A primeira temporada de Hitman está encerrada. Iniciada em março com o lançamento do prólogo e do episódio de Paris e terminada no último dia de outubro com a disponibilização do sexto episódio principal, a nova obra da IO Interactive mostrou à Telltale que é possível produzir e lançar experiências episódicas mantendo um intervalo de tempo minimamente constante entre cada capítulo. Provocações à produtora de The Walking Dead à parte, a adoção do modelo episódico por parte da mais recente aventura do Agent 47 tinha tudo para correr mal, mas, como foi ficando evidente ao longo das minhas análises aos diferentes capítulos da obra, o produto final acabou por se transformar numa das melhores entradas de 2016.

Não significa isto, contudo, que a fuga ao modelo de lançamento mais tradicional não tenha igualmente as suas desvantagens - aliás, se tal fosse o caso, o título deste artigo não faria grande sentido, pois não? Dito isto, nunca é demais salientar o quão bom Hitman realmente é, especialmente porque algo me diz que muitos de vocês que estão a ler este texto optaram por não aderir ao formato episódico da obra. Pessoalmente, compreendo perfeitamente essa decisão. Na verdade, já escrevi no passado sobre as minhas reservas relativamente ao modelo episódico - mais uma achega à Telltale -, no entanto, argumentaria que a IO Interactive fez com Hitman um melhor uso deste modelo do que a anteriormente mencionada produtora norte-americana.

Mas evitando entrar numa discussão “Who Did It Better?” entre IO Interactive e Telltale Games, pareceu-me bem, agora que a primeira temporada de Hitman está oficialmente concluída, fazer uma retrospetiva destes últimos meses para que se possa perceber o que resultou na perfeição, o que resultou menos bem e aquilo não resultou de todo na experiência oferecida pela nova entrada da já longa série de ação furtiva.

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Começando por aquilo que definitivamente não saiu favorecido com a transição para o modelo episódico - de forma a evitar terminar este texto de forma negativa -, a componente narrativa foi de longe a principal vítima do método de lançamento escolhido para o novo Hitman. Disse-o vezes sem conta à medida que fui analisando os vários episódios da obra, mas posso sempre voltar a afirmá-lo: a história aqui presente é fraca. Tão fraca que chega a roçar o insignificante. O final do capítulo em Colorado, Estados Unidos foi o único que me despertou o mínimo interesse na teoria de conspiração que o título pretende contar, mas esse interesse voltou a desvanecer com o episódio seguinte e os desenvolvimentos, ou falta deles, da história.

Como mencionei na análise ao episódio de Hokkaido, o título consegue sobreviver facilmente sem uma narrativa digna desse nome, contudo, não deixa de ser algo desapontante que um mundo com tanto potencial para histórias cativantes como é o mundo da espionagem não receba aqui uma história capaz de cativar e de nos deixar curiosos relativamente às suas personagens e motivações. Este aparente desleixo na narrativa é especialmente notório se o compararmos com o seu antecessor, Hitman: Absolution, obra que, para o bem ou para o mal, tentou oferecer uma história interessante e dar alguma humanidade ao seu protagonista.

Para lá da componente narrativa, não há praticamente elementos que possam ser encarados como verdadeiros falhanços nesta experiência que foi lançar Hitman em formato episódico. Mas existem alguns que não resultaram tão bem como provavelmente deviam. Um deles são os Alvos Elusivos, as missões que apenas estão disponíveis durante um curto período de tempo e nas quais têm uma única tentativa para as concluir com sucesso. 

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Num mundo perfeito, lançar estes alvos entre a chegada de novos episódios serviria para fazer regressar os jogadores e saciar o seu apetite por novo conteúdo, no entanto, isso apenas acontece com os fãs mais hardcore da série, o que na prática significa que os jogadores que regressem apenas no lançamento de novos capítulos dificilmente terão oportunidade de desfrutar deste conteúdo. Embora se perceba a intenção da produtora, parece-me contraproducente deixar este conteúdo apenas disponível durante um número pré-definido de horas, sobretudo quando já existe a limitação de apenas terem uma tentativa para eliminar estes alvos.

Colocar os Alvos Elusivos disponíveis de forma perpétua pode torná-los menos especiais e impedir que se tornem eventos em redor dos quais a comunidade mais hardcore se reúne para delinear estratégias e descobrir os métodos mais seguros, eficazes e espetaculares para aquelas que são, face às circunstâncias, as missões mais difíceis, mas nunca é aconselhável fechar a porta a conteúdo que esteve lá previamente aos jogadores que chegam mais tarde à festa. Mais uma vez, a intenção é boa, mas no formato atual conseguir superar estas missões depende tanto da vossa habilidade como da vossa disponibilidade no momento em que os alvos são disponibilizados.

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Felizmente, tudo o resto faz de Hitman um exemplo para futuras aventuras pelo modelo episódico de séries que dificilmente se poderiam associar a este método de lançamento. Desde o respeito e cumprimento das janelas de lançamento prometidas - a IO Interactive lançou praticamente todos os episódios com um mês de intervalo entre eles, incluindo um episódio adicional de verão - até à procura constante de obter feedback dos fãs a partir de questionários, o título soube sempre tirar o máximo proveito deste modelo para enaltecer as suas principais qualidades.

A partir de janeiro, o título estará disponível em formato físico e com todo o conteúdo incluído nas prateleiras das lojas, mas arriscaria dizer que Hitman merecia e deveria ter sido jogado respeitando os lançamentos compartimentalizados das suas missões. Isto porque o lançamento sequencial incentivou - ou, se preferirem, obrigou - os jogadores a tirarem o máximo da experiência oferecida por cada uma das localizações, testando os diferentes métodos para eliminar os alvos principais, realizando todas as oportunidades para assassinatos mais espetaculares ou levando as nossas capacidade até aos limites à medida que tentamos superar cada uma das missões sem recorrer a disfarces e sem nunca sermos descobertos

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Precisei de uma boas 6 ou 7 horas em Paris para atingir o nível de domínio máximo da localização e em momento algum me senti aborrecido ou que estava a fazer a mesma coisa vezes sem conta. Quando finalmente atingi o nível 20 e desbloqueei praticamente todos os disfarces e locais passíveis de serem utilizados logo no início da missão, estava já num ponto em que nem sequer precisava deles, pois sentia que já conhecia todos os cantos à casa e tinha descoberto como ultrapassar todos os obstáculos que me eram colocados pela frente. Obviamente, não tinha, mas Hitman conseguiu fazer com que eu encarnasse verdadeiramente a personagem de Agent 47 e me tornasse um mestre dos assassinatos.

Esta experiência perde-se por completo se optarem por jogar a obra como se fosse apenas mais um título tradicional. Quer queiram, quer não, sempre que terminarem uma missão, o vosso instinto será sempre avançar para a localização seguinte ao invés de continuarem a explorar a missão que acabaram de concluir vezes sem conta até a dominarem. Nós, aqueles que jogaram cada episódio de forma individual, tirámos horas a fio de cada um deles porque era tudo o que tínhamos na altura. Sabíamos que o próximo capítulo ainda estava a um mês de distância, pelo que se quiséssemos tirar o máximo proveito da obra, tínhamos de fazer render o peixe.

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A questão é que, como qualquer fã acérrimo vos dirá muito rapidamente, o melhor da série está na repetição das mesmas missões por diversas vezes, na aprendizagem de novas formas de atingir um mesmo objetivo e na procura incessante por obter as melhores prestações possíveis, o que neste título é sinónimo de melhores pontuações. Foi graças a estes elementos que Hitman: Blood Money se tornou tão popular e também graças à sua ausência que Hitman: Absolution foi tão divisivo. E é por isto que o modelo episódico assenta que nem uma luva em Hitman, porque realça o quão divertido e satisfatório é realizar as mesmas missões utilizando sempre estratégias diferentes.

Se ainda não ficou claro, termino dizendo que o modelo episódico de Hitman é um caso de sucesso e um exemplo de como este modelo pode efetivamente ser utilizado para enaltecer a experiência. Sim, a narrativa foi um tiro ao lado e os Alvos Elusivos parecem demasiado dedicados à comunidade hardcore do jogo e da série, mas o lançamento fragmentado das diversas missões traz mais vantagens do que desvantagens à obra. Não só a produtora foi aprendendo com os jogadores aquilo que estava e não estava a resultar, como também conseguiu manter os jogadores saciados com novo conteúdo de forma constante e sem longos intervalos de tempo entre cada novidade. No fundo, Hitman é um dos poucos títulos que é de facto melhor se acompanharem o seu calendário de lançamentos ao invés de esperar pela chegada da versão completa.

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