Marco Gomes por - Mar 20, 2016

Luzeiro do Escondidinho – Episódio 44

Tendo alguns no forno preparados para outras festividades, fecha o pano sobre este quarteto de episódios dedicado a criadores marginais de videojogos com mais um peculiar exemplo, o americano Mason Lindroth.

Num trajeto palmilhado no chão dos game jams, algo que constituindo padrão aos casos trazidos sobressai no do presente, chamou desde cedo a atenção pela identidade visual low-fi, baseada em “técnicas secretas” que teima de forma egoísta, confissão do autor, em não desvendar.

Ao nela atentarmos dificuldade não teremos em identificar uma base de modelação em plasticina com posterior registo fotográfico e edição digital da imagem, todavia, a diferença far-se-á pelo je ne sais quoi, ou impotência de descodificar os pormenores, que, amiúde se diz fazerem a diferença.

Injusto, porém, se categoriza o ato de reduzir méritos de Lindroth ao substrato técnico, visto que, cada partícula de seu agir contribui para a sustentação de um universo inimitável, em ascendente curva de complexificação mas, igualmente, de consistência interna, resvalando do patamar idiossincrático para o demiúrgico.

Hylics

PC (Windows) – outubro, 2015

O mais recente e, até agora, único título comercial de Lindroth apresenta-se igualmente como a mais ambiciosa de suas produções, corolário de um percurso experimental progressivamente afirmativo. O ano despendido em seu desenvolvimento, mais melro menos gaio, faz disso prova contrastando com o exíguo período temporal oferecido a anteriores labores, sujeitos a benesses e condicionalismos da participação em game jams.

Derivando do grego, significa Hylics a “matéria” em oposição à dimensão psíquica da “alma”, uma das três parcelas constituintes da hierarquia gnóstica, crença que serve de candeia ao autor no quotidiano e se repercute de forma assinalável em sua produção artística.

Possuindo ligações ao universo de Somsnona, inclusive, com a curiosidade de permitir recrutar para nosso feudo uma personagem que responde por tal nome, revela-se Hylics como um “programa recreacional com ligeiros elementos de JRPG”, ou se quiserem, apartando a encriptação linguística do autor, um role playing game por turnos sem possibilidade de subida de nível ou customização de personagens.

Como se o esotérico e barroco misto expresso nas componentes técnicas do título concebido em RPG Maker não fossem à ortodoxia traição suficiente, promete outra característica surpreender jogadores incautos, a geração aleatória de…conteúdo textual.

Melter

Flash – abril, 2015

Tendo como tema “Uma Arma Inconvencional”, serviu Melter como registo participativo de Lindroth à trigésima segunda edição de Ludum Dare.

Ao longo de três níveis de uma aparente estrutura clássica de plataformas, passa o objetivo dos jogadores pela recolha do medalhão que por eles aguarda nos confins de cada etapa.

Atendendo ao facto do projétil libertado pela personagem não contundir inimigos que pelo cenário se passeiam, com alternativo engenho o teremos de utilizar para progredir entre secções.

Assim, definindo-se automaticamente sua velocidade pela distância entre o avatar e a zona de impacto, duas opções de arremesso se disponibilizarão, permitindo uma a criação de blocos que do nada erigem superfícies pedonais, a outra, fazendo jus ao título, um efeito contrário despoleta derretendo os elementos sólidos que compõem os andaimes de jogo.

Beachcomber

Flash – abril, 2014

Não sendo uma aventura de exploração no estreito sentido que o subgénero nos habituou, paradoxalmente, poucas o poderão descrever com maior clareza que Beachcomber.

Munidos de um detetor de metais deambularemos por uma praia na ânsia que as indicações sonoras libertadas do aparelho atinjam o ponto de histeria. Quando tal sucede, poremos as mãos na massa -expressão nada inocente ao ganhar cunho de trocadilho técnico- abrindo cavoucos para extrair os rebentos da areia ao ser fecundada pelo tempo.

Resultando da participação no Ludum Dare 29, com o tema “Debaixo da Superfície”, oferecerá Beachcombers três distintos epílogos e um alforge de surpresas a escavar, incluindo, uma lancha de borracha que nos permitirá pregar com a maquineta para outra freguesia.

Weird Egg & Crushing Finger

Flash – dezembro, 2013

Mais do que um título de caráter descritivo, remete-nos este para a génese, momento em que os residentes únicos de uma ilha de plasticina são um ovo e um omnipotente dedo.

A descomprometida visão de Lindroth sobre o subgénero god game leva-nos a gerir uma colónia de humanoides com recurso a duas simples ações, esmagar e arrastar, não ficando a salvo do livre-arbítrio tudo capaz de fazer sombra na massa informe.

Tentando impedir que as “caveiras malvadas” tomem conta do território, ao mesmo tempo teremos de levar os feiticeiros a recolher as almas das formas orgânicas esborrachadas.

O sucesso, se assim chamar poderá, alcança-se com a angariação de treze daquelas, momento em que a vigorosa dança das miniaturais criaturas enche de consolo o ecrã.

Weird Egg & Crushing Finger, à semelhança de toda a produção de Lindroth com exceção de Hylics, ideado foi enquanto participação num game jam, concretamente, Ludum Dare 35 com o tema “Só Um Obténs” .

Journalière

Browser – agosto, 2013

Em Journalière a primeira impressão que à vista salta, na verdade, salta ao ouvido através de circuito inverso, ou seja, o completo mutismo. De “Quando eu for grande (carta aos meus netos)“, canção de José Mário Branco com letra de Manuela de Feitas me lembrei, “Quando eu for grande quero ser | Uma pedra do asfalto | O que lá estou a fazer | Só se nota quando falto”.

Se a maturidade advém de uma opção estética, de problemas técnicos ou pura e simplesmente do ócio, não fez o críptico Mason Lindroth saber.

Vencedor do prémio do júri no evento No Future Contest, promovido pelo espaço Visages du Monde na localidade francesa de Cergy, assume-se Journalière como uma extensão em escala tipográfica de cinzas do labor efetuado para Somsnosa.

Somsnosa

PC (Windows) – abril, 2013

Concebido enquanto participação no Ludum Dare 26 sob o tema “Minimalismo”, assume o próprio Lindroth num comentário post-mortem, prova mais de seu sardónico sentido de humor, que pende mais o exercício para o flanco da demonstração gráfica do que da convencional experiência lúdica interativa.

Como “JRPG épico” planeado, por reação inversa à temática proposta, não se coibiu com desplante o autor acrescentar que a componente narrativa terá dado quota bastante aos requisitos de participação no evento, embora o produto final, a bem dizer, ficando curto de intenções reduz o subgénero à essência.

Todavia, a importância da obra além vai dos méritos inerentes, servindo com ponto referencial no percurso de Lindroth ao gizar o método de trabalho, a tipologia de desenho de jogo, ou dele a falta, e a composição técnica a que doravante recorreu.

Se a pujança dos criadores de videojogos for diametralmente oposta à indigência mediática, então, Mason Lindroth é o Schwarzenegger do meio.

Mesmo da púcara a tirar nabos, o conteúdo disponibilizado sobre seu trabalho revela-se escasso e metade das obras nem um vídeo esgalhado por um youtuber forrado a acne tem para a mostra.

Desses desvalidos aqui fica sua enunciação cronológica, lembrando uma vez mais sua condição de gratuitidade, logo, a consumir sem reservas:

Mossnaso (dezembro, 2014) | Lullaby (agosto, 2014) | Almost Fluid Plantain (agosto, 2013) | Fishing Club (março, 2013) | Asmosnos (dezembro, 2012)

Sopapos e balázios a semana próxima nos trará com a estreia, em coletivo, do género de ação. Embora alinhavado não esteja o cardápio a apresentar no episódio, ou mesmo se necessidade haverá de sua multiplicação, prometido fica um rodízio de cheiros e sabores. Até lá, bons jogos.

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