O futuro distópico dominado por um desenvolvimento tecnológico descontrolado é um dos temas prediletos da ficção e como é óbvio os videojogos não fogem à regra. Explorar até onde o ser humano estará disposto a deixar a tecnologia tomar conta da sua vida, tornando-o quase como um ser obsoleto no que diz respeito ao mundano, às tarefas do quotidiano é território já bastante calcorreado. Mais do que a hipotética revolta dos robôs inteligentes, é a ausência de propósito do humano que mais é colocada em evidência neste tipo de histórias.

State of Mind, o novo jogo da Daedalic Entertainment, segue essa mesma via com a sua narrativa. O ano é 2048, um futuro não muito longínquo do nosso presente, e o progresso tecnológico é por demais evidente. Carros voadores, carros sem condutor, arranha-céus a cobrir o horizonte em todas as direções, robôs inteligentes capazes de realizar inúmeras funções, drones de segurança, comunicação à distância por hologramas, enfim, o sonho de qualquer fanático da ficção científica está aqui perfeitamente representado.

Como não poderia deixar de ser, o progresso e a conveniência da tecnologia tiveram os seus custos. A poluição está descontrolada, havendo pessoas a serem testadas para a possibilidade de colonizarem o planeta Marte, e as divisões entre classes sociais parecem mais acentuadas que nunca. A contínua utilização da tecnologia para colocar a humanidade sob controlo também trouxe consigo os inevitáveis grupos revolucionários - ou terroristas, se preferirem - que pretendem travar aquilo que encaram como uma ameaça à nossa espécie.

Das cerca de duas horas que tive oportunidade de jogar do título, a representação e apresentação do seu cenário futurista foi sem dúvida aquilo que mais me impressionou. Sim, é verdade que os pontos narrativos habituais deste género de ficção estão cá todos e estão longe de surpreenderem, contudo, State of Mind consegue envolvê-los de forma interessante através de um arco narrativo intrigante e que parece não querer colocar demasiada atenção no clichés do costume.

Dito isto, não há como negar que o arranque da obra está longe de ser propriamente entusiasmante, sendo acima de tudo pautado pela confusão inerente à ausência de explicação em relação ao que vamos assistindo no ecrã. O protagonista é Richard Nolan, um premiado jornalista que após um acidente de viação dá por si com dificuldade em recordar os momentos antes e após o acidente. Claramente contra o rumo para o qual a tecnologia vai levando a humanidade, Nolan apresenta-se quase como o elemento mais vocal desta resistência.

Ainda assim, Nolan não é a única personagem jogável da obra. Segundo a produtora, serão mais cinco as personagens que poderão assumir o controlo ao longo da aventura. No segmento a que tivemos acesso para já, o título alternou frequentemente entre a distopia de Nolan e a utopia de Adam, personagem sobre a qual nos é oferecida muito pouca informação para além do facto de que também esteve envolvido num acidente que lhe afetou a memória recente. Os paralelismos entre as vidas das duas personagens são inúmeros, tornando-se progressivamente mais claro que existe efetivamente uma ligação entre os dois.

Ultrapassada a confusão inicial, State of Mind vai lentamente desvendando os trunfos da sua narrativa e a conspiração em relação à qual o jornalista dá por si mesmo no epicentro. Não querendo avançar com grandes detalhes, digo apenas que o potencial para uma história bastante interessante e de constantes voltas e reviravoltas ficou bem patente nesta pequena amostra, restando apenas saber se o jogo será capaz de o capitalizar e oferecer algo memorável e que tenha algo de verdadeiramente importante para dizer sobre a temática.

Um dos aspectos mais curiosos do título é o seu estilo visual. Fazendo contrastar os cenários ricos em detalhe e efeitos visuais de enorme qualidade com uma modelagem das personagens assente em polígonos com um grau de detalhe bem inferior, a obra coloca desde logo em evidência a dicotomia entre a toda poderosa tecnologia e o cada vez mais obsoleto ser humano. Outra dicotomia é também visível nas diferenças gritantes entre o negrume tenso e deprimente do mundo de Nolan e o branco pacífico e quase celestial do mundo de Adam.

Demora um pouco até colocar as peças no seu devido lugar, mas quando o faz, State of Mind apresenta-nos uma narrativa da qual queremos ver mais. A jogabilidade não teve direito a grande destaque na porção que testámos, pelo que aguardamos para ver de que forma a mesma vai progredir ao longo da aventura. Com tudo isto dito, os primeiros sinais da obra da Daedalic Entertainment são claramente positivos.

State of Mind chega ao PC, PlayStation 4, Xbox One e Nintendo Switch no próximo dia 15 de agosto.

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