Pedro Marques dos Santos por - Jul 17, 2017

Frente-a-frente: O que distingue Persona 4 Golden de Persona 5

A espera foi longa, mas se a receção crítica e comercial a Persona 5 é uma boa indicação do seu valor, valeu certamente a pena. Como referi na minha análise ao título, a quinta entrada numerada da série que começou como um spin-off de Shin Megami Tensei é um dos melhores Role Playing Games dos últimos anos e não ficaria muito admirado se viesse a figurar na lista definitiva com os melhores jogos de sempre de um dos géneros mais emblemáticos desta forma de entretenimento.

Entre o lançamento de Persona 4 na PlayStation 2 e a chegada do seu sucessor à PlayStation 3 e PlayStation 4 houve um intervalo de oito anos e, apesar do título ter sido disponibilizado na consola da anterior geração da Sony, uma geração inteira de consolas foi deixada para trás. Durante esse tempo, a Atlus evoluiu juntamente com a indústria e aplicou todo esse conhecimento naquele que é provavelmente o seu título de maior expressão no ocidente. 

Persona Artigo Imagens

Persona 5 pega em tudo aquilo que faz de Persona uma série tão especial e diferente de tudo o resto e aplica-lhe melhorias cirúrgicas para entregar uma experiência de pouquíssimos defeitos, fazendo regressar mecânicas das obras originais que se julgavam esquecidas e iterando naquilo que resultava menos bem. No fundo, Persona 5 é uma homenagem a tudo aquilo que a série nos ofereceu desde as suas origens, uma amálgama dos seus quatro antecessores que não só resulta, como se traduz em algo de qualidade excelsa que não encontra comparação em mais nenhuma entrada da peculiar saga de aventuras protagonizados por estudantes do liceu.

Mas este não é – tal como o seu título indicia – um texto dedicado ao elogio constante das mais recente obra da Atlus, é sim uma reflexão sobre o que separa Persona 4 Golden do seu sucessor nas minhas preferências. Ao estilo do que já fizemos com Rise of the Tomb Raider e Uncharted 4 ou com PES 2017 e FIFA 17, este é um espaço dedicado a uma análise comparativa entre as duas obras e uma tentativa de explicar o porquê de ter dificuldade em apontar o irmão mais novo desta família como o meu preferido.

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Antes disso, contudo, é importante afirmar desde já que considero Persona 5 uma obra infinitamente melhor do que o seu antecessor. Aliás, isso não está sequer em discussão. Persona 4 é um bom RPG que teve o condão de fazer “explodir” a série no ocidente, mas a aventura dos Phantom Thieves é superior em virtualmente todos os seus departamentos. O estilo visual e a jogabilidade representam um salto qualitativo gigantesco entre os dois títulos. Persona 5 é um jogo interessante e divertido de se jogar que se faz acompanhar por um mundo e narrativa em constante destaque, enquanto Persona 4 cai na monotonia das suas dungeons com frequência e sobrevive muito à custa do seu elenco de personagens.

Ainda assim, tal como menciono sempre na altura de definir os meus jogos do ano, existe algo muito diferente entre nomear o melhor título que joguei e definir qual deles é o meu preferido. Este é um desses casos. Não tenho problema nenhum em afirmar que Persona 5 é o melhor dos dois. Tenho, no entanto, alguma dificuldade em apontá-lo como o meu preferido. Não é segredo que valorizo bastante a componente narrativa nos videojogos e quase sempre as minhas listas de final de ano são dominadas por obras que têm nesse elemento a melhor ou uma das melhores características da sua experiência.

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Persona 4 Golden cativou-me e marcou-me pela sua história, pelos elementos que compõem o seu elenco, pela forma como equilibrou com mestria os momentos de adolescentes a serem adolescentes com a estranha narrativa que envolve alter-egos e fenómenos sobrenaturais. Sim, é verdade que dei por mim algo aborrecido em vários momentos que fui forçado a algum grinding e a passar demasiado tempo no interior de dungeons pouco recompensadoras ou cativantes que preferia ter gasto a socializar com personagens de enorme qualidade, mas a vontade para avançar pela narrativa foi sempre mais do que suficiente para me motivar a continuar.

Por sua vez, Persona 5, apesar de todas as suas muito necessárias e bem vindas melhorias, defraudou um pouco as expectativas neste departamento. Apesar do conceito curioso e de contar uma história que se mantém interessante do princípio ao fim, não nos consegue agarrar pelo colarinho da mesma forma e nunca é capaz de criar e definir personagens memoráveis que rivalizem com o elenco do seu antecessor. Felizmente, a qualidade dos restantes departamentos do jogo fazem com que a experiência não esteja tão dependente da narrativa para conservar o nosso interesse.

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Como não poderia deixar de ser, os dois títulos têm abordagens bastante diferentes à narrativa sobre os desejos e pensamentos reprimidos e a corrupção do subconsciente que caracteriza todas as obras da série, manifestando-se sobre a forma de Personas e Shadows. Persona 4 conta uma história intimista, numa calma e remota aldeia longe da azáfama da urbanização focada nos vários elementos que compõe o seu elenco principal. Persona 5 conta uma história de proporções globais, numa vibrante e em constante reboliço versão fictícia de Tóquio que se foca mais nos problemáticos adultos que estão no centro dos problemas dos jovens protagonistas.

Na minha opinião, a aventura da Investigation Team é bastante mais interessante do que aquela que os Phantom Thieves tiveram de ultrapassar. Por muito bizarro que seja o facto de tudo girar à volta de um mundo alternativo no interior de televisores ao qual apenas o protagonista tem acesso e para onde estudantes são misteriosamente levados após serem raptados, o simples facto de termos um mistério que nos coloca sempre à procura de identificar o seu autor, de estarmos num ambiente acolhedor e de aparente pouco perigo longe de ser dominado pela tecnologia, do foco estar sempre na relação entre as seus protagonistas e de todos os momentos da narrativa estarem centrados nas personagens, fazem dela uma história memorável.

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Não existem aqui ameaças à segurança do país e até do Planeta como em Persona 5, não existem vilões para sofrerem “mudanças de coração” – à exceção do autor dos crimes que apenas é revelado nas últimas horas da campanha -, não existe um alvo maior que a vida para ser atingido. Inaba é uma aldeia pacata onde os jovens desesperam devido à ausência de distrações nas proximidades da escola, sendo este mistério a fonte de um entusiasmo que dificilmente encontrariam de outra forma. Existe a motivação de salvar os colegas de escola, sim, mas existe sobretudo uma vontade de formar amizades para o resto da vida e fazer aquilo que os adolescentes fazem, seja isso uma simples ida à praia, a obtenção da carta de condução ou participar em relacionamentos amorosos.

Pelo contrário, Persona 5 coloca-nos numa missão que desde cedo se torna bastante clara, isto é, reformar os elementos da sociedade que se deixaram corromper pelos seus mais negros desejos. O objetivo final vai muito para lá dos jovens protagonistas e dos seus problemas. É certo que praticamente todos eles têm ligações aos principais antagonistas do título, mas o foco nunca está centrado neles. Os adultos corruptos são o centro das atenções e é sobre eles que vamos aprendendo cada vez mais informação. No fundo, os jovens são encarados como vítimas que encontraram os meios necessários para lutarem contra os seus opressores.

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Claro que Ann, Ryuji, Makoto, Futaba e os restantes membros dos Phantom Thieves são muito mais que isso, mas a narrativa principal não faz um bom trabalho em construí-los para além dos arquetipos em que cada um deles se insere inicialmente. Por força do rumo da sua narrativa, a caracterização destas personagens fica relegada para as interações sociais opcionais, sendo que mesmo aí só temos uma expansão daquilo que já conhecemos do arco principal, seja a carreira de modelo de Ann ou a arte de Yusuke. Para lá de Futaba, a única personagem da party que tem direito à sua própria secção da história e a sua própria dungeon, todas as outras personagens são definidas pelos seus opressores e através de traços gerais.

O principal exemplo disso mesmo é Haru, a última personagem a juntar-se aos Phantom Thieves, que não tem praticamente impacto nenhum no jogador e que nunca consegue afastar a ideia de pobre coitadinha que sofre em silêncio às custas de um pai manipulador e controlador. Persona 5 conta uma história interessante e aborda temas pertinentes de forma condizente com a sua importância, mas falha claramente na caracterização das suas personagens.

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Se os heróis não evoluem com o passar das horas e poucos são os momentos em que os podemos ver agir como verdadeiros adolescentes, podia esperar-se que os antagonistas recebessem mais atenção, mas a verdade é que também eles são apresentados num estado tal de corrupção e deturpação que não são mais do que estereótipos. Percebe-se o porquê do jogo retratar os seus vilões como autênticos símbolos da corrupção humana, como uma materialização dos sete pecados mortais, contudo, os seus heróis mereciam mais do que serem definidos pelos problemas que lhes foram impostos pela vida, mereciam uma maior atenção às idiossincrasias que definem as suas personalidade e as bases das suas amizades.

É nisso que Persona 4 se destaca e diferencia em relação ao seu sucessor. Pode não ter o brilhantismo técnico ou a jogabilidade imaculada de Persona 5, mas conta-nos uma história e cria um elenco de personagens que ficará connosco muito depois da sua conclusão. Uma vez que todas as personagens têm direito à sua própria dungeon, à sua própria Shadow e um longo período de tempo do arco narrativo centrado neles, quando chegamos ao fim da aventura, sentimos que conhecemos verdadeiramente estas personagens, que conhecemos os seus segredos, as suas dúvidas, os seus defeitos, os seus problemas, o seu sofrimento e tudo aquilo que faz deles as pessoas que são e as pessoas que tentam parecer ser.

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Juntem-se os momentos de socialização que estão integrados na narrativa e temos uma aventura na qual pouco ou nada falta. Há mistério, há personagens interessantes, há constantes revelações sobre aqueles que julgávamos conhecer e há um importante tom leviano para nos transportar novamente para os tempos da adolescência. Que mais poderiam querer?

É por tudo isto que dificilmente voltarei a investir dezenas de horas em Persona 5, mas tenho constantemente uma vontade de regressar a Inaba e passar mais tempo com um dos melhores elencos de personagens disponíveis em qualquer videojogo. É por tudo isto que Persona 4 Golden terá sempre um lugar especial no meu coração, enquanto que Persona 5 terá de contentar-se em ser “apenas” um dos melhores jogos que alguma vez joguei e sem dúvida o melhor RPG.

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Dito isto, a principal vantagem de Persona 4, mais concretamente de Persona 4 Golden na PlayStation Vita, em relação ao seu sucessor é o fator portátil. Não sei se teria tolerado tão bem a monotonia do combate se não tivesse a oportunidade de o ir ultrapassando em curtas sessões de jogo durante o período de descanso entre outras tarefas. Pode ter sido um desastre de vendas, mas é graças a esta mal amada portátil que desfrutei de um dos meus jogos favoritos e só por isso estarei-lhe sempre grato.

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