por - Apr 4, 2013

O que andamos a ver, 11 de novembro

Ausente na semana passada, a rubrica do VideoGamer Portugal que mostra aos nossos leitores aquilo que a equipa tem andado a ver está de regresso, com Marco Gomes a escrever novamente sobre o Guia de Portugal, mais concretamente, sobre os episódios II e IV da obra assinada por João Canijo.

O Filipe Urriça, depois de Jack Reacher na última edição desta rubrica, teve agora oportunidade de assistir a Crime no Expresso Oriente, o filme inspirado nos trabalhos de Agatha Christie. Ainda que não tenha ficado completamente rendido à obra, segundo o autor é um filme “razoável”.

Finalmente, o Pedro Martins aproveitou estes últimos dias para assistir a O Outro Lado do Vento, obra de Orson Welles que se pensava para sempre incompleta. São mais de duas horas para se compreender – ou tentar, pelo menos – o que ia na mente do consagrado realizador que muitos adoravam e outros detestavam.

Marco Gomes, Guia de Portugal Episódios 3 e 4 (DVD)

Felizmente que por contágio nem só maleitas se propagam, enquadrando-se Guia de Portugal num amplo corpo de trabalho onde frutificaram, por defeito em caso de incorreção, Portugal – Um Dia de Cada Vez (2015), Fátima (2017), Fátima: Caminhos da Alma (2017), mini-série televisiva em cinco episódios, Diário das Beiras (2017).

Transmitida no segundo canal da televisão pública entre Abril e Junho de 2017, e disponível para visualização no RTP Play, não deixa a obra de João Canijo eleita para estas linhas de ser um paradoxo, baseando-se no trabalho de Raúl Proença e seus colaboradores que em papel esboçaram um roteiro onde a fotografia rareia e a descrição tem-se na filigrana da palavra, troca o privilégio da paisagem natural/arquitectónica daquele pela humana em seu contexto ritual.   

A particularidade do critério é tanto mais digna de admiração, porquanto, a afinidade dos espécimes eleitos não ter cariz representativo, sendo dali por ali estarem inseridos, e existirem nas muitas horas de filme recolhido, não por reunirem características específicas que os transformem em modelos de tipologia regional.

Algo perfeitamente visível nos dois episódios vistos esta semana, encerrando o primeiro disco da edição em DVD, III-Vila Flor, Torre de Moncorvo, IV-Vila Nova de Foz Côa, fazendo-se companhia de uma família romena radicada no país ou de excursionistas a uma concorrida romaria local, aí aproveitando para deitar boca ao farnel, olho e ouvido aos feirantes.

Filipe Urriça, Crime no Expresso Oriente (TVCine)

Há uns dias, vi na TVCine o que eu achei que poderia ser um bom filme, mas não passou de mediano. Vi "Crime no Expresso do Oriente", uma película que junta grandes nomes do cinema internacional para recriar a mais famosa história dos policiais escritos por Agatha Christie.

Já li o livro e ver o filme foi desapontante, algo que já estava à espera de acontecer. Afinal, não é muito comum um livro ser bem adaptado para filme. O que é surpreendente é de praticamente tudo funcionar, excepto fazer com que nos sintamos preocupados com o futuro das personagens. Não há tempo para uma história como esta ter tempo para germinar na mente de quem vê.

O elenco é constituído por muitos atores que já deram provas de serem mais que competentes, aqui o que falha é uma direção firme e que se foque no essencial, mas que faça as personagens crescer em complexidade até ao momento final.

Crime no Expresso do Oriente é um filme razoável, mas que poderia ter sido muito melhor com uma outra direção. Pessoalmente, o início da película de 2017 perde demasiado tempo a afirmar a personalidade de Hercule Poirot, quando podia muito bem arrancar no embarque da locomotiva. Se gostam da obra literária de Christie, então continuem a apreciá-la no formato original, o filme fica muito aquém do que o livro entrega ao leitor.

Pedro Martins, O Outro Lado do Vento (Netflix)

A chegada de O Outro Lado do Vento à Netflix é um acontecimento. A obra de Orson Welles que muitos pensavam pertencer para sempre ao limbo da produção, foi terminada e disponibilizada na plataforma de streaming, ficando desde já claro que a sua visualização é recomendada, desde que estejam na disposição de trabalhar para compreender a película.

O filme mostra os últimos momentos na vida de um consagrado realizador de Hollywood, a forma como as pessoas se movimentavam à sua volta, o bajulavam e desafiavam. Mas é também sobre um atormentado filme dentro do próprio filme, o que leva obviamente a vários conflitos e a uma tenacidade acutilante no comentário que é feito à indústria.

Perceber até onde se prolonga a vida deste realizador, Jake Hannaford – interpretado por John Huston de forma brilhante – é sempre um desafio, porque a linha que o separa do próprio Welles é muito ténue. O espectador é sempre desafio a contemplar e a resolver estas duas realidades que o filme vai mostrando.

Não esperem, portanto, algo que podem ver enquanto assobiam ou fazem outra tarefa. Além disto, o argumento não contém qualquer ambiguidade nas linhas de diálogo, pois há uma segurança e uma qualidade na escrita inegáveis. Mesmo que não seja o seu melhor filme, fico contente que esteja disponível, pois além de tudo o resto, serve como documento histórico: um retrato dos problemas da indústria pelos quais a própria produção passou durante anos e anos até Orson Welles falecer.

Como nota de rodapé fica ainda a informação que está também disponível Amar-me-ão Quando Eu Morrer, documentário sobre como o filme foi feito.

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