por - Jul 31, 2013

O que andamos a ver, 14 de maio

Esta semana, há duas séries que representam à sua maneira o que de melhor se vai fazendo no género da comédia. Silicon Valley, na sua quarta temporada, e Master of None, na sua segunda temporada, têm piada sem terem piadinha. São inteligentes, abordam temas muito mais além do género em que se inserem para sublinharem a punchline. São as recomendações de Filipe Urriça e de Pedro Marques dos Santos, respectivamente.

Também tive oportunidade de as ver, contudo esta semana o meu destaque vai para Fat City, filme que John Huston realiza dando vida ao argumento de Leonard Gardner, que já tinha escrito o livro original. É um filme com boxe, mas não é apenas sobre o desporto. São gerações diferentes, que lutam dentro, mas também fora do ringue. Vi a versão publicada recentemente em Blu-ray, com a alta definição da fazer jus ao trabalho de Conrad Hall como cinematógrafo.

Ou seja, é uma semana com propostas diferentes, mas que acabam por representar mentes criativas em boa forma, em excelente forma. Se tiverem oportunidade, vejam-nas.

Imagens O que Andamos a Ver 14 de maio 2017

Filipe Urriça, Silicon Valley – Quarta Temporada, (TVSéries)

Silicon Valley continua excelente. Depois de ter visto os primeiros três episódios que estavam gravados na minha box, posso fazer esta afirmação sem dúvida alguma. Embora a melhor piada da série continue a ser a cena final do algoritmo encontrado por Richard e os seus amigos numa sessão de brainstorming para vencerem o concurso da TechCrunch. Ou a cena protagonizada pelo multimilionário Russ Hanneman a fechar a porta do seu carro.

Richard está nesta quarta temporada a desenvolver uma ideia de uma “nova Internet”, cansado da sua empresa se ter tornado dependente do número de utilizadores ativos para conseguir obter financiamento. Porém, enquanto este caricato programador nem sequer dorme para materializar o seu conceito, descobre uma forma de encurtar o trabalho que tem feito e Gavin Belson, CEO da Hooli, é um dos bloqueios para aceder a esse conteúdo. A forma como reage é hilariante, em vez de atirar o material que tem na mão de forma dramática e violenta para o armário, complica esta simples reação e humilha-se a ele próprio. 

A dinâmica Dinesh e Gilfoyle continua a funcionar na perfeição. Dinesh ainda é gozado incansavelmente por Gilfoyle, mas os problemas assumem outra dimensão com as pequenas alterações às suas funções que agora desempenham dentro da companhia. Esta dupla antagónica mantém-se hilariante. Jared também teve um momento que teve tanto de embaraçoso como de cómico. Tal como o seu amigo Richard, não tem a capacidade de expressar as suas emoções de uma forma normal: ou são demasiado efusivos ou retraídos. Não existe um meio termo com estes dois.

A única infelicidade de ver Silicon Valley é de saber que nas temporadas anteriores via-o no dia a seguir a ter passado Game of Thrones. Agora temos todos de esperar até 16 de julho para ver a continuação do épico de fantasia medieval de David Benioff e D.B. Weiss. Não obstante, ficar com esta tirada de humor de Mike Judge é uma boa forma de passar todos os inícios das semanas.

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Pedro Marques dos Santos, Master of None (Netflix)

Não é segredo nenhum que a série original da Netflix assinada por Aziz Ansari, mais conhecido pelo seu papel na série Parks and Recreation, é uma das minhas favoritas no catálogo do serviço de streaming. Escrevi já há muitos meses, quase tantos como aqueles que os fãs tiveram de esperar pela nova temporada, sobre a primeira fornada de episódios nesta rubrica e agora que a segunda dezena de episódios está finalmente disponível, posso já fazer um balanço inicial da mesma.

Vistos os primeiros quatro capítulos da temporada – que representam quase metade da sua duração, uma vez que Master of None fica-se por temporadas de apenas dez episódios -, é inegável que o brilhantismo e qualidade da primeira temporada não foi apenas um acaso ou um golpe de sorte. Não demora muito até que a escrita e o humor nos volte a prender à vida de Dev Shaw, com o qual nos reencontramos após a sua decisão de se mudar momentaneamente para Itália.

Tal como na primeira, a segunda temporada volta a alternar entre um arco narrativo que se mantém transversal a toda a série e episódios quase independentes que se focam numa temática muito específica – por exemplo, o terceiro capítulo foca-se no papel da religião na vida do protagonista e nas dos seus parentes mais próximos. É nesta alternância entre temas e foco que torna Master of None tão especial, especialmente porque o consegue fazer sem perder a coesão, sem perder a boa disposição e o bom humor de uma série primariamente focada na comédia.

Como não poderia deixar de ser, a série continua a versar bastante sobre o lado mais romântico da vida e na procura de Dev por aquela pessoa especial. O quarto episódio é, daqueles que já tive oportunidade de ver, o mais focado nesse tema, abordando as aplicações amorosas e o processo daqueles que realizam primeiros encontros em série. Possivelmente o melhor dos quatro episódios que vi, a segunda temporada de Master of None arranca de forma poderosa – melhor que a primeira – e a manter a qualidade promete continuar a defender o estatuto como um dos melhores conteúdos que Netflix tem para oferecer.

Imagens O que Andamos a Ver 14 de maio 2017

Pedro Martins, Fat City (Blu-ray)

Fat City (1972), que em Portugal ficou conhecido pelo simpático título Cidade Viscosa, é um filme que na sua essência fala sobre o boxe, porém, o argumento acaba por extrapolar de forma crua e suja para as vidas que se reuniram à volta do desporto. Não é um filme sobre grandes campeões que passam o filme à espera do grande final para serem coroados campeões no ringue e na vida.

O argumento foi escrito Leonard Gardner, que já tinha escrito o livro onde o filme de John Huston se vai inspirar. Há um pugilista outrora no topo da sua forma, Tully, e um pugilista,  Ernie, que está a dar os primeiros passos. Não é à toa que Fat City começa com um encontro aleatório entre as duas gerações do desporto e termina com os dois. Pelo meio, há estas duas gerações à procura de se afirmarem novamente – um pelo regresso, outro pelo arranque.

A versão do filme que eu vi foi publicada recentemente pela Indicator em Blu-ray, ou seja, a cinematografia de Conrad Hall apresenta-se em alta definição, o que serve para dar uma cor e uma vida especial à cidade de Stockton. Há bares, há o trabalho forçado no campo para se estourar o corpo e receber pouco, um paralelismo inteligente para o regresso de Tully aos ringues.

Será sempre discutível se é o melhor filme sobre boxe, mas o que posso dizer é que está entre os melhores. Tully é interpretado por Stacy Keach, mas o destaque vai para Ernie, personagem que ganhou corpo graças ao talento de Jeff Bridges. Importa mencionar que muita da autenticidade se deve, além do argumento de Gardner, à brilhante decisão de colocar vários pugilistas na vida real a dar vida a outras tantas personagens.

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