A tarefa que temos em mãos precisa de tempo e o tempo não se apressa. A contemporaneidade exige reclusão para quem é possível e é precisa ordem imposta para continuar a funcionar. Esperar pode parecer mundano, trivial, adquirido. Antes era possível contornar essa espera, mudar de ares, fazer outra coisa, acelerar em direção ao futuro. Agora, responsavelmente, não. 

Muito se tem escrito como Animal Crossing: New Horizons é o jogo certo para esta janela temporal. Incontáveis fãs procuravam um escape e encontraram-no; os criadores do jogo tinham essa esperança. Eu também, mas não por ser um escape para longe daqui, mas antes por ir buscar a New Horizons a estrutura para lidar com a espera, com a renegação da satisfação imediata; de correr para que o horizonte, dedos estalados, se transforme no agora.

O exclusivo Nintendo Switch está sincronizado com a passagem do tempo na vida real e muitas das tarefas realizadas precisam de tempo para ganharem vida. Reunir o que é preciso não é sinónimo de chegarem à linha de meta. Decidam melhorar a vossa tenda e terão que esperar. Suem para conseguir as pepitas de ferro para que a loja Nook’s Cranny seja finalmente construída e terão que esperar. Comecem a querer atrair visitantes para a vossa ilha e um dos primeiros passos é construir uma ponte. Orgulhosos escolhem o sítio e são recompensados com um perímetro delimitado no sítio que escolheram. Esperem e regressem amanhã. 

É muito provável que uma boa porção do arranque da vossa aventura em Animal Crossing seja passada a encontrar ofertas para entregar ao Blathers antes de o museu ser edificado. Tarefa concluída, fósseis avaliados e doados. “A construção do museu está prestes a começar,” diz a coruja. Quanto tempo é que vai demorar? Descubram com o passar dos dias. Será amanhá? Talvez, mas estejam atentos ao que Blathers diz. Pacientemente porque o esforço merece regras.

Na manhã seguinte regresso à Switch, entusiasmado para testemunhar a evolução da minha ilha, ansiando a declaração aos ilhéus de Tom Nook, fervilhando para percorrer os recantos, perceber quais são as alterações que o novo dia vai trazer. Animal Crossing continua a dar vida às flores, às construções, aos frutos, aos peixes, aos meus companheiros de aventura. As Nook Miles que vou acumulando saindo do meu caminho para realizar as tarefas que as atribuem mantêm este ciclo vivo, levando-me também a comprar Nook Miles Tickets e sair dali, viajando sem sair do sítio.

New Horizons é uma obra que sabe cuidar de si - para tratar do jogador. A Nintendo sabe que isto é uma maratona, a comunidade disse-o ao longo dos anos. A minha confiança na caixinha de surpresas escondida nos bastidores é alimentada diariamente e será uma celebração, por exemplo, quando uma nova Estação do Ano começar. Faço planos para continuar a regressar no outono e no inverno. Antes terei passado uma temporada nestas praias, imaginando como estará a minha horta, a minha casa, os meus amigos, os lugares mais elevados da minha ilha a que cheguei com a cobiçada escada.

Esperando por este desenrolar digital fez-me melhor a esperar pelo desenrolar real. Não me pedem muito, apenas que fique em cuidado. Se todos que puderem fizerem isto, o tempo passará para melhor. Não posso acelerá-lo e Animal Crossing: New Horizons ajudou-me a não o atrasar. Ligar-me ao jogo tem um entusiasmo muito próprio, desligar-me da Switch permite transportar esse compartimentalizar da espera comigo. A viagem pode ser longa e chegaremos todos juntos, ao mesmo tempo, e o estado da chegada depende de nós, não havendo tarefa demasiado menor.

Estou ciente, obviamente, da duplicação de itens, de truques com o relógio da consola. É possível ludibriar o que o jogo pensa do tempo. Mas para quê? Sabem quando é que o último jogo da série principal foi publicado? Foi em 2013 que Animal Crossing: New Leaf chegou às Nintendo 3DS europeias. Pessoalmente, não acredito que New Horizons mereça ser enganado, até porque é uma obra bastante honesta.

A comunidade também não o merece. Kenneth Shepard escreveu para o Fanbyte que a sua ilha e as suas criações estavam muito atrás do que estava a ver partilhado nas redes sociais. Chegou a uma conclusão astuta: não se devia comparar aos outros. A ilha de cada um é a ilha de cada um, o resultado do ritmo de cada um. O tal tempo e do que fazer na balsa da sua passagem. “Acho que me vou começar a focar sobretudo em objetivos mais pequenos,” escreveu Shepard. 

Este ritmo próprio e esta liberdade de não ser penalizado são ainda suplantadas pela generosidade e pelo carinho da comunidade Animal Crossing que não está no sprint. Emma Kent, jornalista do Eurogamer, resolveu abrir uma “Swap Shop” [Loja de Trocas numa tradução livre] na sua ilha. “Os convidados podem trazer um item e trocá-lo por algo que gostem mais. Desta forma todos têm algo que querem,” escreveu no Twitter.

Momentos depois voltou com boas notícias: “Atualização: tive cerca de 10 visitantes até agora e todos encontraram algo! Sucesso!”. A “Swap Shop” de Kent foi expandida entretanto e aberta ao público. Convidou todos os seus seguidores na rede social. Há uma aura muito própria nestas mensagens, neste comungar de solidariedade e de querer fazer bem aos outros. New Horizons ainda não tinha sido publicado e esta aura já pairava quando uma multidão ainda tinha direito a ser uma chatice.

No jogo e fora dele, há uma força invisível que realmente faz de Animal Crossing: New Horizons o jogo ideal para este momento que atravessamos. Mas torna-o por mais do que um motivo, pelo menos para mim. Tal como uso os meus Nook Miles Tickets para viajar digitalmente e extrair algo, também as minhas idas diárias a New Horizons são feitas para trazer algo comigo: lidar com o tempo fazendo planos para o após. São estes novos horizontes que este Animal Crossing me proporciona.

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