por - Jan 30, 2015

O que andamos a ver, 21 de abril

Num momento em que possivelmente estão a começar a digerir o longo almoço de Páscoa, a equipa do VideoGamer Portugal oferece algumas sugestões para uma tarde de domingo pouco dada a grandes movimentos, apesar da meteorologia convidativa.

Esta semana o primeiro texto é da autoria de Marco Gomes, que teve oportunidade de ver nos últimos dias Parade que, tal como as suas sugestões das últimas semanas, conta com a  realização de Jacques Tati. Contudo, desta vez o filme em questão leva os espectadores a acompanharem as aventuras de duas crianças no circo – curiosamente, Parade foi gravado no Stockholm Cirkus.

Posteriormente temos a proposta de Filipe Urriça. Este domingo a sua escolha é Tomb Raider, a película protagonizada por Alicia Vikander que recentemente foi notícia graças aos rumores que mencionam que uma sequela vai mesmo acontecer. Tal como podem ler, o autor ficou suficientemente agradado com a obra para afirmar que é melhor que as obras com Angelina Jolie.

A terminar o artigo este domingo está o texto de Pedro Martins. Regressando ao catálogo da HBO Portugal, esta tarde o membro da equipa escreve sobre Native Son, obra que é um comentário social praticamente do primeiro ao último minuto. Baseado num livro e mesmo com algumas falhas, não deixa de colocar o dedo em algumas feridas.

Marco Gomes, Parade (DVD)

Traz-nos o fim o começo. A caixa da Leopardo Filmes dedicada à obra integral restaurada de Jacques Tati encerra, sugestionada no sentido de leitura ocidental, da esquerda para a direita, coincidindo, de forma premeditada, pela ordem cronológica de realização de suas longas-metragens, com Parade (1974).

Gravado no Stockholm Cirkus, foi o registo criado originalmente para o pequeno ecrã em colaboração com a televisão sueca, remetendo-nos para os primórdios do gaulês no mundo do espetáculo enquanto artista de variedades, vulgo Music hall, em especial, seu talento de mímico e o número, ou deles o amontoado, que lhe granjeou fama, Impressions Sportives.

A esse propósito, duas notas de rodapé poderão ser acrescentadas. Até O Meu Tio (1958), inclusive, foi Tati incorporando os vários gagues trazidos do palco. Muitos deles ligados ao universo desportivo, a tal facto não sendo alheio ter sido jogador profissional de râguebi antes de abraçar o percurso que o viria a notabilizar.

Sendo já de si um registo insólito ao simular um espetáculo ao vivo, onde o público não só tem participação ativa, como, entre ele, vários elementos são artistas dissimulados, adquire estranheza redobrada Parade sustendo-se em três formatos díspares de fita na versão restaurada, 16mm, 35 mm e, pela primeira vez no percurso do autor, vídeo.

Complementa-se o disco com o documentário, caso único na filmografia de Tati, Força, Bastia (1978), para além, transversal a todos os DVD da coleção, apesar de só agora ser referido, do depoimento dos ilustradores das capas respetivas e introduções, por figuras culturais relevantes à escala lusa, aquando do ciclo no cinema antecedendo a chegada ao mercado caseiro.

Filipe Urriça, Tomb Raider (TVCine)

Ainda há quem se esforce em tentar colar os videojogos a Hollywood, Tomb Raider é a prova que essa tentativa falhou uma vez mais. Depois de ver excelentes filmes de autor na RTP 2 regressei à TVCine para ver um blockbuster que tive interesse em assistir, principalmente por estar muito próximo do primeiro título que a Crystal Dynamics utilizou como reboot em 2013.

É um filme que quer entregar ação em doses bem grandes, sem fazer primeiro crescer as personagens que apresenta, nomeadamente as que estão mais próximas de Lara Croft. O objetivo é claro, Lara tem que ser a exploradora que todos conhecem dos videojogos. Por isso, adivinhamos facilmente as suas opções e os caminhos que escolhe percorrer para atingir o seu objetivo.

Alicia Vikander está irreconhecível em Tomb Raider, depois da excelente representação que teve em Ex Machina. Como personagem de carne e osso tem menos emoção que quando estava a fazer de robô. A narrativa serve um propósito que ignora o que Lara é ou quer ser. Explosões, disparos e lutas corpo a corpo, é isto que pensam que quem vê o filme quer de um filme com Lara Croft.

Felizmente, o filme é muito melhor do que os filmes protagonizados por Angelina Jolie. Enfim, perdi o meu tempo ao passar da RTP 2 para a TVCine.

Pedro Martins, Native Son (HBO Portugal)

Mesmo que Native Son não consiga tudo aquilo que quer ser, a verdade é continua na minha memória alguns dias depois de o ter visto na HBO Portugal. Baseado no livro de Richard Wright, o filme realizado por  Rashid Johnson consegue colocar o dedo em várias feridas da sociedade, nomeadamente, nas questões culturais associadas à discriminação racial e aos estratos sociais.

Bigger Thomas (Ashton Sanders) – Big para os amigos – é contratado para trabalhar como motorista para uma família branca. O comentário sobre o que é mencionado no parágrafo anterior está alavancado parcialmente na presença de Mary (Margaret Qualley), a filha da família rica que contrata Big para motorista.

Enquanto via Native Son pensei que a película iria girar sobretudo na forma como o protagonista tem que balançar a sua família e amigos antes de ser contratado com os novos conhecimentos que faz – seria um terreno pouco original, mas que poderia servir de palco para esse choque. E ainda que tal aconteça momentaneamente, há um acontecimento completamente inesperado que marca o filme e o leva numa direção bastante diferente.

Mencionar esse acontecimento seria um enorme spoiler, obviamente, mas posso referir que tal é usado para abordar a discriminação racial entre a força da autoridade. Aqui, no entanto, essa discriminação não é simplesmente o exercer do poder dos agentes contra pessoas desfavorecidas pertencentes a minorias. Ou melhor, não é tão simples quanto isso.

Comentários

0 Comments
Inline Feedbacks
View all comments