God of War está diferente, bastante diferente. Entre os cenários e as mecânicas novas, Kratos regressa para fincar o machado na história de 2018. Não tenham dúvidas, God of War é um dos jogos do ano, quer cheguem agora à série ou sejam fãs devotos há anos. Diferente, mais maduro, mais caído; Kratos, o Kratos, dança pelo sangue, mas tem mais passado, tem mais história a acorrentá-lo mais que as correntes.

Não o queiram só porque sim, só porque é o novo God of War. A Sony Santa Monica arriscou praticamente até onde foi possível arriscar. Piadas sobre barcos seguiram-se; o apelo à calma por parte de Cory Barlog, diretor do jogo, também. Joguem primeiro, experienciem primeiro, critiquem depois. Foi exatamente isso que eu tenho andado a fazer, acumulando já longas horas por este novo mundo. 

Imagens Artigo GOW PS4

A análise será publicada em breve, mas para já é evidente que a cola que mantém o jogo tão coeso é a relação de Kratos com o seu filho, Atreus. Podia ser um desastre, podia ser a apresentação de um Kratos demasiado emocional ou demasiado distante. Podia até ser motivo de chacota, uma falha na caracterização da personagem. God of War mudou, sim, mas não tanto. Kratos está mais maduro, mas não está tão distante que não seja reconhecível. 

A Sony Santa Monica bebeu de uma fonte chamada The Last of Us e isso não é mau. Onde se nota mais este polimento do argumento é nas subtilezas na construção de caracteres. Atreus começa a aventura um pequeno jovem, frágil, inocente, praticamente incapaz de segurar um arco e uma flecha. Kratos começa esta viagem com um sentimento de perda transversal à sua existência e que nunca se dissipa.

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Com o passar das horas, porém, os argumentistas caminham com mestria nesta ténue linha que separa o cliché do lamechas. Será sempre um jogo de ação - ainda que agora haja um ênfase em várias mecânicas provenientes dos Role Playing Games - mas é a relação entre estas duas personagens, mais do que o arco narrativo em geral, que suga o jogador para aquelas trocas de diálogo, para aquele cuidado e proteção; enfim, que atrai o jogador para aquele amor.

Não comentando os olhares trocados, as subtilezas do diálogo tornam esta relação credível - o quanto possível dadas as circunstâncias. Kratos fala de forma curta e grossa para o filho e Atreus cala-se. A imposição do respeito é unilateral. Dêem tempo ao jogo, contudo, e Atreus também ele amadurece, começa a questionar o pai. Infelizmente para ele, o pai dele é Kratos. Não esmorece. Kratos continua a sua cruzada, Atreus deixa de correr tanto atrás dele. Kratos começa a quebrar, Atreus começa a ter voz própria. 

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Por incrível que pareça esta relação alimenta também alguns momentos de humor. São poucos, é verdade, mas a sua temporização é estudada. Há um momento em que se sente claramente que a imitação que Atreus faz do pai é um claro aviso que esta dinâmica está em constante evolução. Atreus ganha confiança para gozar com a maior figura que tem na sua vida - e Kratos, o pai autoritário, torna-se um pouco mais humano.

Acredito que isto resulte tão bem porque pelo meio de tudo o que é fantasia e mitologia, quase todos os jogadores podem encontrar um pouco da sua relação com o seu pai naqueles dois. Claro que há exageros, claro que é um videojogo e nunca quer ser um documentário. Porém, a forma como o fundamento da disciplina e da aprovação estão lá, a forma como o pai ama incondicionalmente, tantas vezes fazendo-se mais forte do que é, não querendo dar parte fraca quando a emoção inunda o coração. Amor de pai é amor de pai.

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Com o contador de horas já nos dois dígitos, a verdade é que este God of War parece talhado também para os jogadores que começaram a saga de Kratos na PlayStation 2. Pensem nisto: quem jogou o título no seu lançamento tem agora aproximadamente mais 13 anos de vida. Amadureceram e Kratos amadureceu convosco. Eu certamente sei que sou uma pessoa muito diferente daquela que matou a Hydra pela primeira vez.

E tudo isto, todo este amor paternal, o de Kratos e o de pai de cada um no ecrã que por aqui tem revelado o jogo no máximo das suas aptidões técnicas. HDR e 2160p, uma PlayStation 4 Pro a alimentar estes mundos. O queixo anda no chão, os olhos arregalados tantas e tantas vezes. Os tempos de loading? Quais tempos de loading? Há cenários que não parecem enquadrar-se com o tema do jogo, é verdade, como também haverá alguns puristas que o vão rejeitar porque é diferente.

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A questão é que, para mim, a Sony Santa Monica conseguiu um feito: criou um colosso de jogo centrado numa temática com a qual o comum dos mortais se pode facilmente relacionar. Kratos e Atreus são a chave para demonstrar que, tal como os seus fãs mais veteranos, a série cresceu e reinventou-se. Se tinham dúvidas, preparem-se para as deixarem de ter em breve. Só um desastre nestas horas que faltam faria com que God of War não fosse um dos jogos a marcar 2018.