É muito provável que já tenham visto La Casa de Papel quando estiverem a ler esta primeira frase. A série que foi originalmente exibida em Espanha no canal Antena 3 está disponível em Portugal na Netflix e tem sido um sério caso de sucesso. Eu cheguei tarde aos seus episódios, mas quando cheguei, a criação de Álex Pina entrou diretamente para o topo de obras que mais rapidamente consumi.

A Netflix ajustou a forma como os episódios foram exibidos. A primeira parte é composta por 13 episódios e a segunda, que estreou no mês passado, coloca no serviço de streaming mais 9 episódios. Sabe-se desde já que haverá uma terceira parte, contudo, os fãs terão que esperar por 2019. Quando eu comecei a ver o primeiro episódio, já sabia que tinha a totalidade da história disponível para consumo. E assim foi, em apenas alguns dias.

O arco narrativo não é propriamente uma revelação. É um assalto à Casa da Moeda espanhola em que são feitos reféns. As duas partes acompanham as horas do que se passa lá dentro e, obviamente, dos avanços da polícia. Contudo, onde La Casa de Papel se torna tão, mas tão viciante é na forma como esse plano decorre, na forma como a grande mente que planeou o assalto, O Professor, pensou em todos - ou quase todos - os pormenores.

Durante estes onze dias, ficamos a conhecer quem são afinal estes assaltantes e quem é O Professor, outrora criança doente com uma infância passada em camas de hospitais, a grande mente revela as intenções e a sua grande inspiração - que foi afinal quem teve a ideia, agora executada com minúcia. Ou seja, é um assalto que se torna tão apaixonante pelo turbilhão de emoções que vão apertando as personagens.

Colocando em prática a ideia que as pessoas más não são 100% más e que as pessoas boas não são 100% boas, La Casa de Papel consegue o feito de colocar muitos dos espectadores a torcer pelos assaltantes. O primeiro episódio está longe de ser o melhor, mas estabelece logo que a dicotomia entre assaltantes e forças policiais não será - e não é - um jogo a preto e branco. 

Os escolhidos pelo Professor são instruídos desde bem cedo que não haverá violência e que a opinião pública terá que ser conquistada até estar do seu lado - tal como é comprovado muito depois quando uma equipa de jornalistas tem acesso ao local do assalto e é recebida com uma inversão de papéis, onde um Berlín feito cicerone faz a Espanha que estava parada à espera da entrevista render-se às suas intenções e ao seu texto bem preparado.

É uma equipa em que praticamente todos têm uma personalidade que acrescenta algo à fórmula que tantos fãs conquistou. Mesmo que adore odiar Tokio, terá que certamente acabar por lhe reconhecer uma ou outra ação que faz a trama avançar e que, acima de tudo, ajuda a completar o puzzle. A teoria é que tecnicamente ninguém está a roubar nada, mas sim a produzir dinheiro na casa para eles próprios. Ou seja, é um argumento que caminha essa ténue linha. Claro que na prática é um crime, mas há algo de Robin Hood presente desde os primeiros episódios.

Por exemplo, Nairobi é a responsável por ajudar na produção de todo este dinheiro, o que parece ser uma tarefa relativamente simples. Contudo, o argumento vai apresentando a personagem antes da entrada para o local do assalto, vai desvelando a sua personagem e, tal como as restantes, há a questão familiar e a questão do desespero como motivos que levaram a tamanho acto. 

É um tema comum: a revelação das intenções mudam a forma como os espectadores encaram o assalto e, sobretudo, a forma como percebem os corações que batem debaixo daqueles fatos vermelhos e das máscaras de Dalí. Denver começa como alguém que praticamente não pensa e que parece ficar na memória por um riso que tira qualquer um do sério. Porém, é afinal o veículo para uma arrebatadora história de amor, tornando-se facilmente uma das personagens que melhor abre o coração e conquista o dos espectadores.

Contudo, há três personagens que ficarão comigo acima das restantes. Raquel Murillo, a face mais visível da resposta policial, o já mencionado Professor, e Berlín. Não é surpresa que o Professor tenha que negociar com Raquel, contudo, quem já viu saberá de cor e salteado como é que tudo isso evolui, como é que os dois lados da barricada tão bem se complementam, apagando ainda mais essa mesma barricada.

Há alguns exageros mesmo nunca perdendo a noção da quadrante da ficção e do entretenimento, algumas decisões e execuções que não se enquadram muito bem com o lado lógico da operação. Mas ainda assim, se fecharem os olhos a esses exageros emocionais, o fio narrativo destas negociações é apaixonante, particularmente pela conquista de confiança e pela explosão do lado mais humano, a explosão que pode levar a muitos acto irrefletidos - quase todos a pedirem pipocas.

O caso de Berlín é o mais complexo. Criminoso declarado e personagem que toma algumas decisões bastante questionáveis e reprováveis, o outro lado da moeda é de uma generosidade que abala - tal como comprova o final da segunda parte. É uma personagem complicada, para mim inquestionavelmente a melhor, pois não é alguém que se ame ou odeie apenas numa dimensão. Ajuda bastante que o ator que lhe dá vida, Pedro Alonso, assine provavelmente a melhor prestação do elenco.

Não é à toa que é a personagem que mais cenas rouba e não é à toa que a dicção e os ditos parecem ter sido pensados para se tornarem máximas populares. Porém, debaixo desta aparente superficialidade está uma dança do sombrio e da luz, que vão levando quem vê a tirar notas e a estudar o seu comportamento. Há reações, sejam de violência, mágoa, ou cómicas, que ficam - como a sua reação quando Artur (Arturito) liga à esposa que está fora da casa e, bem, tem problemas a acertar com o nome.

Era praticamente impossível que uma série que assenta num assalto não tivesse alguma violência e algumas baixas, ainda que tal como já escrevi o plano inicial quisesse a mais pacífica produção de dinheiro na história. Essas cenas são feitas com uma gentileza e com uma sobriedade que denota o estudo da eficácia. A culpa e o perdão, a forma como essas peças são usadas para servir de emulsão às mortes, mexem nas emoções de quem vê de uma forma que sim, é calculada, mas que é também eficaz.

La Casa de Papel é um caso que serve perfeitamente para ilustrar a bola de neve que pode ser a Netflix. Com uma popularidade em declínio na sua transmissão original em Espanha, foi no catálogo do gigante do streaming que encontrou uma nova vida e acabou por se tornar um fenómeno. Não é uma proposta exigente como Dark, claro que não, mas isso não lhe retira o mérito de saber tocar nos botões certos e nos momentos certos.

Agora que as duas partes estão vistas, La Casa de Papel é como uma orquestra perfeitamente oleada. Como se o final de cada episódio fosse um impulso para o seguinte até não sobrar mais nada. O grande mérito é pegar numa ideia que tinha tudo para ser mais um cliché e munir essa mesma ideia de personagens com carisma e química, é colocar essa ideia em pontos narrativos que parecem insolucionáveis - um pouco como Prison Break fez nos seus tempo áureos - e retirá-la de lá para mais um episódio, para mais uma sessão de binging, definindo tão bem esse impulso para consumir tudo no menor número de vezes possível.

O final da segunda parte termina tudo como um grande laço que não deixa praticamente pontas soltas. Não sei como é que será a próxima parte, mas posso imaginar que a Netflix vai fazer tudo o que pode para que o fenómeno continue. O crime dá lugar ao amor, os maus não são assim tão maus e os bons não são assim tão bons. Pode parecer básico, mas acreditem que será muito, mas mesmo muito difícil parar de ver.

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