por - Jan 12, 2018

Final de Danganronpa V3 é a conclusão perfeita para a série, mas isso não o impede de ser uma desilusão

Spoilers! Este texto inclui informações específicas relativamente ao final de Danganronpa V3: Killing Harmony, bem como referências a pontos importantes da narrativa de Danganronpa: Trigger Happy Havoc e Danganronpa 2: Goodbye Despair.

Danganronpa é uma série peculiar, uma série diferente de tudo o resto, com um conceito único que nos entrega aquele tipo de história que apenas parece estar ao alcance de criadores nipónicos, de criadores sem medo de abraçar o ridículo para rapidamente subverter as expectativas dos jogadores e agarrar a sua atenção através do inesperado, do imprevisível. A saga da Spike Chunsoft pode não ser perfeita – porque nada o verdadeiramente é – mas é um dos melhores executantes daquilo a que se propõe oferecer. Não há nada remotamente parecido com Danganronpa porque Danganronpa é muito possivelmente o expoente máximo do seu género.

Danganronpa V3: Killing Harmony, a terceira e, ao que tudo indica, última entrada, desta série de visual novels de investigação chegou ao mercado em setembro, mas só nestas miniférias de final de ano tive oportunidade de o jogar. E ainda bem que o fiz, porque desde que o terminei, 41 horas após o arranque, que não consigo pensar noutra coisa. Concluir o novo Jogo Mortal de Monokuma é um misto de emoções antagónicas, um processamento de informação e opiniões conflituosas, um constante revelar de novas camadas que apenas vão servindo para salientar o brilhantismo do seu final ao mesmo tempo que a desilusão do jogador apenas vai aumentando.

Imagens Danganronpa V3 Artigo

Enquanto o estava a experienciar, todo eu era ódio e desapontamento relativamente à forma com a produtora decidiu encerrar o seu clássico de culto. Nas horas que se seguiram, o ruminar sobre o que tinha acabado de jogar e a tentativa de o articular devidamente revelaram uma verdade que não estava disposto a aceitar. Essa verdade é que o final de Danganronpa V3: Killing Harmony é perfeito. Aliás, o final é a melhor representação possível do conceito da obra e da mensagem que pretendia passar desde o primeiro capítulo. Continuo a detestá-lo, mas penso que era precisamente essa a reação que o jogo pretendia de mim, esperando igualmente que tivesse a mente fria para perceber o porquê.

Desde a sua estreia com Trigger Happy Havoc, Danganronpa sempre se apresentou como um confronto entre Esperança (Hope) e Desespero (Despair). Num Jogo Mortal com lugar na Hope’s Peak Academy, uma academia para estudantes que representam o melhor que o futuro reservará em várias áreas da sociedade, Makoto Naegi é Ultimate Hope, a esperança que salvará o mundo do Ultimate Despair, que assume a forma de Junko Enoshima, a principal antagonista da saga. Esse confronto estende-se até à sequela Goodbye Despair e à conclusão em Killing Harmony.

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No entanto, apenas em Danganronpa V3 a série faz aquilo que sempre se apressou a fazer e subverte por completo as expectativas daqueles que jogaram e consumiram tudo o que veio antes. Fazendo da sua conclusão um espelho da legião de jogadores que a levou ao sucesso, a obra faz de nós parte integrante da experiência, mas da forma mais desesperante possível. O terceiro capítulo da série sabe aquilo que os jogadores querem, mas recusa a entregá-lo, preferindo deixá-los vazios e fazendo-os perceber que esta história, tal como a própria série de videojogos, não pode durar para sempre.

É essa a genialidade da forma como este jogo termina, como passa em retrospetiva toda a saga e como faz o jogador chegar à conclusão que, se calhar, está mesmo na altura de colocar um ponto final em tudo isto. Afinal de contas, Danganronpa é uma série que vive às custas do mistério e esse mistério apenas se vai tornando vai difícil de replicar com sucessivas iterações. A Spike Chunsoft sabe disso e faz questão que o jogador sinta essa inevitável estagnação na pele. Quantas vezes é que será possível entregar um final completamente inesperado? Quantos saltos na lógica serão necessários para que Junko Enoshima faça novamente uma aparição nos momentos finais da campanha?

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De certa forma, Danganronpa V3 enaltece o quão especial e único o primeiro título da obra verdadeiramente é e o porquê de, independentemente do número de sucessores, ser impossível igualar o impacto, a surpresa e o fascínio despoletado pelo primeiro Jogo Mortal. Ao contrário do original, as sequelas tiveram sempre de se esforçar para apanhar o jogador – sempre à espera da próxima reviravolta – desprevenido, para suplantar o que já havia sido feito. O facto de ter conseguido chegar a um terceiro capítulo sem nunca se ter perdido pelo caminho é de salutar, mas é óbvio que nada conseguirá recriar a magia do primeiro contacto com Monokuma, do primeiro homicídio inesperado, da primeira traição, daquela revelação final.

Sabendo isso, a produtora decide concluir a série levando-a na direção oposta, rompendo com as expectativas de quem já esperava o inesperado, fazendo tudo ao seu alcance para o desiludir, mas sem nunca se esquecer da mensagem no cerne da série, ou seja, da batalha entre Hope e Despair. Os pontos fracos da sua conclusão são indispensáveis para que tal objetivo resulte, para que o ponto final da saga seja perfeito, mas simultaneamente desapontante, uma união perfeita entre o tema de Danganronpa e a reação emocional da sua audiência.

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Como a própria Junko Enoshima afirma durante a sua aparição no último Class Trial do jogo, “Danganronpa é sobre Desespero”, sobre desilusão, sobre as constantes surpresas negativas com que as suas personagens vão sendo presenteadas nesta luta pela sobrevivência. Killing Harmony faz das suas personagens e dos jogadores um só – algo que é suportado pela forma como a obra torna todos os sobreviventes restantes personagens jogáveis a dada altura do debate -, uma tarefa difícil e arriscada, mas que resulta fenomenalmente.

Em Danganronpa V3, todo o capítulo final é dedicado a deixar o jogador no mesmo estado emocional das personagens através de constantes paralelismos que afetam as duas entidades de forma distinta, mas que produzem efeitos semelhantes. A reviravolta final da obra é que tudo não passa de ficção, de que Danganronpa não passa de uma programa de televisão ao estilo de um qualquer reality show, de que tudo é falso e pré-determinado, incluindo as personagens, os seus talentos e as suas personalidades. No fundo, de que Danganronpa V3, ou melhor, de que Danganronpa 53 é a mais recente temporada do Jogo Mortal que entretém um mundo completamente aborrecido pela constante paz.

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Sim, Trigger Happy Havoc e Goodbye Despair – e até o spin-off Ultra Despair Girls – não passam de obras de ficção num mundo real que decidiu adaptar a ficção, transformando pessoas reais em personagens fictícias deste Jogo Mortal em perpétua continuidade. Uma das piadas mais frequentes no seio da equipa do VideoGamer Portugal que surge sempre que alguém está a tentar evitar spoilers é de que no final é tudo um sonho. Pois bem, aqui não andamos muito longe da verdade. Tal como as “memórias” das personagens, o jogo faz questão de nos atirar à cara de que nada é verdade, de que tudo não passou de uma peça de entretenimento.

É um final que pode facilmente, e justamente, ser acusado de ser demasiado meta – algo que a própria obra menciona -, mas necessário para forçar o jogador a olhar para si próprio. Mais do que colocar-nos no lado do Despair, Danganronpa V3 tenta confrontar a Hope e fá-lo através de sucessivas revelações desapontantes, seja o final demasiado similar a Danganronpa 2 – no qual a revelação final era de que tudo não passava de uma simulação de computador – ou a revelação óbvia de que o verdadeiro antagonista é a personagem mais desinteressante do elenco que de alguma forma sobreviveu até ao fim.

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Nada satisfaz verdadeiramente a nossa sede por algo bombástico vindo do nada. Danganronpa relembra-nos de que o mistério é quase sempre mais interessante que a revelação e até própria forma como entrega a sua mensagem final é tão óbvia, que apenas adensa a desilusão, o nosso “Despair”. Nos seus momentos finais, Killing Harmony questiona o poder da ficção e aquilo que a separa da realidade. Se a ficção ou a mentira é tudo o que conhecemos, passa a ser verdade? Pode a mentira ser mais agradável que a verdade?

Estas são questões que o título coloca desde cedo e que estão no cerne da narrativa e do seu protagonista surpresa, Shuichi Saihara, um detetive com medo de causar mais mágoa do que alegria com as suas deduções e conclusões. Danganronpa V3 sofre desse mesmo medo, de ser incapaz de entregar a reviravolta pela qual os jogadores aguardam desde o momento em que iniciam a aventura, um medo que o leva à conclusão que é melhor acabar enquanto se está na mó de cima ao invés de continuar apenas por obrigação.

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Nessa mesma perspetiva, não é muito surpreendente que, mais do que Tsumugi Shirogane – ou Junko Enoshima the 53rd -, o título faça da audiência, do mundo exterior, do mundo real o principal vilão de Danganronpa. Não é segredo nenhum que uma obra assente em dezena e meia de estudantes forçados a matarem-se uns aos outros para sobreviver apela ao lado mais sádico dos jogadores e é esse lado da condição humana que permite a Danganronpa arrastar-se até à 53ª temporada.

O jogo coloca também a nu a nossa hipocrisia, o desejo de querer mais Danganronpa/Jogos Mortais que fazem as personagens fictícias suportar eventos macabros e traumatizantes, apesar de esperarem sempre o final feliz, a vitória da Hope sobre o Despair. Em 53 edições, a esperança levou sempre a melhor sobre o desespero, mas é o desespero que domina a maior percentagem de tempo de cada Jogo Mortal. É uma esperança que resulta após tanto desespero verdadeira? Valerá essa esperança a pena todo o sofrimento que foi preciso ultrapassar para lá chegar?

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Para Shuichi e companhia, a resposta é um claro não e é por isso que a batalha final do jogo passa por convencer o mundo exterior a desistir de Danganronpa, a desligar a transmissão, a abandonar esta falsa esperança nascida a partir do desespero. Este Jogo Mortal não vê Hope vencer, mas vê o Despair ser travado através do interromper da continuidade desta peça de ficção. Não há final feliz, há apenas um final, um aceitar que está na hora de dar isto por terminado. Por isso mesmo, tal como o mundo exterior que desligou a transmissão nos momentos finais da obra, também eu cheguei à conclusão que não quero, nem preciso de mais Danganronpa.

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