António Farracho por - May 20, 2013

O que andamos a ver, 3 de fevereiro

É provável que este fim de semana esteja a ser marcado pela demonstração jogável de Anthem, com a amostra de conteúdo do novo da BioWare a tomar conta de muitas horas livres entre semanas de trabalho. Ainda assim, se quiserem dar algum descanso ao vosso Javelin, a equipa VideoGamer Portugal tem algumas recomendações fora do domínio dos videojogos.

O texto do Filipe Urriça é o primeiro dos três que podem ler, com o autor a voltar ao universo de Riverdale na Netflix, desta vez para escrever sobre a terceira temporada da obra. Se acompanharam a série, certamente ainda estarão recordados do fenómeno que foi quando estreou, fulgor que, aparentemente, se foi perdendo com o tempo. O Filipe explica se vale ou não vale a pena continuarem a dedicar-lhe o vosso tempo.

Como quase sempre, Marco Gomes escreveu sobre uma obra a que assistiu graças a um dos milhentos DVD que tem na sua coleção. Este domingo as palavras são dedicadas a A Fábrica do Nada, obra de Pedro Pinho que conta a história de um grupo de funcionários que tenta evitar que o fecho da sua fábrica. Foi um dos grandes filmes nacionais de 2017.

Finalmente, a encerrar o artigo este domingo temos as considerações de Pedro Martins sobre Boneca Russa, série que estreou sexta-feira na Netflix. Misturando comédia negra com laivos dramáticos, os oito episódios conquistaram o autor, não só sendo uma recomendação fácil, mas também uma reflexão sobre a rotina e como essa rotina pode inclinar o humano para ser melhor ou pior enquanto comunga com as pessoas à sua volta.

Filipe Urriça, Riverdale (Netflix)

Nestas últimas semanas, tenho acompanhado, novamente, Riverdale na Netflix. Se a primeira e a segunda temporadas foram estranhas, em termos narrativos, esta terceira é de se tirar o chapéu. Sinceramente, acho que os argumentistas de Riverdale pensam que estão a escrever um anime, é a única razão lógica para uma série que já não a tem.

Não quero com isto dizer que Riverdale já não tenha interesse nenhum, o que não faltam são surpresas nesta série juvenil. Contudo, não posso deixar de ficar estupefacto quando jovens de dezasseis anos são tratados como adultos, mesmo que não existam consequências legais para o que fazem. Num episódio recente, a série tentou ganhar alguma credibilidade quando vemos os nossos protagonistas a frequentar a escola devido aos testes SAT que se aproximam. Pois, até aqui, foram raros os episódios que os mostraram a frequentar a escola.

Mas como é que estas jovens conseguem estudar? Jughead está a liderar um gangue de motoqueiros, enquanto que Betty está a tentar encontrar um equilíbrio entre desmascarar o Gargoyle King e evitar que a mãe a leve para uma seita religiosa. Archie é um fugitivo na sua própria cidade, depois de ter sido ridiculamente acusado e condenado por um crime que não cometeu, já Veronica gere um autêntico casino noturno enquanto luta contra o seu pai criminoso que o quer fechar.

E não foi há muito tempo que a série foi renovada para uma quarta temporada, o que não é de estranhar, dada a popularidade da série. Porém, esta falta de rigor lógico deixa-me perplexo. Quero agora saber como é que vão dar descanso ao Archie, que precisa urgentemente de estudar, assim como devolver atitudes próprias de adolescentes às suas personagens. É que começa a chegar a níveis absurdos de falta de coerência.

Marco Gomes, A Fábrica do Nada (DVD)

Tivesse boca o cinema português para descrever sua condição, por certo, não enjeitaria palavras de Fernando Pessoa em correspondência para José Osório de Oliveira, escrevendo: “… o paradoxo não é meu: sou eu.”

O que dizer de uma produção invisível, quando não indiferente, quando não vexada, aos olhos dos concidadãos que é estudo de caso extramuros, das poucas que, pese angústias de financiamento, ou até por elas, continuadamente pelo âmago revolve o meio, esticando-lhe as fronteiras.

Estando a cúpula da sétima arte entretida com delírios em CGI, faz-se pouco espanto ser o ecossistema periférico a ungi-la, à arte, não à cúpula, de realidade. Também sem perplexidade, permitindo-o o reconhecimento longe de passadeiras vermelhas, de lusa feitura são dois dos mais impactantes testemunhos em película da crise financeira eclodida em 2007, As Mil e Uma Noites (2015) e A Fábrica de Nada (2017).

Num caso como no outro, rejeitando óbvias abordagens ao tópico em documentário ou ficção de drama social, antes, emaranhando-as num atestado de imaginação e liberdade, assinada por “Já o Tempo se Habitua” de José Afonso na sequência final, arrebanhando os créditos, de A Fábrica de Nada.

Tendo Pedro Pinho como realizador, desmarca-se desde logo a obra da hierarquia de reconhecimento convencionada, sendo atribuída, para além do sentido lato de todos intervenientes em seu processo, a um colectivo que, além do nome susodito, engloba Leonor Noivo, Luísa Homem, Susana Nobre, João Matos e Tiago Hespanha. Símbolo unívoco, premeditado ou não, do sistema de autogestão fabril, inspirado em caso real, que serve de vida, a de seus colaboradores, à narrativa.

Servida de estrutura mais coesa que a trilogia assinada por Miguel Gomes, ameniza o facto a partilha do maior de seus anátemas, pouca objectividade no processo de montagem, devendo-se ali ter barrado, por descartável índole, número significativo de cenas e sequências, outras havendo que a montante necessitariam ver-se reformuladas.

A tudo isso resiste o valor de unicidade e diferenciação do objeto fílmico, atestado pela quase anedótica etiquetagem de musical, algo que, a sê-lo, tomando como referência a visão clássica do género, não ocupa mais de cinco numa metragem total de cento e setenta e sete minutos, onde encaixa, como aqui a talhe de foice, uma tresmalhada banda sonora, da ave-rara também ela retrato. Só neste país!

Pedro Martins, Boneca Russa (Netflix)

Oito episódios que não excedem a marca dos trinta minutos cada, um ritmo coerente entre todos, uma experiência que é uma surpresa e que deixa o espectador a pensar depois de terminada. Vi a primeira temporada de Boneca Russa – Russian Doll na versão original – e fica a recomendação inequívoca.

Criada por Leslye Headland, Natasha Lyonne e Amy Poehler, a série começa a vida com Nadia (Natasha Lyonne) no apartamento de uma amiga que lhe preparou uma festa. É o dia do seu 36º aniversário. Cumprimenta os convivas, é-lhe oferecido um charro com uma substância que será explorada posteriormente. Sai da festa e morre atropelada.

Em muitas séries isto seria um ponto fracturante, em Boneca Russa é a base do argumento. Depois de morrer, Nadia está no apartamento de uma amiga que lhe preparou uma festa. É o dia do seu 36º aniversário. Nadia vai morrer inúmeras vezes e vai regressar ao mesmo dia, ao mesmo local. Amplamente comparada a O Feitiço do Tempo, a série é muito mais do que uma cópia descarada do filme de Harold Ramis.

Nadia pode estar a viver num ciclo que parece repetitivo, mas isso não quer dizer que a série o seja. A protagonista terá que compreender o que lhe está a acontecer e o porquê de tal lhe estar a acontecer. Cada vez que Nadia morre e cada episódio que passa, a série acrescenta uma camada de informação que o espectador passa a conhecer e constrói a partir daí.

Na prática, ficamos a conhecer a importância da rotina e a possibilidade de como o tempo, mesmo que seja um círculo, permite melhorar ou não a forma como tratamos os outros e, não menos importante, como nos tratamos a nós próprios. De forma inteligente, ficamos também a conhecer melhor o passado de Nadia e a maneira como a sua vida até este momento “exige” pelo menos a consideração da mudança de comportamento.

As amizades e as relações amorosas são inequivocamente parte do argumento, algo que é partilhado por Alan (Charlie Barnett), personagem que tem um papel importantíssimo na compreensão que Nadia tem deste fenómeno. E apesar de a morte ser indiscutivelmente a viga mestra da série, há inúmeras cenas de comédia – comédia negra, sim, mas ainda assim comédia.

Encontrando este equilíbrio no ritmo e no tom, contando com uma escrita que se torna viciante especialmente nas linhas de diálogo e acrescentando o seu próprio toque a uma fórmula já testada, Boneca Russa é série para ser vista. Depois, bem, depois chegam as perguntas a nós próprios sobre quantas vezes teremos que passar pela mesma situação até finalmente compreendermos que está na hora de fazer algo.

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