Pedro Martins por - Apr 2, 2019

It’s Winter: Da Rússia, com muito frio e muita noite

O nada é um terrível desatino. Contemplar o nada permite uma absorção de tudo o que é contemplado. Os videojogos continuam a despertar para a realização de que os controlos não são tudo, permitindo ao jogador ser e estar apenas, o que é a base que despoleta pensamentos e emoções; permitindo que o jogador seja ensinado sobre si próprio.

It’s Winter faz isso muito bem. Está noite e neva lá fora quando a câmara mostra o primeiro plano do jogo. Estará noite e nevará durante os minutos que se seguem. Cá dentro estamos num apartamento inserido num bloco que faz parte de um labirinto de betão. Temos vários objetos com que interagir, temos o tempo todo para descobrir que vamos perto.

Há um frigorífico, um micro-ondas, interruptores e uma televisão na divisão contígua. Conhecemos esta realidade: são tarefas mundanas que decorrem no monitor, com o cérebro a dividir-se entre a familiaridade e a curiosidade de saber se dá para realizar a tarefa seguinte: aquecer um alimento, comer os vegetais que estão dentro o eletrodoméstico.

Fatias de pão, um rádio, a narração de versos soltos. Tudo isto é ilustrado com uma tonalidade desenxabida, como se aquela vida fosse tão desinteressante que não quisesse sequer ser contada. O jogador explora o resto do apartamento, o que na prática é explorar o resto daquela vida: resquícios que foram espalhados entre paredes antes de lá chegarmos e que certamente continuarão depois do computador ser encerrado.

Com a conjugação ininterrupta dos verbos “ver” e “caminhar”, It’s Winter não quer mais do que fazer os jogadores perceberem que há mundo além da sua cidade natal. Descemos alguns lanços de escadas e chegamos ao mundo semi-aberto do jogo. Não há indicações nem objectivos, não há outras personagens e não há armas ou itens. Perdidos como se sem GPS chegássemos a uma nova localidade.

Quando chegamos a um dos limites do mapa somos reconduzidos de volta para a área do jogo: estamos presos nesta claustrofobia ao ar livre. Uma paragem de autocarro que não iremos usar, sinais néon escritos em russo adensam a sensação de estranheza, tractores limpa-neves com hipnótico sinal de marcha e a pergunta: para quê limpar se não há carros e a neve promete nunca parar de cair?

São muitos os moldes quebrados por Ilya Mazo e Alexander Ignatov para nos mostrar a sua “tristeza russa”. É uma exploração que dá lugar a uma confusão controlada. Na prática, como o cenário não é muito grande sabemos quase sempre onde estamos, contudo, isso não impede a obra de nos fazer questionar diversas vezes qual é o caminho para casa.

É uma experiência que nos revela uma bucólica e desamparada passagem do tempo. O conceito é precisamente esse: deixar o jogador experienciar sensações, elevando ainda mais o que pode ser apelidado de videojogo. O projecto não se fica por aqui, ou seja, It’s Winter faz parte de algo multiplataforma que inclui também um livro, um álbum, uma curta metragem e ainda uma peça de teatro.

Quem comprar o jogo à espera do que poderá acontecer vai ficar desiludido. Quem o comprar à espera de um arco narrativo delineado ou de uma jogabilidade definida vai ficar ainda mais desiludido. Quem o comprar para pensar terá à sua disposição um chorrilho de sensações e de questões sobre aquele local, aquela tristeza e sobre as pessoas que nunca chegamos a ver.

O local que mais me tocou, além dos inquietantes prédios que para mim exclamam rotina, foi o parque infantil deserto. Pensar para que servia, ou melhor: crianças com todo o tempo do mundo à sua frente, que tempo teriam afinal entre os longos invernos para desfrutar do parque, para serem crianças. E quem é que as acompanharia senão pais esgotados pelo cinzento que de tanta ausência de cor permite a projecção das cores emocionais de cada um?

It’s Winter é um intervalo entre jogos mais tradicionais. Fosse uma oferta, diria a todos que fossem à sua conta Steam e o experimentassem, pois mesmo que o detestassem seria possível que tal fizesse parte da experiência. Porém, no momento em que este texto é escrito, as férias pela desolação custa 8,19€ – um preço que será certamente demasiado para quem já está mentalizado que vai olhar para prédios enquanto neva. It’s Winter não é isso, não é apenas isso.

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