O Apple Arcade não é estranho a receber lançamentos surpresa. Depois de meses à espera, os fãs receberam Mosaic sem grande pompa e circunstância, meses antes do lançamento da Krillbite Studio chegar ao PC - as consolas ainda não foram contempladas com as respectivas versões. Agora, dias antes do Natal, eis Builder’s Journey, um novo videojogo com o carimbo LEGO.

É provável que nunca tenham ouvido falar de Builder’s Journey. A obra foi desenvolvida pela Light Brick Studio e é aqui que começa o interesse que acabará por desaguar na obra propriamente dita. É um estúdio interno na própria LEGO, o que vai contra a corrente da casa dinamarquesa entregar as produções a produtora externas. Além disso, a Light Brick Studio conta apenas com nove pessoas na equipa.

Uma dessas pessoas, contudo, é o diretor criativo Karsten Lund. A nova produtora pode estar a dar os primeiros passos, mas Lund passou uma dúzia de anos na IO Interactive, participando no desenvolvimento de Hitman GO, por exemplo. E é precisamente neste exemplo que estão algumas das inspirações de Builder’s Journey, como provavelmente já tiveram oportunidade de perceber pelas imagens que acompanham este texto.

Builder’s Journey foi o jogo que me acompanhou durante a pausa para o Natal, sendo experimentado num iPad. Contrariamente às grandes produções LEGO, este jogo é muito mais íntimo, muito mais rente ao osso do jogador. É uma obra de puzzles que não quer complicar muito; é uma obra onde construímos partes dos cenários sobretudo para encontrar um caminho entre duas personagens que ilustram a relação de uma figura paternal e o filho, destinados a ficar juntos para avançar até ao próximo nível. Não haver diálogos nem vocalizações não é sinónimo que não estejamos perante uma obra que se esconde das emoções.

Cada cenário é contido em si mesmo, apresentando-se como um pequeno diorama. As áreas apresentam-se cheias de peças LEGO, detalhes que estamos habituados a ver nas construções que trazemos na memória. Tocamos numa peça para a apanhar, pressionamos prolongadamente para a pousar no cenário. Se for necessário, podemos ainda tocar no ecrã (já com a peça no ar) para a rodar. Não há mecânicas profundas para memorizarmos, mas sim o analisar de cada diorama e resolver o caminho que temos pela frente. Podemos ajudar a visão geral que temos da área de jogo, mas tal nunca chegou a ser verdadeiramente uma imposição.

É um sistema de controlos perfeito? Não. Trocar de peça podia ser um processo mais rápido e ocasionalmente a perspectiva que temos do cenário não ajuda em nada a precisão que de colocarmos determinada peça onde queremos. Se eventualmente Builder’s Journey chegar ao PC e/ou as consolas, talvez alguma desta falta de precisão seja mitigada, pois um comando ou um rato conseguem ser mais exacto do que a ponta de um dedo a pressionar o vidro.

Objetivamente, Builder’s Journey não é uma obra longa. Porém, é uma obra onde se demora mais do que é necessário. Como a câmara de jogo está próxima da ação, é possível apreciar todos os detalhes colocados pela Light Brick Studio para nosso deleite. A água que corre numa superfície pensada para simular areia faz-nos imaginar; a lama que borbulha e que faz as plataformas afundarem-se com o peso do jovem protagonista, apresenta a variante tempo à resolução dos puzzles.

Continuando a resolver esta jornada, chegaremos ao verdejante que foi colocado ao lado de uma ponte, a mais lama que escorre pelas delimitações do diorama. Ficará de noite, pai e filho unir-se-ão junto a uma fogueira que é uma peça LEGO laranja, o filho adormecerá primeiro que o pai, que apagará a fogueira colocando uma peça LEGO feita de pedra em cima da chama. Haverá caminhos íngremes, quase na vertical, e uma casa - à qual teremos acesso à cave - antes de vermos maquinaria intrigante a funcionar.

Tudo isto foi pensado para exibir o micro de cada cenário sem nunca esquecer a dica que está no título: isto é uma jornada. E há esse sentido, ou seja, de que ajudamos estas personagens na grande escala, mas também em cada passo que foi dado. Importa mencionar que não podem deslocar-se livremente pelo cenário, precisam de colocar uma peça dourada ao alcance do jovem aventureiro, que dá o pequeno salto sozinho. Há mais do que uma peça por área, mas esta decisão facilita a execução dos puzzles, conferindo também a sensação de que estamos presentes em cada passo dado, em cada situação superada.

Se tiverem uma subscrição Apple Arcade, experimentem Builder’s Journey, pois não perdem nada com isso. Mas mais do que o carisma e a emoção colocadas na obra, a sua importância maior é a forma como nos mostra que a LEGO está disposta a dar a sua identidade a obras fora do que é habitual. Builder’s Journey é artesanal, feito por uma equipa pequeníssima, e espalha charme, mesmo sem ser perfeito. Se cresceram com LEGO e estão fatigados de ver o nome ser ponto de partida para grandes produções, têm aqui uma experiência no sentido oposto. E resulta. Builder’s Journey é uma comunicação próxima entre quem criou e quem joga; Builder’s Journey sente-se como um videojogo íntimo.

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