por - Aug 1, 2019

Dr. Mario World é um jogo demasiado bem adaptado para o mercado em que se insere

A Nintendo é uma das mais prestigiadas produtoras e fabricantes de consolas do mundo. Não é por entregar produtos tecnologicamente avançados que a casa de Quioto ganhou este estatuto, mas por se manter fiel aos seus princípios e continuar a criar jogos em prol da jogabilidade. Dr. Mario World trai a filosofia da empresa que tem Mario como mascote, tornando-se uma criação que responde às necessidades dos investidores, não dos jogadores.

Farmville é um dos jogos mais conhecidos associados à rede social de Mark Zuckerberg. Foi aqui que um modelo de negócio, hoje conhecido como free-to-play, com microtransacções, cresceu e inspirou outros criadores a seguir este exemplo, sobretudo para o mercado iOS e Android. Depois da Zynga enriquecer à custa de Farmville, foi a King.com que ganhou notoriedade com Candy Crush; foram os lucros exorbitantes deste jogo, que agora pertence à Activision, que a Nintendo tentou, tardiamente, alcançar.

Dr. Mario World é um jogo de puzzles. Há vírus que é preciso limpar com comprimidos milagrosos que, quando empilhados nas pequenas criaturas representativas dos vírus, os elimina. Um vírus de uma determinada cor tem que ser eliminado com duas metades de comprimido da mesma cor. É um jogo que combina processos simples, complicando gradualmente o que é possível fazer para limpar um único vírus. Normalmente, há várias mecânicas que bloqueiam o vírus, impossibilitando-nos de o eliminar de uma vez só. Em níveis mais avançados poderão ter que abrir jaulas, descongelar vírus, rebentar bolhas ou até partir tijolos, para depois chegarem aos vírus que têm de eliminar.

O grande desafio do jogo reside na nossa capacidade de ultrapassar o nível com a quantidade pré-definida de comprimidos que temos disponível. Todos os níveis foram desenhados com um número diferente de comprimidos, o que faz com que por vezes nos sintamos inteligentes quando sobram muitos comprimidos ou frustrados quando não descobrimos qual a intenção do nível que temos perante nós, por falharmos vezes sem conta. Há alguns níveis em que fiquei, inexplicavelmente, bloqueado. E quando nos é imposto um limite de tempo para descobrir a forma mais rápida e eficiente de limpar os vírus, o jogo fica incrivelmente difícil e frustrante. Às vezes não aparecem as peças com as cores que precisamos e temos de decidir o que fazer até chegar às outras que nos dão mais jeito.

Normalmente, se tiver espaço deixo as peças cairem lentamente enquanto utilizo as seguintes. Ou então utilizo a técnica de arrastamento de peças para onde quero, atravessando criaturas ou outros bloqueios que existam no nível. Por último, tento utilizar o poder da minha personagem para ver se me consegue limpar uma linha que me possa permitr acabar o nível mais rapidamente e com o menor número de comprimidos possível.

Enquanto coço a cabeça à procura de uma solução para o meu problema, percebo o porquê destes entraves todos. Conheço quem jogue Candy Crush e tenha passado pelas mesmas dificuldades. Afinal, isto é um jogo free-to-play, ou pagamos em dinheiro para nos darem facilidades ou continuamos até à exaustão na esperança que nos apareçam cores ligeiramente diferentes de vírus ou de comprimidos.

Antes de cada nível podemos usar itens, uns pagos com ouro, outros com diamantes. Tudo o que temos de pagar com diamantes sairá, muito provavelmente do nosso bolso. A Nintendo já foi generosa em oferecer, num evento qualquer, alguns diamantes para gastar, se quiser mais tenho de os pagar. A cada vinte horas recebem um presente aleatório, tanto pode ser moedas de ouro, como diamantes, ou outro item qualquer.

Num determinado nível que esteja a sentir muitas dificuldades, posso gastar vinte diamantes para ter as duas melhores ajudas, assim como mais setecentas moedas de ouro para gastar nas duas outras ajudas. E claro, temos as nossas vidas, que são gastas a cada nova tentativa e, posteriormente, para as restabelecer temos de esperar meia hora por uma vida, até um máximo de cinco. Contudo, se tiverem muitos amigos, este não será um fator limitativo, a não ser que joguem várias horas de Dr. Mario World por dia.

Enganei-me a mim próprio quando pensei que estaria perante um excelente jogo de puzzles. Por muitos jogos Zelda e Mario excelentes que a Nintendo crie, como qualquer outra empresa, esta quer lucros e maximizá-los sempre que possa. Dr. Mario foi a receita perfeita para replicar aquilo que jogos como Candy Crush já fazem há vários anos. Super Mario Run é um excelente jogo e foi uma estreia no peculiar mercado da Apple e Google como só a Nintendo o sabe fazer com as suas licenças.

Dr. Mario World é, assim, um jogo inevitável; por muito que Animal Crossing Pocket Camp e Fire Emblem Heros sejam bons, têm mecânicas que nos incentivam a gastar nas suas microtransações. Dr. Mario World foi desenhado a pensar neste tipo de lucros. Conseguem-se divertir com o jogo, sem dúvida alguma, mas é uma sensação que apenas dura nas primeiras duas horas.

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