Pedro Martins por - Jun 12, 2013

O que andamos a ver, 22 de dezembro

Como estamos a chegar rapidamente à época festiva, a rubrica que ilustra o que a equipa VideoGamer Portugal tem andado a ver pode ser lida também como uma lista de sugestões alternativas para os dias que se avizinham. Isto claro, além da trilogia O Senhor dos Anéis e, muito provavelmente, de mais uma visita a Nova Iorque para ver Kevin aterrorizar as vidas dos ladrões.

Pedro Martins apostou em ver Marriage Story, filme de Noah Baumbach que está disponível em exclusivo na Netflix. Segundo o próprio, foi uma aposta certeira. Podem ler o longo texto depois da primeira imagem, mas é uma recomendação fácil e um estudo visual sobre como as vidas em conjunto funcionam bem até deixarem de funcionar.

De seguida podem ler as impressões de Filipe Urriça sobre Nós, o excelente filme assinado por Jordan Peele, que já tinha realizado o recomendável Foge. O Filipe ficou completamente rendido ao trabalho de Peele e à prestação de Lupita Nyong'o, que interpreta uma dupla de personagens.

Finalmente, este domingo o Marco Gomes assina um texto sobre Apanhei-te Cavaquinho!, que como provavelmente adivinharam é uma série documental sobre o instrumento musical. Curiosamente, cada um dos cinco episódios transporta o espectador a um local diferente, desde Brasil a Los Angeles, passando obviamente por Portugal.

Pedro Martins, Marriage Story (Netflix)

Marriage Story é um dos melhores filmes que vi em 2019. No centro da trama está um casal, Charlie (Adam Driver) e Nicole (Scarlett Johansson). Os dois têm um filho Henry (Azhy Robertson) e são duas horas em que o espectador vê Noah Baumbach a realizar uma meticulosa história em que as vidas unidas pelo casamento chegam ao fim.

Não é um filme sobre o fim do amor e nem sequer é um filme sobre o afastamento do casal. Não, Marriage Story é a constatação que por muito que duas pessoas gostem uma da outra, a vida às vezes tem outros planos. Charlie e Nicole estão divididos entre Nova Iorque e Los Angeles, com o bem-estar e a educação de uma criança pelo meio.

Baumbach consegue capturar esta separação quase sempre amigável, mesmo quando os advogados são chamados a intervir e mesmo antes e depois de serem feitas acusações gravíssimas de ambas as partes. O brilhantismo da obra está nas diferentes camadas emocionais que são arrasadoras para todos os envolvidos, independentemente das alegrias paralelas.

O argumento e a realização são excelentes, mas as performances são sublimes. Driver e Johansson têm uma química natural, mas são os seus talentos que eclipsam tudo o que está à volta do espectador. São excelentes nos momentos mornos, transparecendo uma naturalidade de quem nem sequer parece estar a representar, iludindo quem vê a pensar que está simplesmente a testemunhar o desenrolar destas vidas.

Contudo, nos momentos mais tensos e mais fracturantes, o magnetismo ganha ainda mais força. Há uma discussão em particular – celebrizada entretanto pela Internet – que fica na memória. Em crescendo, com planos muito longos, os atores sobem, sobem, sobem de tom até uma explosão final que arrepia. E os segundos seguintes estilhaçam por completo as emoções de quem está em frente ao ecrã.

Pode-se dizer que em certos momentos o ritmo é lento, talvez demasiado lento. Contudo, isto serve para dar exposição às personagens, que no final parecem ser simplesmente amigos do espectador. Se têm uma subscrição Netflix, mesmo que “uma história sobre o casamento” possa soar a aborrecimento de cento e vinte minutos, acreditem que vale bem o investimento do vosso tempo.

Filipe Urriça, Nós (TVCine 1)

Us, ou Nós, como é conhecido em Portugal, é um filme fenomenal. Jordan Peele sabe como ter a nossa atenção do primeiro ao último minuto do filme que, apesar de ser um filme de terror, tem um bom equilíbrio com momentos mais cómicos.

O melhor aspeto do filme é quando este acaba, porque a nossa curiosidade está tão estimulada que queremos procurar respostas que ficaram por responder durante o filme. O filme é estranho mas, à medida que a narrativa avança, começa a fazer algum sentido.

Uma família afro-americana está a passar férias tranquilamente, quando é confrontada, durante a noite, com intrusos que invadiram a sua propriedade privada. A família fica incrédula por ver que são autênticas cópias deles próprios e que os querem matar para os substituir.

Apesar desta família ser o foco das atenções, principalmente a dupla protagonizada por Lupita Nyong'o, isto está a ocorrer em todo o território dos Estados Unidos. O porquê disto estar a acontecer é um dos muitos temas que Peele aborda, o mais evidente é o atingir do "sonho americano", que está associado a um materialismo doentio, em que ter muito nunca é suficiente.

Us é uma película tão bem executada que podíamos estar a entrar em pormenor sobre aspectos filosóficos, sociológicos e morais muito interessantes. É daqueles filmes que não chega ver uma vez, depois de sabermos o quê que acontece no final damos por nós a ver pormenores que nos escaparam na primeira visualização. Enfim, vejam esta obra, que é um dos melhores filmes de 2019.

Marco Gomes, Apanhei-te Cavaquinho! (DVD)

O mais globalizado dos instrumentos portugueses, mesmo que em outras paragens responda por diferente nome e tenha sofrido alterações na configuração física, e consequentemente no desempenho acústico, serviu de mote para uma série documental transmitida originalmente na RTP2 em 2012, chegando ao formato doméstico DVD no ano seguinte.

Dividido em cinco episódios, 1. Brasil, 2. Portugal, 3. Cabo Verde, 4. Havai, 5. Los Angeles, com duração individual um pouco abaixo da hora, entre as muitas aventuras e desventuras de suas viagens, demonstra quanto a popularidade e impacto do cordofone em territórios da diáspora lusitana facilmente supera a do país que o viu partir, adstrito essencialmente à função de acompanhamento melódico no segmento da música tradicional.

Em sequência do último texto por mim trazido a esta rubrica, Apanhei-te Cavaquinho é testemunho mais do labor incansável de Ivan Dias em prol de nossa -essencialmente mas não só- cultura popular imaterial, pactuando aqui com o brasileiro Henrique Cazes, especialista no instrumento enquanto executante, compositor, arranjador e professor.

Sentindo-se produto final nascido da dinâmica dos dois autores, sobressaem, tendo Cazes por cicerone, os momentos de informalidade e de geração espontânea, nomeadamente em apontamentos de humor. Menos positiva é a organização geral de conteúdo e inconsistente relevância de cada capítulo, do qual o referente a Los Angeles é exemplo ao colocar-se em causa a própria existência.

Comentários

0 Comments
Inline Feedbacks
View all comments