Marco Gomes por - May 8, 2016

Luzeiro do Escondidinho – Episódio 51

Para se irem habituando. Como ficou escrito nas despedidas da anterior entrega, de dois em dois meses uma por cá há de aparecer que recapitule os mais significativos títulos de humildes meios lançados no período, privilegiando os de menor mediatismo.

O exercício feito já para os dois primeiros meses do ano no episódio quarenta e dois revela-se de hercúlea monta atendendo à atual fragmentação do mercado, ainda assim, quem com uma mão tira com a outra dá, testemunha a pujança – termo que aqui engloba quantidade, variedade e qualidade – com que vive o meio e pela qual teremos de estar gratos.

Assim, ficou o bimestre englobando março e abril marcado pela edição de, por ordem alfabética e segundo critério nascido do casório da visibilidade com o mérito, 1979 Revolution: Black Friday, Alienation, Enter the Gungeon, Hyper Light Drifter, Salt and Sanctuary, Samorost 3, Severed e The Banner Saga 2.

Igualmente significativo, embora ainda numa realidade alheada das massas, o lançamento de dois dos mais badalados dispositivos de Realidade Virtual, Oculus Rift e HTC Vive. Com eles, uma taleigada de propostas de deslavada valia – ilustrada pela que mais se aguardava, Adr1ft -, ainda assim, capaz de oferecer ao alinhamento deste Luzeiro testemunhos de contracorrente. Dêem-lhes corda!

Chronos (Gunfire Games, Estados Unidos da América)

PC (Windows) – 28 de março, 2016

Passado pelo Luzeiro não há muito tempo, episódio trinta e nove datado de catorze de fevereiro, o exclusivo Oculus Rift assumiu lugar de destaque no alinhamento de lançamento do dispositivo de Realidade Virtual ao adaptar a tecnologia ao videojogo e não o contrário.

A aventura com elementos de role playing game, na veia da série The Legend of Zelda, marcou pontos junto da crítica especializada ao oferecer uma experiência de jogo sólida onde o sentido atmosférico e escala dos cenários se vêm exponenciados na imersão proporcionada pelo aparato técnico.

Facto que ganha mérito acrescido ao renegar o estúdio de David Adams e Matt Guzenda a perspetiva na primeira pessoa em detrimento de um acompanhamento de câmara nas costas do protagonista através de pontos de colocação fixos, a lembrar os primórdios de séries como Alone in the Dark ou Resident Evil.

Ao lado dos escrutínios, curiosamente, passou a que em teoria seria a mais diferenciada característica da obra, o envelhecimento do herói e seu correspondente influir no contexto jogável, provando que, também nesse aspeto, a competência, mesmo que erigida à custa da colagem aos clássicos, se definiu como prioridade basilar na conceção de Chronos.

Deadbolt (Hopoo Games, Estados Unidos da América)

PC (Windows) – 14 de março, 2016

Chegado ao mercado em pés de veludo, ninguém diria tratar-se Deadbolt como novo trabalho de Paul Morse e Duncan Drummond, responsáveis por Risk of Rain (2013), título de culto que, como atesta o bem recebido lançamento recente no ecossistema PlayStation, continua aí para as curvas.

Passado pelo VideoGamer Portugal em artigo noticioso aquando da revelação ao mundo, oferece Deadbolt aos jogadores, sobre uma estrutura híbrida de ação com elementos furtivos, o mais desejado ou odiado, dependendo da perspetiva, dos ofícios, enviado da morte, a braços com o desmesurado crescimento da comunidade de mortos-vivos.

Com um sortido de habilidades generoso, superado apenas pelo arsenal de mais de trinta amostras de equipamento bélico, adaptado a três diferentes estilos de jogo, assassino silencioso, rambo da praxe ou sandes mista, prometiam os cerca de vinta e cinco desafios propostos pela campanha ser um passeio pelo parque não fora um caricato pormaior, aflija um golpe que seja seu corpinho cadavérico e nem a omnipotente madrinha valerá ao anti-herói.

Luzeiro do escondidinho

Esper 2 (Coatsink Software, Inglaterra)

PC (Windows) – 28 de março, 2016

Prometido no anterior episódio aquando do texto destinado a Shu, regressa ao Luzeiro o estúdio britânico Coatsink Software com a sequela de Esper.

Dirão e bem os entendidos na matéria que Esper 2 foi originalmente publicado no final do ano transato para Samsung Gear VR, todavia, a segunda vida da obra enquanto título de lançamento do Oculus Rift, só aí entrando no radar de um número substancial de jogadores, acaba por lhe valer a convocatória ao episódio.

Enquanto membro da agência ESPR, organização fundada com o intuito de controlar a crescente vaga de cidadãos munidos de poderes telecinéticos, teremos de impedir que uma mente retorcida coloque as mãos num misterioso, quão potencialmente daninho, artefacto.

Indo buscar influências a títulos clássicos de aventura, nomeadamente, na ramagem apontar e clicar, caracteriza-se Esper 2 pelos quebra-cabeças que exigem da envolvência proporcionada pela Realidade Virtual minúcia na forma como se atenta e interage com os cenários espalhados por várias localizações ao longo do globo.

Em jeito de curiosidade, não obstante a sequela fazer parte do catálogo do dispositivo, em desenvolvimento para Oculus Rift encontra-se igualmente Esper, título de lançamento do Samsung Gear VR.

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Hover Junckers (Stress Level 0, Estados Unidos da América)

PC (Windows) e PlayStation 4 – 5 de abril, 2016

O primeiro título do estúdio fundado por Brandon Laatsch, Alex Knoll e Jake Watson pontuou o alinhamento de lançamento do HTC Vive, estando igualmente planeado, em data ainda a especificar, sua chegada aos dispositivos de Realidade Virtual Oculus e PlayStation.

Criado de raiz para a tecnologia, pega Hover Junckers no conceito dos tradicionais first person shooter multijogador e, mesmo sem aportar relevantes fatores de diferenciação, excetuando a deslocação pelos cenários com recurso a veículos gravitacionais feitos de sucata, usa a novidade a ela associada para refrescar um segmento estafado.

Transcorrido num universo pós-apocalíptico – expresso em dez arenas de combate -, porá à disposição dos jogadores dezassete naves de dimensão e comportamento variável passíveis de reforço à custa de peças libertadas pelos chaços dos oponentes atingidos, elemento vital para o sucesso nas contendas, principalmente ao nível do correto emprego do sistema defensivo.

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Leap of Fate (Clever Plays, Canadá)

PC (Windows) – 30 de março, 2016

Descrito como um roguelite em universo cyberpunk, assume-se Leap of Fate como título de arranque do estúdio fundado pelo casal Angela Mejia e Mattieu Bégin, antigo colabor da Ubisoft.

Com quatro tecnomagos à escolha tendo a missão de enfrentar o mais ardiloso dos adversários, seus próprios traumas, introduzem-se no campo de provações conhecido como Crisol dos Destinos para, após desbaste massivo de oponentes, confrontar o que doravante lhes reserva.

Através do esquema de shooter com recurso a duplo analógico, contabilizam-se as suas mais destacadas valências como a capacidade de proporcionar uma experiência ajustada a várias tipologias de jogadores, ter no plantel de personagens à escolha quatro propostas distintas tanto a nível narrativo como jogável e, na mais identitária delas, incluir um sistema de progressão aleatório baseado em mais de cem habilidades mágicas.

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Momodora: Reverie Under the Moonlight (Bombservice, Brasil)

PC (Windows) – 4 de março, 2016

Perante a qualidade patenteada pela quarta entrega, mostrava perplexidade o redator de um conhecido órgão de comunicação ligado ao meio por nunca antes ter ouvido falar da franquia Momodora.

Mesmo que sub-mediatizada, segue a criação do brasileiro Guilherme Martins, mais conhecido por rdein, a velha máxima de subir de forma sustentada um degrau de cada vez desde o lançamento do título original em 2010 (podendo, juntamente com o segundo capítulo e outra das criações do autor, Bunny Swordmaster Story (2011), ser desfrutado sem custos adicionais através da plataforma itch.io).

Com o contributo de PKBT (programação), Hernan Zhou (programação, arte) e notoriousKnave (composição musical), ao legado não foge Momodora: Reverie Under the Moonlight, pese ser o mais refinado dos capítulos, oferecendo uma experiência de ação em plataformas com elementos resgatados ao subgénero metroidvania.

Entre as mais destacadas características conta-se a escala de dificuldade adaptada a padrões vários de destreza e experiência, sistema de combate versátil permitindo ataques a curta e longa distância, generosa quantidade de itens a ser aplicada em diversificadas estratégias e um mundo repleto de segredos e tesouros a recolher.

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Nelly Cootalot: The Fowl Fleet (Application Systems Heidelberg, Inglaterra)

PC (Windows, OS X, Linux) – 22 de março, 2016

Depois de Nelly Cootalot: Spoonbeaks Ahoy! (2010), disponibilizado gratuitamente ao publico, decidiu Alasdair Beckett-King reimaginar a aventura de apontar e clicar para uma versão comercial denominada Nelly Cootalot: The Fowl Fleet.

Com cerca de dois anos de atraso face ao plano inicial de lançamento proferido aquando da exitosa campanha pública de recolha de fundos no Kickstarter, não procura The Fowl Fleet reinventar a roda, antes pelo contrário, assumindo inequívoca vontade de oferecer a essência dos clássicos.

Raptando e hipnotizando um bando de aves para levar a cargo suas malfeitorias, esconde o Barão Widebeard vis intentos pela narrativa deslindados quando a mais fofinha pirata dos sete mares, Nelly Cootalot, entra em cena para defender frascos e comprimidos.

Expressar-se-á sua jornada por trinta e cinco localizações onde o típico humor britânico faz prova de valia em peripécias como extorquir graveto a aristocratas, pilotar uma antiquíssima aeronave, descobrir o último dos tesouros de um famoso pirata ou ganhar a imortalidade através de uma canção folk.

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Offworld Trading Company (Mohawk Games, Estados Unidos da América)

PC (Windows, OS X) – 28 de abril, 2016

Poderá parecer surpreendente que um dos mais destacados títulos de estratégia em tempo real paridos em 2016 provenha da estreia de um coletivo com apenas três elementos, Soren Johnson, Dorian Newcomb e Brad Wardell.

Porém, como em muitos casos no meio, tais simples factos iludem uma bem diferente realidade, a experiência acumulada do trio em lidar com o género supera à vontade meio século de vida, tendo sido, por exemplo, Johnson um dos responsáveis principais por Civilization IV (2005).

Especializado na vertente comercial, como o próprio título, desde logo, deixa antever, caberá ao jogador o papel de empresário na galopante expansão colonial do planeta Marte, onde, sem quota-parte de golpes baixos da concorrência não se fará a expansão capitalista do território.

Baseado no conceito “acessível mas profundo”, sustenta Offworld Trading Company o sucesso na forma como oferece imprevisibilidade, ou não estivéssemos a falar de uma proposta que aleatoriamente gera mapas de áreas económicas não reguladas, a um elevado ritmo de jogo, ideal para, pese elogiada campanha em solitário, a vertente multijogador para até oito participantes.

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SpeedRunners (DoubleDutch Games, Holanda)

PC (Windows, OS X, Linux) e Xbox One – 19 de abril, 2016

Parece quase anedota ao tempo que ouvimos falar de SpeedRunners e da generosa comunidade gerada em seu redor, mas, quase três anos após ser disponibilizada em acesso antecipado, a versão final da obra só no mês cessado chegou aos escaparates, para utilizar uma expressão de antanho.

Todavia, para dar de caras com os primórdios da chancela mais teríamos que recuar, concretamente, até ao ano de 2011, o da edição na Xbox 360 de SpeedRunner HD por parte do estúdio de Casper van Est, DoubleDutch Games, que na nova versão oferece os préstimos na programação e desenho de jogo, ficando a arte e promoção a cargo da tinyBuild numa parceria nada usual entre a produção de humildes meios.

Com o estatuto de um dos mais amados títulos multijogador, em rede e fora dela, dos últimos tempos, assenta SpeedRunners numa premissa simples, como é apanágio do género, levar o super-herói controlado a chegar em primeiro ao local do crime.

Para tal, disponibiliza o registo estreado no Luzeiro aquando do episódio trinta e sete uma estrutura de plataformas acrobáticas locomovida a vertigem, onde, fazendo uso dos poderes intrínsecos às várias personagens, vale tudo até tirar olhos.

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Stephen’s Sausage Roll (Increpare Games, Inglaterra)

PC (Windows, OS X, Linux) – 18 de abril, 2016

Não poucos chegarão ao final do ano e torcerão o nariz à safra videojogável que 2016 teve a oferecer. Assim foi, para não recuar muito, nos últimos cinco anos e diferente nos próximos não se afigura. Daqueles, pautar-se-á um número residual por uma salutar exigência, os restantes – provando o muito que no meio há a fazer na formação de jogadores -, pelo desconhecimento.

A nível de exemplo, se analisarmos no ano passado a oferta, na quantidade pela qualidade, de obras altitonantes concebendo o balanço, legítima será a mostra de insatisfação – visão que o autor destas linhas não perfilha -, todavia, analisar o período unicamente com base nesse espectro significa ver parte da realidade, passando ao lado de propostas de inegável mérito que, em circunstância última, condicionaram positivamente o apanhado.

Vem isto a propósito do novo labor de Stephen Lavelle, autor de English Country Tune (2011) e de uma obscena quantidade de exercícios videojogáveis gratuitamente disponíveis, sucessor no bimestre passado de Pony Island e Stardew Valley no restrito lote das surpresas caídas de paraquedas em 2016.

Em Stephen’s Sausage Roll tudo é desconcertante, a começar pela lata da única descrição autoral, mesmo em plataformas externas ao sítio oficial como o Steam, aludir somente a “Um simples jogo tridimensional de quebra-cabeças”, ou, ao permitir o vídeo oficial qualidade de visualização 4K – inédito em todos os registos audiovisuais passados pelo Luzeiro – quando o lustro gráfico não destoaria na geração 32 bits.

A eficácia conceptual e sentido de descoberta presente em desafios que envolvem uma tão caricata quão básica premissa, assar salsichas levando-as, segundo um número limitado de movimentos, a fogareiros com cuidado de não as esturricar ao repetir processos, demonstram que, por muitas voltas que se dê, regressaremos sempre ao conceito primordial das relevantes empreitadas provirem invariavelmente de despojados berços.

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The Count Lucanor (Baroque Decay, Espanha)

PC (Windows, OS X, Linux) – 3 de março, 2016

A estreia da dupla hispano-gaulesa Francisco Calvelo e Maxime Caignart traz ao meio uma proposta baseada em insólitas referências, atendendo ao ajuntamento das tipologias, ao beber de séries como The Legend of Zelda, Silent Hill, Dark Souls e ao título de culto de 2004, Yume Nikki.

A aventura de mistério e terror segue a estrutura narrativa de muitos contos fantásticos acompanhando a esotérica jornada de Hans, um menino vivendo no bosque com a mãe que, chegado o aniversário sem prendas nem doces devido às depauperadas finanças da família, resolve sair de casa.

Com a chegada da noite e o medo a instalar-se, vê Hans o caminho de retorno ao leito materno cruzar-se com o de um estranho ser que o instiga a acompanhá-lo ao Castelo Tenebre prometendo riquezas imensas caso com distinção passe o desafio proposto, adivinhar seu nome.

O périplo seguinte fica marcado pela deambulação no local em busca de pistas, a maioria vinda da conversação com as personagens que o habitam, numa estrutura de jogo onde ação furtiva e resolução de quebra-cabeças terão papel vital, para além de um sistema de escolha com impacto profundo no desenrolar narrativo através de várias estórias paralelas e cinco diferentes finais.

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The Last Door: Season 2 (The Game Kitchen, Espanha)

PC (Windows, OS X, Linux) – 29 de março, 2016

Se pelo país vizinho andámos com The Count Lucanor, dele não sairemos com a segunda temporada de The Last Door, obra que, a coincidência tem destas coisas, possui outras duas afinidades com a produção Baroque Decay, o estilo visual e o género onde se insere, aventura de terror, embora neste caso, de vertente apontar e clicar e mais compenetrada nos calafrios que transmite.

Depois de Dungeon Defiler (2012) e do original The Last Door (2013), resolveu o coletivo formado por Enrique Cabeza (desenho de jogo, arte), Mauricio Garcia (direção de projeto, programação), Daniel Marquez (programação), Antonio Manuel Martínez Buza (produção), Jose Antonio Perales (desenho de jogo, programação), Mateo Rilla (arte, escrita, desenho de som) e Carlos Viola (composição musical) dar pernas à franquia episódica em ambiente vitoriano com outra entrega reunida nos finais de março (quatro tomos e um interlúdio).

Inspirada na obra de escritores como Edgar Allan Poe e H.P. Lovecraft, acompanha a narrativa, desta feita, o psiquiatra do protagonista na temporada primeira, Dr. John Wakefield. Na senda de seu misteriosamente desaparecido paciente, muito não tardará Wakefield a enredar-se nas teias de uma grande conspiração, conseguirá dar com o paradeiro de Jeremiah Devitt ou também ele se perderá no enigma da Última Porta?

Luzeiro do escondidinho

Em poisio as plataformas ficarão após na semana vindoura aqui se trazer sua braçada de quebra-cabeças. Até lá, bons jogos.

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