Marco Gomes por - Apr 26, 2015

O que andamos a ver, 3 de novembro

Com os sustos de Halloween ultrapassados, este fim de semana pode ser passado tranquilamente a experienciar um videojogo ou a ver um filme ou série enquanto lá fora as nuvens parecem querer continuar a sua estadia. Felizmente, a equipa VideoGamer Portugal tem algumas sugestões para este domingo e para os próximos dias.

Pedro Martins descobriu uma pérola – ou melhor, finalmente assistiu a uma das séries que já estava no seu radar há algum tempo. Como podem ler neste artigo, Undone é uma proposta original, tanto no estilo visual como na história que tem para contar. São oito episódios que valem bem a pena o seu vosso investimento.

Por sua vez, o Filipe Urriça continua a tirar partido das estreias que vão acontecendo nos canais TVCine. Na passada sexta-feira a noite foi de Dumbo e o redator da equipa marcou presença, escrevendo agora as suas impressões da obra de Tim Burton que conta com Colin Farrell e Michael Keaton no elenco, entre outros nomes consagrados.

Finalmente, o Marco Gomes dedicou uma porção da sua semana a testemunhar o que Tu, que Vives tem para oferecer. E, segundo podem ler, torna-se evidente que tem bastante para entregar ao espectador, com o Marco a descrever o filme de Roy Andersson como “um objeto de clarificação e definição de um estilo”.

Pedro Martins, Undone (Amazon Prime Video)

Undone é uma proposta de entretenimento que logo no primeiro dos oito episódios me cativou a atenção, não precisando sequer de vinte minutos para o conseguir. A série foi criada por Kate Purdy e Raphael Bob-Waksberg, nomes consagrados graças ao trabalho feito em BoJack Horseman, e usa uma técnica de animação chamada Rotoscoping. Na prática, foram gravadas as imagens com as performances do atores e posteriormente adicionados desenhos que transformam os planos finais numa hipnótica apresentação.

Esta escolha permite também colocar os protagonistas e, consequentemente, o arco narrativo em situações que transcendem a realidade, o plano de existência, e a passagem do tempo como a conhecemos. Alma (Rosa Salazar) está cansada da vida que tem interrogando-se se será apenas aquilo, se a sua existência não será constituida por algo mais do que a comum rotina casa – trabalho – casa.

Um violentíssimo acidente automóvel coloca-a no hospital, onde começa a ver Jacob (Bob Odenkirk), o seu pai que faleceu numa fatídica noite de Halloween quando Alma era ainda uma criança. A espinha dorsal do arco narrativo, porém, é a possibilidade de, juntamente com o seu pai, desafiar o tempo e a realidade, percebendo o quê ou quem matou o seu pai e tentando regressar à mencionada noite de Halloween quando o seu pai misteriosamente faleceu.

Não só Undone faz tudo o que pode para não ser um chorrilho de clichés sobre alterações no tempo, como Alma tem lidar com o trauma e com várias sinais de problemas de saúde mental na família. Na prática, isto faz com que a protagonista tenha que lidar (e descobrir a verdade sobre a sua mãe, Camila (Constance Marie), assim como gerir a relação com a sua irmã, Becca (Angelique Cabral), que passa uma boa parte da temporada a preparar-se para o seu casamento.

Alma, contudo, tem um namorado Sam (Siddharth Dhananjay) com o qual não quer ter apenas uma relação que simplesmente a conduza ao casamento. As ações que ambos (namorado e irmã) fazem enquanto Alma não está presente podem ser, no entanto, testemunhadas quando a protagonista aprende a colocar-se em linhas temporais que não são apenas a sua existência. Movimentar-se desta forma e confrontar as pessoas tem efeitos imprevisíveis, capazes de manter o espectador completamente investido.

Undone não é desafiante ao ponto de não fazer sentido, mas pede obviamente a vossa completa atenção. No oitavo e último episódio há efectivamente o regresso à noite de Halloween e uma reviravolta que poucos terão conseguido adivinhar. Misturando um arco narrativo forte que aborda questões importantes com performances e um estilo gráfico imponente, a série é uma recomendação facílima para quem tem uma subscrição Prime Video. Se não têm, talvez seja um bom momento para investir um mês e verem também Fleabag.

Filipe Urriça, Dumbo (TVCine 1)

Ver a nova versão de Dumbo, realizada por Tim Burton, foi um exercício à minha memória. E vi este filme não por desconfiar que seria algo extraordinário, mas pela curiosidade em ver como ficou a adaptação – nomeadamente a parte dos elefantes cor de rosa a dançar.

Como seria expectável, Dumbo não tem um foco nos animais do circo, mas nos humanos que tratam deles e os usam para fazer acrobacias circenses. Aqui há no papel principal dois irmãos e o pai que regressou da guerra. Como está incapacitado para voltar a cavalgar para o seu espectáculo com cavalos, este ficou obrigado a tratar de Dumbo com os seus filhos.

Ainda me lembro que Dumbo tinha uma moral que se ia construindo ao longo do filme. A mensagem do filme de animação era a de superar o medo e as adversidades com os nossos amigos. A nova adaptação de Tim Burton também tem uma moralidade, mas esta aparece quase explicada no encerramento do filme, não há uma progressão narrativa que nos leva a saber a mensagem por nós próprios.

Dumbo, contudo, é um bom filme para toda a família, sobretudo para os mais novos, porque é o pequeno elefante de orelhas enormes que vai sendo o veículo emocional, apesar da ação estar mais focada nos seus tratadores. É este o futuro recente da Disney: Star Wars, Marvel e adaptações de filmes de animação com actores ou com versões mais realistas criadas por computador. É triste, mas aparentemente a criatividade não dá tanto lucro como o reaproveitar de licenças estagnadas.

Marco Gomes, Tu, que Vives (DVD)

Com uma curta-metragem para televisão de permeio, sete anos volvidos após a obra trazida na semana passada, Canções do Segundo Andar (2000), apresenta Roy Andersson um desses exercícios capazes de demonstrar continuidade -tendo aquela por única referência, desconhecendo, salvo mais esclarecida opinião, o mercado português seu anterior percurso, contando, entre curtas e longas-metragens, uma dezena de registos- e, ao mesmo tempo apontar caminho a rumos novos.

Ou melhor, Tu, que Vives (2007), Du Levande de título original, é um objeto de clarificação e definição de um estilo, algo a que de forma indestrinçável possamos colar ao autor, sem comparações a terceiros. Abdicando novamente de ciclos narrativos convencionais a favor de uma construção por episódios, concretamente, cinquenta e sete, segundo número apurado em pesquisa.

Neles cabe o amplo espectro de emoções vividas pelo ser humano, arejando, numa das mais acentuadas nuances face a Canções do Segundo Andar, o entrelaçar de comédia e tragédia, até quando coabitam num mesmo quadro. O carácter de reflexão existencialista óbvio do conjunto não torna, porém, mais linear seu processo de descodificação, residindo aí porventura o âmago da originalidade do criador sueco, através de apanhados que no extremo aparentam humor nonsense ou mesmo piadas de índole privada.

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