Pedro Marques dos Santos por - Oct 19, 2016

Frente-a-Frente: Rise of the Tomb Raider vs Uncharted 4

Quando ambos os títulos foram anunciados como exclusivos para as duas consolas caseiras que mais unidades movimentam e que continuam a desfrutar de uma sólida rivalidade, que conta com altos e baixos dos dois lados da barricada, esperava-se um confronto direto pela atenção dos jogadores quando os dois chegassem às lojas no final de 2015. Tal não aconteceu, muito por culpa do hábito de adiar os exclusivos previstos para a época alta do ano que tem sido fomentado pela Sony ao longo desta geração, mas isso não impediu que as comparações entre Uncharted 4 e Rise of the Tomb Raider fossem imediatamente realizadas assim que a obra da Naughty Dog foi finalmente colocada à venda em maio deste ano.

Mas serão as constantes comparações entre os dois jogos justas ou até apropriadas? Sim, é verdade que ambos se incluem naquele que é muito provavelmente o género mais abrangente de todos – ação e aventura -, sendo igualmente certo que ambos são protagonizados por personagens motivadas pelo sentimento de descoberta de tesouros e o desvendar de segredos há muito guardados. Contudo, as semelhanças entre as duas séries e, mais concretamente, estas duas entradas não são assim tantas quanto isso, sobretudo quando analisamos com cuidado a importância que cada um dá aos vários elementos que os compõe e às diferentes formas como os exploram.

Uncharted vs tomb raider

Com isto em mente e depois de ter finalmente jogado ambos os títulos – Uncharted 4 aquando do seu lançamento em maio e Rise of the Tomb Raider após a sua chegada recente à PlayStation 4, cuja análise pode ser lida aqui – decidi comparar os diferentes departamentos das duas obras para que se perceba melhor onde começam e onde terminam as suas semelhanças e explicar o porquê de considerar que as séries da Naughty Dog e da Crystal Dynamics oferecem experiências suficientemente diferentes para ultrapassarem as constantes comparações e discussões sobre qual delas é, indubitavelmente, a melhor, porque se há algo que corre sempre bem na Internet é a troca de galhardetes sobre a qualidade de obras de entretenimento.

Antes de mais, é importante reconhecer o óbvio, ou seja, da mesma forma que Uncharted retirou inspiração dos títulos Tomb Raider, a nova fornada de obras da autoria da Crystal Dynamics é claramente inspirada pelos jogos da Naughty Dog. Dito isto, o foco dos dois títulos é bastante diferente e não são precisas muitas horas com cada um deles para se perceber isso mesmo. Uncharted 4 coloca todas as suas fichas na narrativa, no seu elenco memorável de personagens e na componente cinemática da aventura. Por sua vez, Rise of the Tomb Raider foca-se na jogabilidade, na ação frenética e na compulsividade dos jogadores para tentarem completar a 100% todos os objetivos secundários da obra.

Vamos por isso por partes e analisar individualmente os principais componentes dos dois títulos, começando desde logo por aquele que é responsável por cativar o jogador desde os primeiros momentos: a narrativa. É neste departamento que a Naughty Dog prova mais uma vez ser uma das melhores produtoras atualmente em atividade, muito graças ao trabalho de Neil Druckmann. Uncharted sempre viveu das suas personagens, mas isso é especialmente notório neste que, ao que tudo indica, será o último capítulo da série.

Uncharted vs tomb raider 2

O arco narrativo geral relacionado com a queda de Henry Avery e a sua sociedade de piratas, Libertália, a escrita excecional dos momentos que apenas funcionam graças à nossa ligação com as personagens e à qualidade da entrega de cada linha de diálogo são os principais trunfos da obra. Só em Uncharted 4 é que uma cinemática com um casal sentado ao sofá a jantar poderia resultar num dos momentos mais marcantes de toda a aventura.

Viremos a atenção para Rise of the Tomb Raider e rapidamente se percebe que este é o departamento mais fraco de todo o pacote oferecido pela obra. Tal como referi na análise, Lara Croft é o único elemento que nos prende à narrativa, recebendo a atenção que uma protagonista de uma série desta dimensão merece ao mesmo tempo que revela informações sobre o seu passado e as suas motivações. Para lá da protagonista, temos uma história bastante tradicional de procura de uma cidade perdida e de um artefacto milagroso recheado dos clichés habituais e de revelações que são tão óbvias que podem ser previstas com muitas horas de antecedência.

As personagens secundárias parecem servir apenas o propósito de fazer avançar a história, bastando olhar para o exemplo de Jonas, aquele que é supostamente o melhor amigo de Lara, que acaba por ser separado dela na fase inicial do jogo apenas para reaparecer bem perto do final e ser raptado pelo vilão. Tão óbvio que nem consigo classificar isto como um spoiler.

Uncharted vs tomb raider 3

Relativamente aos vilões, tanto Uncharted 4 como a nova entrada da série Tomb Raider deixam bastante a desejar. Uncharted 4 porque tem um duo de vilões no qual um dos elementos é totalmente desnecessário – aka Nadine -, enquanto Rise of the Tomb Raider apresenta o típico vilão à procura de dominar o mundo e com outra motivação igualmente forçada. A principal diferença entre os dois títulos é que o exclusivo PS4 tem um elenco de luxo e uma história cativante capaz de o servir da melhor forma, Tomb Raider não o tem.

Não deixa de ser por isso algo estranho que Rise of the Tomb Raider seja muito mais interessante que o título da Naughty Dog no departamento dos colecionáveis. Embora Uncharted 4 seja uma clara melhoria relativamente aos capítulos anteriores da série, aproveitando as lições aprendidas com The Last of Us, e proporcione narrativas interessantes com a sequência de eventos que levaram à destruição de Libertália a ser contada apenas por páginas de diários, Rise of the Tomb Raider confere essa mesma importância tanto aos documentos, como aos diários de áudio e relíquias que encontrarão durante a aventura, enquanto Uncharted continua a fazer uso dos tesouros desinteressantes.

Uncharted vs tomb raider 4

As relíquias oferecem um vislumbre sobre as civilizações passadas, enquanto os documentos fornecem informações importantes sobre a organização que apoia os vilões, as suas motivações e outros detalhes que dão uma muito necessária substância à narrativa da obra. Destaque para uma sequência de diários que nos conta a história do responsável pela segurança das informações obtidas por Trinity e que vai lentamente percebendo as suas verdadeiras intenções, começando por libertar essa informação de forma indevida para que alguém a encontre até ao momento em que descobre que a organização está e sempre esteve ciente das suas ações. Junte-se a esta história, a aventura do assassino do Império que partiu numa busca de longos meses para assassinar o profeta e custa perceber o porquê da narrativa principal não ter nem metade do interesse destas pequenas aventuras que podem perfeitamente passar ao lado da maioria dos jogadores.

Se na narrativa quem impera é Uncharted 4, na jogabilidade a história é outra e é Rise of the Tomb Raider que mais faz para proporcionar um ciclo de diversão constante e diversificado. O combate da série da Naughty Dog sempre dividiu opiniões. Há quem esteja satisfeito com o que é oferecido e há quem o considere significativamente mais fraco que os principais rivais do género. Pessoalmente, nunca tive problemas com os tiroteios de Uncharted, mas quando comparado diretamente com Tomb Raider percebe-se que falta algo que torne este departamento especial e memorável.

Uncharted vs tomb raider 5

Satisfatória ou não, a jogabilidade de Uncharted 4 é extremamente repetitiva, apresentando um abuso quase irritante das mesmas mecânicas vezes sem conta. Seja o uso do gancho, os escorregas rochosos ou a quantidade de caixas que é preciso usar para servir de plataforma, o título protagonizado por Nathan Drake cai muitas vezes numa rotina, algo que não acontece com Rise of the Tomb Raider. Individualmente, as mecânicas de ação furtiva, a diversidade e o caos dos tiroteios e até as sequências de plataformas são mais recompensadoras, divertidas e memoráveis na obra da Crystal Dynamics, mas é quando todos estes elementos se conjugam que a sua jogabilidade se eleva para um patamar que Uncharted 4 nunca consegue verdadeiramente atingir.

Provavelmente o sinal mais óbvio da influência da série da Naughty Dog nas novas aventuras de Lara Croft é a utilização bastante frequente dos momentos bombásticos, recheados de explosões e destruição que parecem saídas dos “bons” filmes de ação do antigamente, as denominadas set-pieces. Sem grandes surpresas, Uncharted 4 volta a levar vantagem neste departamento, tirando proveito da sua abordagem mais cinemática à aventura à la Indiana Jones. Mesmo estando estes momentos presentes em maior número em Rise of the Tomb Raider, o exclusivo PS4 continua a ser responsável pelas sequências de maior espetacularidade.

Uncharted vs tomb raider 6

Mais do que os elementos que os compõe, é a forma como estes são utilizados e apresentados que mais coloca uma distância entre os dois títulos. Uncharted 4 é linear do princípio ao fim e o combate tem sempre como propósito levar o jogador até ao próximo pedaço de história, Rise of the Tomb Raider não o é. Sim, existe um caminho pré-estabelecido bem definido, ou seja, se realizarem apenas os objetivos principais, a campanha pode também ser definida como uma linha reta, mas a aventura de Lara Croft está repleta de áreas para explorar recheadas de objetivos secundários bastante apelativos, sejam eles os colecionáveis já referidos ou os túmulos à espera de serem saqueados.

Rise of the Tomb Raider consegue sobreviver e manter-se interessante, mesmo que ignorem durante grande parte do tempo a história, luxo a que Uncharted 4, devido à sua linearidade, não se pode dar. Isto permite também que a obra da Crystal Dynamics faça uso de elementos provenientes de RPG’s como o crafting, a evolução da personagem através da árvore de habilidades e da melhoria das armas. No fundo, Uncharted 4 tem um corredor extremamente bonito onde tudo acontece, Rise of the Tomb Raider tem um mundo cheio de coisas para ver e fazer sempre disponível para ser explorado ao ritmo que o jogador desejar, tornando-o excelente para quem gosta de limpar todos os pontos de interesse do mapa antes de avançar.

Uncharted vs tomb raider 7

Assim sendo, temos aqui duas obras que, embora frequentemente comparadas e claramente inspiradas uma pela outra, oferecem duas experiências completamente distintas, com diferentes valências e deficiências e que apelam a diferentes tipos de jogadores. Preferem a abordagem cinemática da aventura da Naughty Dog ou a solidez mecânica de processos da Crystal Dynamics? Preferem as personagens memoráveis de Uncharted 4 ou as atividades secundárias cativantes de Rise of the Tomb Raider? A resposta a estas duas perguntas ditará a vossa preferência em relação aos dois jogos, daí que seja impossível definir, o mais objetivamente possível, qual dos dois é na verdade melhor.

Dito isto, é absolutamente lamentável que ambos os títulos optem por aderir à moda, que é tão frequente nestes jogos de ação e aventura/ atiradores na terceira pessoa, de acabar a experiência com uma boss fight de qualidade duvidosa que parece apenas servir para deixar um sabor amargo na boca dos jogadores momentos antes dos créditos começarem a rolar, mas isso é assunto para uma outra altura.

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