por - Oct 24, 2016

Antijogo: A Eterna Problemática das Mecânicas Defensivas de FIFA

FIFA 17 já está disponível nas lojas portuguesas. A nossa análise também já se encontra ao vosso dispor para uma leitura cuidada daquilo que a nova entrada da série faz ou tenta fazer para se diferenciar da competição e para iterar sobre o capítulo anterior. É provável que quando lerem estas palavras já tenham tido oportunidade de dar uma vista de olhos pela minha análise ao título, mas caso não o tenham feito, a conclusão geral é que estamos perante mais uma iteração sólida da série da EA Sports que sofre de alguns problemas de equilíbrio no que diz respeito ao poderio das defesas em relação aos ataques.

Foi esse facto que serviu de mote para abordar finalmente um tema que já desde há alguns anos a esta parte gostaria de discutir relativamente à série FIFA. Por isso mesmo, é importante esclarecer que este artigo não se baseia num problema, ou pelo menos naquilo que eu considero um problema, que seja exclusivo à mais recente entrada da série de simulação de futebol. Na verdade, aquilo sobre o qual pretendo escrever alguns parágrafos abrange todas as suas obras, desde FIFA 12 até ao recentemente lançado FIFA 17.

“Porquê FIFA 12?”, perguntam vocês. Porque foi no jogo correspondente à temporada de 2011/2012 que a produtora norte-americana implementou aquilo a que decidiu chamar de Defesa Tática. Tendo sido de longe uma das principais introduções ou, se preferirem, alterações na jogabilidade de FIFA durante a totalidade da geração anterior de consolas, aquelas que continuam a ser as mecânicas defensivas por definição de todas as entradas da série desde então continuam sem me convencer e voltam mais uma vez, tal como tem acontecido todos os anos desde a sua implementação, a deixar um sabor amargo na minha boca e a impedir-me de voltar a perder horas a fio no modo carreira e na componente online destes títulos.

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O meu historial com a série da Electronic Arts é bastante longo. Na verdade, tenho em minha posse todas as entradas da série desde o FIFA 2001 na velhinha PlayStation One. Eu era aquele “otário” que no alto da sua juventude, durante a era da PlayStation 2, defendia com unhas e dentes que FIFA era melhor que Pro Evolution Soccer, muito embora comprasse e jogasse as duas séries todos os anos. Estive sempre ao lado da série à medida que esta foi evoluindo e se tornando no gigante dominador em que se transformou no momento de dar o salto para a geração Xbox 360 e PlayStation 3. Dediquei mais horas do que gostaria de admitir nas entradas de qualidade excecional e nas iterações menos felizes, pelo que me custa agora não conseguir continuar essa tradição.

Mas o que é afinal a Defesa Tática? A Defesa Tática é o nome dado pela EA Sports à sua tentativa de tornar os momentos defensivos de FIFA mais realistas, removendo o botão que vos permitia pressionar de forma constante o portador da bola e substituindo-o por uma miríade de controlos que vos obrigam a pensar melhor estes momentos do jogo e a abordar as investidas adversárias de forma mais cuidadosa. No plano teórico, esta ideia tinha tudo para ser um sucesso numa série que sempre se orgulhou de oferecer uma experiência mais realista, comparativamente à jogabilidade mais arcada do seu rival.

Depois de anos habituado aos controlos da Defesa Legacy, a transição para o novo esquema não foi fácil. Aliás, de tal forma não foi fácil que, seis jogos e anos depois, aqui estou a escrever um texto sobre isso. Atualmente, existem botões para contemporizar, para realizar o corte de pé ou de carrinho, para utilizar o físico para afastar os jogadores mais franzinos da bola e outras opções que parecem apenas estar ao alcance do mais hardcore dos jogadores hardcore. Acima de tudo, a estratégia passa pela contenção, pelo evitar da tendência de premir de forma constante o gatilho para sprintar e por escolher o momento certo de entrada à bola.

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O problema é que continua a existir uma percentagem significativa de jogadores – na qual eu me incluo – a ter dificuldades em dominar estes controlos, mesmo seis anos depois da sua introdução. A Defesa Tática coloca o controlo totalmente nas mãos do jogador e isso significa que têm de estar sempre focados a 100% durante as partidas, pois ao mínimo erro e corte mal medido estarão a abrir buracos na defesa que qualquer jogador com o mínimo de habilidade será capaz de aproveitar com facilidade.

Por alguma razão, todos estes anos depois, a opção de substituir Defesa Tática pela Defesa Legacy continua presente em FIFA 17. Isto significa que ainda existe um número suficientemente significativo de jogadores a fazer uso deste esquema de controlo, pois caso contrário a EA Sports teria uniformizado os controlos como fez na componente online. Mas esta problemática torna-se ainda mais evidente este ano com as melhorias significativas da inteligência artificial defensiva no novo título. Melhorias que dificultam os ataques, provocando mais perdas de bolas e passes intercetados, e fazem com que o jogo seja muita mais dividido e, por consequência, tenham de passar mais tempo a defender.

Na verdade, a inteligência artificial defensiva é tão boa que alguns jogadores até já perceberam que é mais fácil recuperar a bola, pousando o comando e deixando os restantes jogadores da equipa preocuparem-se com as tarefas defensivas do que a tentarem recuperar a bola por sua iniciativa. Basta lerem este texto publicado por Wesley Yin-Poole no Eurogamer.net do qual destaco esta passagem: “Eu pousei o comando enquanto tinha uma vantagem de um golo para testar a eficiência de deixar o computador defender e funciona bastante bem. Bem o suficiente, pelo menos. FIFA 17 não é impossível de jogar. Um jogador habilidoso conseguirá marcar-vos se simplesmente não jogarem. Mas fiquei surpreendido com a eficiência do computador quando o deixamos fazer todo o trabalho.”

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Se tiverem o total domínio de todas as opções à vossa disposição para recuperar a bola, é inegável que FIFA oferece uma experiência bem mais realista do que o pressionar do botão X para perseguir a bola até ao infinito como acontece em PES. Mas realismo não é tudo e um jogo tem de ser, acima de tudo, divertido e, na minha opinião, já há muito que defender deixou de ser divertido em FIFA e passou a ser quase um segundo emprego. Sim, durante estes últimos anos houve momentos em que me consegui adaptar aos controlos e começar a defender de forma eficaz após várias horas e dias de jogo consecutivos. Mas bastava parar de jogar durante uma semana, para que quando regressasse à obra tivesse que recomeçar todo o processo novamente.

Mas mais do que período de aprendizagem e de habituação aos controlos, o que mais me incomoda na Defesa Tática é a forma como os jogadores aparentam não ter qualquer noção de timing ou de espaço no momento de ataque à bola e muitas vezes nem sequer a procuram, limitando-se a entrar de carrinho ou a esticar a perna na direção para onde estiverem virados. Isto faz com que seja incrivelmente fácil para um jogador minimamente experiente nestas andanças consiga dizimar qualquer adversário que não saiba defender nos jogos online.

Se jogaram FIFA online nos últimos anos, de certeza que já passaram por isto e já estiveram nos dois lados da barricada. Realizam meia dúzia de jogos contra a inteligência artificial para se ambientarem e depois partem para o modo online Épocas. Invariavelmente, o vosso primeiro jogo será sempre contra um adversário de qualidade duvidosa que sabe atacar, mas que é um desastre a defender. Um pouco como vocês nos primeiros momentos com uma nova entrada da série.

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História do jogo? Uma partida que acaba 4-3 e em que praticamente todos os ataques deram golo ou uma jogada de golo iminente porque os vossos defesas parecem baratas tontas e o adversário percebe que basta ziguezaguear meio campo com o mesmo jogador, ou realizar um passe em desmarcação após ultrapassar um ou dois jogadores, para conseguir aparecer isolado na cara do guarda-redes. Aliás, foi precisamente isto que aconteceu na minha primeira partida online em FIFA 17. (PS: Foi um Porto x Benfica que acabei por ganhar, pelo resultado já mencionado, com um erro do guarda-redes adversário a cinco minutos do fim.)

Todos nós já disputámos partidas online em que utilizámos esta tática e outras em que fomos vítimas da mesma. É por isso que todos os anos, mas especialmente em FIFA 17 pelos motivos já mencionados, assistimos ao estranho fenómeno que faz com que os resultados sejam magros com o CPU e assim que damos o salto para as primeiras divisões, ou seja, as últimas no que diz respeito à qualidade, do modo Épocas damos de caras com jogos que terminam 4-3, 5-2, 3-3 e outros resultados avolumados semelhantes. Na verdade, a estratégia das constantes mudanças de direção é tão eficaz que a própria inteligência artificial a utiliza contra nós nas dificuldades mais elevadas.

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É por estas e por outras que FIFA 11 continua a ter um lugar especial no meu coração e a ser um dos meus favoritos da série, porque foi o último a fazer uso dos controlos mais arcada e o último em que consegui ser competitivo online sem ter de perder metade de uma vida para reaprender os controlos sempre que parava de jogar durante alguns dias. Mas mais do que habilidade, ou neste caso falta dela, para dominar todos os aspetos da Defesa Tática de forma consistente, é o facto de prejudicar significativamente a minha diversão com os últimos títulos da série que me fez querer escrever este texto e partilhar uma opinião que me tem acompanhado desde o lançamento de FIFA 12. Caso não concordem, podem sempre limitar-se a utilizar a expressão que os jogadores de Dark Souls tornaram famosa e afirmar do fundo dos vossos pulmões: Git Gud.

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