, mas a Naughty Dog consegue causar um impacto emocional muito grande pelo simples facto de nos ter feito assumir o seu controlo por breves momentos. A sua morte desempenha um papel importante para o desenrolar da narrativa devido a ter acontecido às mãos de um militar, cuja função principal era proteger as pessoas que estavam a ser atacadas, e não de um infetado.

Passemos então para o início do jogo propriamente dito. 20 anos depois do início da infeção e queda da civilização, ano 2033 para quem gostar de fazer contas e que de certa forma acaba por aludir ao título da 4Games também situado num mundo pós-apocalíptico, Metro 2033, assumimos o controlo de Joel que se encontra numa das poucas zonas de quarentena ainda funcionais dos Estados Unidos, em Boston. Esta primeira sequência após o salto no tempo permite-nos retirar duas conclusões sobre o protagonista: Joel é um homem duro e extremamente forte, pois só alguém com estas características consegue sobreviver durante 20 anos neste mundo, mas também visivelmente afetado pelos acontecimentos passados, embora em momento algum eles sejam referidos. É aqui que se reflete a importância da estratégia de saltos no tempo aplicado pela Naughty Dog na narrativa de The Last of Us. Este corte permite evitar as conversas emocionais sobre a perda de Sarah que em nada acabam por contribuir para a narrativa final, preferindo passar para uma fase mais avançada da vida de Joel que, não tendo necessariamente ultrapassado a morte da filha, tem outras coisas com que se preocupar, já que, por muito que lhe custe, a sua vida continua.

Como seria de esperar de um mundo pós-apocalíptico, a brutalidade do que resta da humanidade está visível por toda a parte, sendo um exemplo claro disso a execução imediata de desobedientes na zona de quarentena. Por outro lado, a sensação de pobreza chega-nos através da pequena cidade de lata que exploramos logo no início do título em que as pessoas chegam ao ponto de estarem ansiosas por poderem comer ratos. Todas estas informações sobre o mundo de The Last of Us são fornecidas depois de conhecermos Tess, parceira de armas, e talvez mais que isso, de Joel. As primeiras impressões relativas a Tess permitem-nos concluir que esta é tão ou mais forte que Joel, seguramente mais forte psicologicamente que o nosso danificado protagonista. Para além disso, Tess não tem qualquer tipo de problema em matar qualquer um que se coloque no seu caminho, sendo por isso uma verdadeira mulher de armas que dispara primeiro e faz perguntas depois.

Depois de um confronto com Robert sobre a mercadoria que este devia ao duo, temos o primeiro contacto com Marlene, a líder do grupo rebelde que se tem revoltado contra as forças governamentais intitulado Os Pirilampos. É através desta personagem que vamos finalmente conhecer a verdadeira estrela do jogo, pelo menos para mim, Ellie. Devido ao seu ferimento, Marlene pede a Joel e Tess que extraiam a jovem rapariga da zona de quarentena e a levem até à câmara municipal, prometendo que quando a missão for cumprida todas as armas que desejarem estarão ao seu dispor. A relação inicial entre Joel e Ellie é fria e intensa, predominando um desinteresse mútuo entre os protagonistas. Ellie é apenas mais um trabalho para Joel nesta altura, mas como é óbvio isso vai acabar por mudar.

Não é preciso esperar muito tempo até descobrirmos o porquê de Ellie ser tão especial e a necessidade de a extrair da cidade: Ellie é imune ao vírus do Cordyceps. A infeção começa a surtir efeito cerca de três horas após a mordida de alguém infetado, no entanto, o vírus não se manifestou em Ellie, apesar de esta ter sido mordida há quase três semanas, o que pode muito bem significar que a jovem rapariga seja a chave para produzir uma vacina capaz de tornar a humanidade resistente a este vírus que causou a sua destruição.

Apesar da aparente esperança que poderá estar aliada a Ellie, Joel não se mostra confiante sobre essa possibilidade, referindo que a mesma questão já foi levantada várias vezes e nunca foram obtidos os resultados desejados. Ainda assim, Tess acredita de forma quase irracional que Ellie possa muito bem ser a salvação da humanidade, sendo que Joel limita-se a seguir o desejo da sua companheira em levar a protagonista até aos Pirilampos. Acredito que muitos de vocês tenham previsto que este fosse o motivo de Ellie ser tão especial, eu não o previ, mas considero que talvez tenha sido um pouco ingénuo por não ter chegado mais cedo a essa conclusão.

Avancemos agora para o próximo ponto alto da narrativa: a morte de Tess. Este momento é antecedido por uma conversa entre os dois sobre uma possível pausa nos seus negócios após a conclusão da missão, deixando no ar a ideia de que, mesmo quando não estão a trabalhar, Tess e Joel estão sempre juntos. Mas como acontece tantas vezes em cenários pós-apocalípticos, seja em filmes, livros ou videojogos, sempre que alguém começa a fazer planos para o futuro, as coisas acabam sempre por correr muito mal. Chegados à câmara municipal, onde à espera do trio estão apenas alguns cadáveres de membros dos Pirilampos, Tess tem um colapso emocional e revela a Joel a sua mordida, o que como é óbvio significa que a mesma está infetada, explicando assim o porquê de Tess ter reagido com lágrimas quando descobriu que as pessoas que deveriam levar Ellie até ao laboratório para tentarem produzir a vacina estavam todas mortas. A companheira de Joel tinha ainda esperança de que a jovem rapariga pudesse significar a sua salvação, o que muito provavelmente seria uma expectativa irreal.

Com o desejo de obter as armas dos Pirilampos já há muito posto de parte, Tess pede a Joel que leve Ellie até ao seu destino, apelando a todo o passado existente entre os dois, e também que a deixe morrer às mãos do governo, evitando assim transformar-se. Não sei se conseguiram, mas se sprintarem até ao piso superior é possível ver o momento da sua morte. A forma como Tess se dirige a Joel e o convence a continuar a demanda com Ellie deixa ficar no ar a ideia de que os dois têm um longo passado em conjunto, existindo, e esta é simplesmente a ideia com que fiquei, sentimentos fortes entre ambos. Na minha opinião, existe uma relação forte entre Tess e Joel, não uma relação convencional como um casal, mas como duas pessoas isoladas que só se têm um ao outro. Tal como acontece com a morte da filha, Joel volta a preferir esconder os seus sentimentos evitando falar da morte de Tess.

De seguida, Joel e Ellie deslocam-se até Lincoln ao encontro de Bill, alguém com quem Tess e Joel costumavam trocar mercadorias, possivelmente armas e medicamentos, cuja característica que mais salta à vista é a sua paranóia. Durante os momentos iniciais com Bill, é de notar que Joel nunca diz abertamente que Tess morreu, apesar das constantes perguntas do seu parceiro de negócios. Para além disso, o facto de Ellie ter sempre uma resposta na ponta da língua contribui para o estabelecimento de uma ligação de afeto do jogador para com ela.

Nas horas que passamos junto a Bill, existem várias referências ao prólogo que poderão passar quase despercebidas durante a primeira vez que jogam The Last of Us. Por um lado, verifica-se uma referência à morte de Sarah quando Bill diz que são as pessoas normais que o assustam e que Joel devia compreender isso melhor que ninguém, uma vez que Sarah foi morta não por um infetado, mas sim por um militar que o devia proteger. Por outro lado, tal como sucede no prólogo, onde Joel diz a Sarah para não olhar para as pessoas que estão a arder, o protagonista volta a fazer o mesmo com Ellie junto à pilha de corpos próxima da cave de Bill. Todos estes pequenos detalhes servem para realçar a importância que o prólogo tem na relação entre as personagens, ficando claro que este não foi colocado no título com o intuito de servir meramente como um cliché habitualmente presente em qualquer forma de entretenimento que se foque neste tema.

Ainda com Bill assistimos a um discurso emocional do mesmo sobre o seu parceiro e como estes apenas servem para nos causarem a morte, existindo uma relação clara de amor/ódio entre Bill e Frank, seu parceiro. Apesar das constantes críticas a Frank, inclusivamente à forma como este acabou com a sua vida, vestindo um camisa horrenda, é visível uma grande amizade, talvez até mesmo amor, entre ambos, que apenas foi terminada pela paranóia extrema de Bill que se recusou a mudar o seu estilo de vida.

Após conseguirmos o carro para nos levar até Tommy, irmão de Joel, temos o momento que marca o início de uma ligação especial entre os dois protagonistas, com Ellie a revelar o seu humor e a deixar Joel bastante constrangido com a revista para maiores de idade que esta roubou da casa de Bill. No entanto, apesar de ter como função principal proteger Ellie, Joel privilegia sempre a manutenção de uma distância emocional com a jovem rapariga por motivos que ficarão claros mais à frente. Mesmo quando Ellie salva a sua vida este procura sempre tornar isso um ponto negativo, criticando a sua ação e o seu desrespeito pelas suas ordens. Ainda assim, é a partir desta situação que Joel começa a tratar Ellie como a sua nova parceira de armas, confiando-lhe a sua vida por diversas ocasiões.

Apesar de toda a narrativa ser muito claramente focada na relação entre Joel e Ellie, os momentos em que os dois estão sozinhos são muito poucos. Na grande maioria do tempo estamos acompanhados por outras personagens que, embora não permaneçam connosco durante toda a aventura, são essenciais pois é a sua intervenção junto dos protagonistas que vai moldando a sua relação. Por isso mesmo, não é uma grande surpresa que, logo após a chegada a Pittsburgh, sejamos apresentados a duas novas personagens, Sam e Henry. Os dois irmãos funcionam quase como um espelho da relação entre Joel e Ellie: Henry protege Sam tal como Joel faz com Ellie. Ainda assim, nem o facto de serem família faz com que Henry trate o seu irmão como um miúdo inocente, sendo que um exemplo óbvio disso mesmo é o momento em que Sam é impedido de guardar o brinquedo, pois este ocupará espaço necessário para provisões na sua pasta. Sam é também importante pois serve de meio para relembrar o jogador de que Ellie ainda é uma jovem rapariga, embora muitas vezes não pareça devido à dureza do mundo de The Last of Us.

O jogo da Naughty Dog faz também um excelente trabalho em colocar as coisas em perspetiva, pois o que é verdade é que, à primeira dificuldade, Sam e Henry abandonam Joel para assegurarem a sua própria sobrevivência. Ainda assim, acabam por ser eles mesmos a salvar o duo de protagonistas de morrerem afogados mais tarde. Mas tal como disse anteriormente, a forma como Henry argumenta com Joel a sua decisão de o deixar para trás, afirmando que apenas o fez para garantir que o seu irmão mais novo continuaria a salvo e questionando Joel sobre se este não teria feito o mesmo se tivesse na posição oposta com Ellie, permite ao jogador pensar no que faria nesta situação. E a conclusão que facilmente se pode retirar é que Joel também o deixaria para trás, assim como eu o faria se tivesse na posição de Joel. Talvez isso faça de mim uma má pessoa, mas essa é a mais pura das verdades. Com todos os problemas já colocados para trás, Joel e Henry começam a formar uma amizade pelo seu amor mútuo às motas Harley. Em simultâneo, temos um diálogo bastante emocional entre Sam e Ellie, no qual, entre outras coisas, são reveladas o medo de Ellie de acabar sozinha, o medo de Sam de se tornar um infetado e as suas dúvidas sobre a réstia de humanidade que possa existir dentro dos mesmos.

Como seria de esperar, não demora muito até que todas estas relações sejam quebradas pela morte dos dois irmãos. Sam, que havia sido mordido após a saída dos esgotos, acaba por transformar-se e atacar Ellie, sendo morto a tiro pelo seu próprio irmão. Apesar de ser forte, Henry não consegue viver sem o seu irmão, não tendo qualquer razão para continuar a viver neste mundo devastado e cruel, e suicida-se. Se a morte de ambos até era expectável, a forma como tudo acontece surpreendeu-me duma forma como há muito não acontecia num videojogo. A Naughty Dog mata duas personagens com quem passamos hora e meia de jogo numa cinemática brutal de dois minutos e isso é algo bastante corajoso para se fazer. De reparar que a própria expressão de Joel após a morte de Henry é completamente esclarecedora da brutalidade do momento que nem um homem que sobreviveu 20 anos neste mundo pós-apocalíptico consegue suportar. Mais uma vez, Joel volta a recusar falar sobre a morte dos irmãos, mesmo quando Ellie expressa essa vontade abertamente.

Entre o primeiro encontro com Sam e Henry e o momento da sua morte, The Last of Us conta uma história secundária e paralela à narrativa principal, mas igualmente interessante: a história de Ish. Toda a sua história é contada através de colecionáveis que vamos encontrando antes, durante e depois da sequência nos esgotos. Após o apocalipse, Ish decide viver em alto-mar no seu barco até que se acabem as suas provisões. Quando estas terminam, o homem passa a viver nos esgotos para evitar infetados e não infetados. No entanto, a tendência inata do ser humano para a socialização leva Ish a trazer famílias para o seu local seguro. Os apontamentos deste homem parecem também indiciar o recurso ao canibalismo desta pequena sociedade, com uma referência ao “rolo de carne” especial.

A história de Ish revela mais uma forma que os seres humanos encontraram para sobreviver, diferente das quarentenas impostas pelo governo e também dos caçadores que são essencialmente nómadas como referido logo no início do título. Ish formou uma civilização nos esgotos com escolas e tudo mais, tentando fazer com que as crianças tenham uma vida “normal” dentro dos possíveis. Estas crianças viam Ish como o seu anjo da guarda, mas tal como seria de esperar este aparente conto de fadas não durou muito tempo e a queda da sua civilização depressa aconteceu devido ao simples facto de alguém se ter esquecido de fechar uma porta. Ainda assim, descobrimos, já depois de abandonar os esgotos, que Ish conseguiu sobreviver e que permanece com vontade de continuar a viver e nunca desistir pois acredita no poder da humanidade para superar todas e quaisquer adversidades. Talvez seja esta a principal razão para a espécie humana se agarrar tão fortemente à sobrevivência, mesmo quando aparentemente não existem grandes motivos para continuar a viver. A esperança em ver a humanidade ultrapassar as dificuldades é muito provavelmente a única razão pela qual estas pessoas continuam a lutar insistentemente pela sua vida.

No entanto, nem todas as pessoas vêm o mundo da mesma forma e isso é a principal causa de todas as divergências que levaram Joel a separar-se do seu irmão Tommy. Ainda antes de nos encontrarmos com o seu irmão, Joel diz a Ellie que não vale a pena perder tempo a pensar e falar sobre a morte de outras pessoas, uma vez que, segundo este, a única coisa a fazer é “seguir em frente”. Apesar das divergências entre os dois, a saudade faz com que essas sejam esquecidas ainda que por apenas uns breves momentos. Depois de abandonar os Pirilampos, Tommy conhece a sua mulher, Maria, e ambos formam a sua própria comunidade que procura estabelecer uma vida muito próxima do que existia antes do apocalipse, sendo esta sociedade mais um exemplo de que como a humanidade está constantemente a tentar encontrar formas de se adaptar aos meios que a rodeiam.

Tal como já havia ficado bastante evidente em momentos anteriores, Joel volta a demonstrar a sua enorme incapacidade para lidar emocionalmente com a perda de alguém querido quando este recusa a foto de Sarah que Tommy encontrou quando voltou à casa onde viveram, porque todo e qualquer objeto que o faça recordar a sua filha apenas lhe traz memórias dolorosas que o protagonista é incapaz de suportar. É este medo de voltar a perder alguém de quem goste e não ser capaz de lidar com isso que faz com que Joel tente deixar Ellie com Tommy para evitar ficar ainda mais ligado à jovem rapariga que nesta altura já representa quase como uma junção das duas pessoas de quem Joel era mais próximo: Sarah, a sua jovem filha, e Tess, a sua parceira de armas. Nesta altura, Ellie preenche o espaço deixado por estas duas personagens no coração do nosso protagonista.

Ainda assim, Tommy, apesar de estar com uma situação de vida bastante agradável, é um homem visivelmente marcado pelos anos que passou com Joel após o início da pandemia, referindo inclusivamente que não valeu a pena sobreviver para ter de viver com tudo aquilo que fizeram durante os primeiros anos após a queda da civilização. No entanto, o irmão de Joel, que é muito provavelmente a melhor pessoa que encontraremos durante toda a aventura, aceita levar Ellie até aos Pirilampos, pois, após ver a interação entre os dois protagonistas, percebe as verdadeiras motivações do seu irmão e como o seu pedido é importante para o mesmo.

Antes que Joel possa deixar Ellie ao cargo de Tommy, a jovem rapariga foge a cavalo para um rancho situado relativamente perto da Central Hidroelétrica. Os dois envolvem-se numa intensa discussão, na qual Ellie revela ter percebido que Joel queria livrar-se dela e confronta-o com a possibilidade da sua morte e o medo do protagonista de que isso aconteça. Todas as pessoas que Ellie conheceu morreram ou abandonaram-na, sendo que Joel é o mais parecido que esta tem a um familiar. Assim que o nome de Sarah é referido, Joel torna-se muito mais agressivo com Ellie, dizendo inclusivamente que ela não é a sua filha, quase que como dando por terminada a relação entre os dois. No entanto, Joel rapidamente chega à conclusão do quão especial Ellie é para si e decide ser ele mesmo a levá-la até à universidade onde está localizado o laboratório dos Pirilampos, deixando Tommy ficar junto da sua mulher e de todos os seus amigos. Este foi para mim um dos momentos mais emocionais de The Last of Us, pois o título fez com que eu sentisse empatia com Ellie e o seu difícil estado emocional. Juntamente com a morte de Sarah, estes foram os momentos que despertaram mais emoções em mim.

Chegados à universidade, onde sem grandes surpresas os Pirilampos há muito já não estão, Joel e Ellie descobrem que estes fugiram para Salt Lake City após uns problemas com algumas cobaias de testes experimentais, mais concretamente macacos. Emboscados por vários inimigos, Joel acaba por sofrer um ferimento grave: um ferro atravessou completamente o seu abdómen. Este ferimento, tantas vezes já visto em filmes e inclusive em outros videojogos (Tomb Raider, embora não tão vistoso, e The Walking Dead), provoca muitas vezes a morte da personagem e isso acaba por pesar no nosso pensamento que automaticamente prevê a morte de Joel, principalmente se pensarmos que já no início do jogo havia sido feita uma troca de personagem jogável com Sarah e seu pai. No entanto, a principal função deste novo rumo tomado na narrativa é provar que Ellie consegue defender-se sozinha, mesmo num momento em que o jogador se encontra em pânico com o mau estado da sua personagem. Depois de escapar da universidade, Joel acaba por cair inanimado e temos mais um salto temporal para o inverno que nos obriga a ficar a pensar sobre se a Naughty Dog teve a coragem para matar a personagem principal do jogo a meio do mesmo.

Para adensar ainda mais este mistério, a produtora coloca-nos a jogar como Ellie no início do Inverno no meio do nada, sem qualquer sinal de Joel e sem qualquer indicação do local onde se encontra. Pessoalmente, eu nunca cheguei a pensar que Joel tivesse mesmo morrido, uma vez que seria um pouco contra producente matar uma das personagens que compõe a relação à volta da qual todo o jogo gira. Por isso, foi com bastante agrado que descobri que Joel estava de facto vivo. Ainda assim, há que dar os parabéns à Naughty Dog pela forma brilhante como, num momento em que a única coisa que nos passa pela cabeça é avançar rapidamente para descobrir se Joel está vivo ou não, nos obriga a participar num exercício que requer enorme cuidado e paciência. Falo obviamente da caça ao veado, uma sequência que tem tanto de bela, pela fantástica cobertura da paisagem por neve, como de desoladora, pela ausência de qualquer tipo de som ou até mesmo de vida animal para além da nossa presa.

Apesar de estar completamente sozinha, Ellie está longe de ser uma jovem vulnerável e isso é demonstrado no primeiro encontro com David. Desde o momento inicial em que conhecemos esta personagem, somos consumidos por um sentimento de total desconfiança que é partilhado com Ellie, muito embora David pareça uma pessoa extremamente bondosa e disposta a ajudar a protagonista, oferecendo-lhe inclusivamente os medicamentos de que esta necessita para tratar Joel. Ainda assim, Ellie recusa dar qualquer tipo de confiança ao estranho que acabou de conhecer, não revelando sequer o seu nome. No entanto, David acaba por conquistar aos poucos a confiança de Ellie, uma vez que ambos sobreviveram a um ataque em massa de infetados e o mesmo acabou por salvar a vida da nossa protegida. Mas num mundo onde os conceitos de bem e mal já não são muito claros, rapidamente chegamos à conclusão que David não é bem o tipo de pessoa por quem se queria fazer passar inicialmente.

Quando tudo está mais calmo, David refere que não acredita em sorte e que tudo acontece por uma razão, revelando que muitos dos homens morreram numa cidade próxima às mãos de um louco que se fazia acompanhar por uma jovem rapariga. Assim que David termina a frase, é visível no olhar de Ellie a vontade de fugir rapidamente daquele local, provocando automaticamente uma reação de mea culpa no jogador. O jogo volta a fazer um bom trabalho em colocar as nossas ações em perspetiva, já que todos os homens que nós matámos na universidade pertenciam a uma sociedade e, tal como nós, apenas estavam a fazer o que necessitavam para sobreviver. Apesar de ter ajudado a “chacinar” os seus homens, David oferece proteção a Ellie, que esta recusa prontamente, e revela desde já um fascínio um pouco estranho pela jovem rapariga.

Tal como já havia sido esclarecido quando Ellie pediu medicamentos a David, Joel está vivo, mas em muito mau estado, verificando-se assim uma inversão de papéis, na qual é Ellie quem procura proteger e tratar do nosso ferido protagonista que talvez já tivesse morrido em condições normais, mas que, para bem da narrativa, permanece entre o mundo dos vivos. Também expectável era o facto de Ellie ter sido seguida por alguns homens do grupo de David que obrigam a protagonista a fugir e ao mesmo tempo atrair os homens para longe de Joel. Embora dê bastante luta a todos os que lhe aparecem pela frente, Ellie acaba por ser aprisionada por David. Se na narrativa secundária de Ish as referências ao canibalismo podem ser discutíveis, na comunidade de David não existe qualquer dúvida de que o canibalismo é uma estratégia bem presente para assegurar a sobrevivência de várias famílias. O desespero de Ellie faz com que, mesmo sabendo que muito provavelmente poderá estar na comida carne humana, esta nem sequer hesite em começar a comer o que lhe é oferecido. De salientar que Ellie chama “animal” a David, algo que terá um simbolismo bastante demarcado no final do título, e também que o mesmo não nega a acusação de que a sua comunidade recorra ao canibalismo para sobreviver. Apesar de Ellie o continuar a tratar como um inimigo, David não desiste da sua intenção de a transformar numa guerreira da sua comunidade e provavelmente até mais que isso. O principal antagonista do jogo a esta altura trata a protagonista de uma forma muito estranha, deixando ficar no ar algumas ideias que ficarão mais evidentes mais à frente.

Depois de algumas horas a controlar Ellie, voltamos finalmente a assumir o controlo de Joel que, ainda bastante combalido, procura Ellie, tendo perfeita noção de que esta poderá estar em perigo. Esta separação momentânea dos dois protagonistas permite ao jogador ver pela primeira vez a verdadeira natureza de Joel, sendo possível perceber como ele conseguiu sobreviver durante 20 anos neste mundo pós-apocalíptico e o porquê de Tommy ter dito que os atos que cometeram não valeram a pena para sobreviver no mundo degradado em que se encontram. A cena de tortura é o momento perfeito para estabelecer um paralelismo entre Joel e David. Poderá Joel mesmo ser considerado o herói da história quando comete atos tão ou mais violentos que os seus maiores inimigos?

Quando regressamos para a história de Ellie, percebemos que a postura de David mudou drasticamente e este está já decidido em matá-la. No entanto, Ellie morde-o e infeta o principal antagonista, porque apesar de esta ser imune ao vírus, isso não significa que não possa ser um meio válido de transmissão da infeção. Como verdadeira guerreira que é, Ellie consegue fugir e dá por si no meio de um nevão intenso que acentua de forma perfeita a tensão do momento, ao mesmo tempo que realça a vulnerabilidade da jovem rapariga. Ainda assim, o nevão acaba por ser o seu maior aliado, pois permite que a mesma se consiga manter longe do olhar dos inimigos até à batalha final com David.

A batalha final acaba por ser uma alusão extraordinária do sentimento de vulnerabilidade que nos acompanha durante todo o tempo em que controlamos Ellie. Perseguidos por um homem maior e com mais força que nós, existe um esforço suplementar por parte do jogador em proteger a jovem rapariga de um louco que a está a tentar matar. Não sei se mais alguém sentiu isso, mas ver Ellie morrer devido ao nosso fracasso é muito mais intenso do que acontece com Joel, muito provavelmente porque desde cedo o nosso cérebro está programado para a tentar proteger ao máximo. Especialmente quando David começa a deslocar-se sem fazer qualquer tipo de som, o pânico é total, pois ser apanhado de surpresa pelas costas não é lá muito engraçado. Terminada a batalha, David tem uma demonstração de poder sobre Ellie que ainda assim consegue matá-lo e, à falta de uma palavra melhor, destruí-lo completamente com uma “machete”. Já ao lado de Joel, Ellie diz que “ele tentou…”. Apesar de não ficar completamente claro que se ela se estaria a referir a uma tentativa de violação ou simplesmente de a matar, é fácil perceber que aquele momento a marcou bastante e também que Joel a aceitou finalmente como parte da sua família. Na minha opinião penso que a tentativa de violação é perceptível se tivermos em conta o comportamento de David antes de Ellie lhe partir o dedo. E mesmo que não fique claro essa tentativa, podemos afirmar sem grandes dificuldades que este o poderia fazer se assim o desejasse.

Achei muito interessante a entrevista que Nolan North, voz de David, deu à IGN e na qual explicou a sua perspetiva sobre as ações da personagem a que dá voz. Para North, David vê na jovem rapariga o assegurar da manutenção da humanidade por se tratar de uma personagem feminina forte e que é imune à infeção que provocou a queda da sociedade, podendo muito bem representar o seu futuro. Para além disso, North compara o mundo pós-apocalíptico de The Last of Us com os séculos de predominância da monarquia em que era normal jovens raparigas casarem com homens mais velhos. Por isso, pode considerar-se isto tudo uma questão de perspetiva e, embora erradas, a motivações de David não são assim tão questionáveis num mundo como este, uma vez que ele apenas está a fazer aquilo que acha ser melhor para assegurar o seu futuro.

Mais um salto temporal e estamos agora na primavera. Plantas florescem, as árvores voltam a estar cobertas de folhas verdes, mas algo está diferente: a relação entre Ellie e Joel sofreu uma mudança drástica. A secção começa com Ellie a olhar para um mural de um veado, o que imediatamente nos transporta para as peripécias que decorreram durante o inverno e que tiveram origem precisamente na caça ao veado. Pode parecer um apenas um pormenor, mas é o suficiente para nos mostrar que, apesar do salto temporal, todos os acontecimentos dessa secção ainda estão bem presentes na mente de Ellie. Mais uma vez, verifica-se uma inversão de papéis entre os dois protagonistas. Joel está muito mais conversador, enquanto Ellie se movimenta de cabisbaixo sem sequer responder aos comentários do seu protetor. Tal como havia acontecido antes da morte de Tess, mais uma vez uma personagem volta a fazer planos para o futuro: Joel promete ensinar Ellie a tocar guitarra. É de salientar também um momento, que achei simplesmente brilhante, em que a Naughty Dog utiliza a própria repetibilidade da jogabilidade para transmitir novamente o estado de espírito abatido de Ellie. Falo como é óbvio do momento em que Joel pede a Ellie para lhe chegar a escada e esta encontra-se perdida nos seus pensamentos sem sequer ouvir o pedido. Pormenores como este são um excelente veículo para o crescimento da personalidade dos protagonistas e para a forma como o jogador vive a narrativa.

Avancemos agora para o momento mais belo de todo o jogo, pelo menos para mim, o encontro com as girafas. Ellie desinteressa-se de tudo o resto e começa a correr para as janelas, exclamando incessantemente para que Joel se apresse a acompanhá-la. À medida que vamos percorrendo os corredores do edifício vamos sentindo um arrepio na espinha pois não sabemos o que ela viu. Terão sido infetados, Caçadores ou os Pirilampos? No meu caso, a surpresa quando me deparei com aquele animal gigantesco foi ainda maior, pois em momento algum eu reparei nas silhuetas e até pescoços das girafas que iam aparecendo no horizonte quando joguei esta sequência pela primeira vez. O primeiro contacto com a girafa, incluindo o pormenor de a podermos acariciar, assenta na perfeição ao estado de espírito das personagens, sendo este o primeiro momento de total de tranquilidade em todo o jogo, o primeiro momento em que os nossos pensamentos não são imediatamente ocupados pelo instinto de sobrevivência e no qual podemos desfrutar de toda a beleza da natureza. Ainda assim, existe sempre uma sensação de que este momento é como uma espécie de calma antes da tempestade, um último momento de ligação entre as personagens antes de tudo dar para o torto.

O aparecimento das girafas é uma alusão perfeita ao facto de não ter sido o mundo a acabar, uma vez que este continua o seu percurso natural, mas sim ter sido simplesmente a humanidade e a civilização a cair. A humanidade pode estar bastante ameaçada, mas a vida no planeta Terra permanece ativa e a própria queda da civilização permitiu que a Natureza voltasse a ser o elo mais predominante das paisagens que preenchem o horizonte. O título oferece-nos a possibilidade de ficar o tempo que quiserem ou necessitarem a ver as girafas e a lindíssima paisagem fornecida por este mundo pós-apocalíptico concebido pela Naughty Dog, acentuando a tranquilidade e paz do momento. Antes de prosseguirem até ao hospital de Salt Lake City, Joel faz questão de dizer a Ellie que esta não é obrigada a sacrificar-se pela salvação da humanidade, ao que a jovem rapariga responde dizendo que tudo o que passaram “não pode ser em vão”, mostrando-se conformada com o seu destino, embora Ellie não tenha bem noção do que terá de sacrificar. Digo isto porque me parece óbvio que Ellie não está preparada para morrer, pois diz a Joel que, depois de tudo estar resolvido, os dois poderão ir para onde quiserem, o que basicamente demonstra que a jovem rapariga não está à espera que a salvação da humanidade signifique a sua morte. É também aqui que Joel admite pela primeira vez ser impossível fugir ao passado quando Ellie lhe dá a foto de Sarah.

Depois de um pequeno percalço em que Ellie quase morre afogada, os dois protagonistas são resgatados pelos Pirilampos e levados para o hospital onde está localizado o laboratório do grupo rebelde. O reencontro com Marlene, líder dos Pirilampos, fica marcado por uma completa alteração da visão que temos sobre os rebeldes. Se anteriormente os Pirilampos eram aliados do jogador pois ajudavam as pessoas e eram os mais preocupadas em encontrar a cura que pudesse salvar a humanidade, agora os Pirilampos são os nossos principais inimigos e Marlene é a maior vilã do jogo. Tudo porque estes se colocarão entre nós e Ellie, uma vez que Marlene não deixa Joel ver Ellie, pois esta já se encontra a ser preparada para cirurgia. É neste momento que tanto Joel como o jogador percebem que a única forma de produzir uma vacina é removendo o cérebro de Ellie, local onde o Cordyceps se desenvolve, o que como é óbvio significará a morte da nossa protegida. Como seria de esperar, Joel opõe-se à ideia de que a possível salvação da humanidade justifique a morte da rapariga por quem lutou tanto para proteger e que inclusivamente já aceitou na sua família.

Motivado pelo amor que tem por Ellie, Joel entra em modo de destruição total contra os Pirilampos, sendo que mais uma vez o protagonista volta a revelar a sua verdadeira natureza longe do olhar de Ellie. A forma como Joel obtém as informações sobre a localização da jovem rapariga é absolutamente brutal e volta a levantar dúvidas sobre se ele será de facto o verdadeiro herói desta história. Uma coisa é certa: Marlene tem enorme fé que Ellie represente a salvação da humanidade e faz questão de deixar as suas justificações gravadas à mãe de Ellie que já há muito faleceu. Chegado à sala de cirurgia, Joel mata o cirurgião, provavelmente um dos últimos cirurgiões cerebrais do mundo, sem sequer hesitar e apressa-se a retirar Ellie da mesa operatória. De notar a forma como a enfermeira chama “animal” a Joel, tal como Ellie havia feito com David, o que mais uma vez mostra o quão relativo é a noção de herói e vilão neste mundo.

Tal como no prólogo, voltamos a transportar alguém querido de Joel nos braços enquanto fugimos. Se no início fugíamos de infetados com Sarah ferida nos braços, agora fugimos com Ellie inconsciente dos Pirilampos. Poderia pensar-se que estariamos perante uma repetição do prólogo, mas que desta vez seria Joel a morrer, mas felizmente tal não aconteceu. No confronto final com Marlene, esta afirma que Ellie queria ser a salvação da humanidade e que Joel está a desrespeitar o seu desejo. Ainda assim, o medo de perder a jovem rapariga faz com que o nosso protagonista ignore completamente este argumento e mate, sem qualquer misericórdia, a líder dos Pirilampos, levando Ellie consigo, voltando a mostrar a sua verdadeira natureza. Durante a viagem de regresso, Joel mente descaradamente a Ellie, dizendo que os Pirilampos já encontraram várias pessoas imunes como ela, mas que já pararam de procurar uma cura, algo que não poderia estar mais longe da verdade.

Mais uma vez, a relação de Ellie e Joel volta a sofrer algumas alterações significativas. Joel começa a falar abertamente sobre Sarah com Ellie, ficando claro que ele já vê a jovem rapariga como sua filha. Antes de chegarem até à comunidade de Tommy, Ellie revela o seu passado a Joel. A protagonista diz continuar à espera da sua vez de morrer, principalmente depois de ver a sua melhor amiga, Tess e Sam morrerem antes dela. Joel percebe a dor e sofrimento de Ellie, mas diz que é necessário encontrar sempre algum motivo para continuar a viver. Questionado sobre se tudo o que tinha dito sobre os Pirilampos era verdade, Joel volta a mentir, com Ellie a responder simplesmente “Ok”.

Na minha opinião, Ellie não acredita em Joel e percebe que este lhe está a mentir, mas aceita a sua resposta. Penso que a jovem rapariga entende perfeitamente que algo mais se passou no hospital e que Joel não lhe contou, até porque este nunca lhe explica porque está ela vestida com roupa de hospital. Ainda assim, ela aceita a resposta de Joel porque sabe que ele precisa dela para sobreviver, pois sem Ellie o protagonista morre psicologicamente, perdendo a única razão pela qual ainda luta para sobreviver. Por outro lado, Ellie também não contesta Joel, uma vez que também ela percebe que foi com o nosso protagonista que conseguiu evitar aquilo que mais temia, ou seja, morrer sozinha.

Sobre a questão de Joel ser o grande herói ou maior vilão da história, eu penso que é tudo uma questão de perspetiva e da personalidade e experiência do jogador que controla a personagem. Para mim, Joel não é nem o vilão nem o herói pela simples razão de que num mundo devastado e virado de pernas para o ar como o de The Last of Us não existem absolutos como o bem e o mal. Cada um limita-se a fazer aquilo que pode para sobreviver mais um dia. No meu caso, eu penso que Joel não é o vilão da história porque, na mesma situação, eu faria o mesmo, ou seja, nunca sacrificaria alguém querido para mim pela ínfima possibilidade de que isso pudesse levar a salvação da humanidade. No entanto, compreendo quem acha que o protagonista é o maior vilão do jogo, pois na verdade as suas ações acabam por condenar a humanidade a mais uns anos de luta pela sobrevivência até que o inevitável aconteça e a espécie humana seja extinta.

Outro aspeto que é importante denotar é quais serão as verdadeiras motivações dos Pirilampos. O jogo faz um bom trabalho em retratar este grupo rebelde como pessoas que procuram voltar a levar a humanidade ao estado em que encontrava antes do início da pandemia e como um grupo que procura ajudar todos a fugir à lei marcial imposta pelo governo nas zonas de quarentena. Mas o que nunca é explicado é como os Pirilampos atingiram o estatuto de terroristas junto das forças militares ou o porquê de Tommy, que é muito possivelmente a pessoa mais decente e bondosa que conhecemos durante todo o jogo, ter decidido abandonar o grupo de rebeldes. Tudo isto me faz pensar que talvez existam segundas intenções dos Pirilampos que poderão não ser tão agradáveis como as intenções que o jogo nos quer fazer acreditar que o grupo tem. Mas tudo isto já sou só eu a divagar e posso estar muito longe da verdade.

E assim concluo este já longo especial sobre uma das melhores narrativas que alguma vez tive oportunidade de experienciar nesta indústria. É com grande entusiasmo que vejo os videojogos tornarem-se um meio de entretenimento cada vez mais maduro capaz de apelar a uma vasta audiência. Mas e vocês? Quais os momentos que mais vos marcaram? Chegaram a derramar alguma lágrima? Qual a vossa opinião sobre o final? Espero a vossa resposta nos comentários e já sabem que podem discutir abertamente comigo todos os detalhes da narrativa. Sobre uma possível e bastante provável sequela, eu espero que esta seja de facto uma realidade, mas também espero que não haja mais nenhum tipo de referência à história de Ellie e Joel.

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