Marco Gomes por - May 18, 2017

Luzeiro do Escondidinho – Episódio 100

Planeadas há meses as comemorações da centésima entrega do Luzeiro, teriam como ponto alto o desfile de uma banda filarmónica só com repertório do saudoso e inigualável Dino Meira, acedendo a pedido expresso do autor da rúbrica.

À boa maneira portuguesa, até chegar ao destino parou o autocarro dos músicos em cinco estações de serviço para um bem regado mata-bicho. Pois bem, não sem algum embaraço por parte da comissão de festas, mesmo que o incidente lhe seja alheio, é com desgosto que se comunica encontrar-se o agrupamento a atuar numa esquadra de polícia após desacatos ocorridos no último dos apeadeiros por intermédio de seus mais atascados membros.

Quando grande é a barraca mais vale a barraca fechar, o que acontecerá com o espaço no simbolismo conferido pela entrada nos três dígitos de episódios, agradecendo a todos os que o foram acompanhando com o derradeiro alumiar sobre vinte, ainda, esconsas propostas. Ao fim e ao cabo, replicando no centésimo a missão primordial que guiou todos os noventa e nove anteriores. Até um dia destes.

Luzeiro 100

All Walls Must Fall (inbetweengames, Alemanha) V/

PC (Windows, OS X, Linux) – setembro, 2017

Créditos: Isaac Ashdown, Rafal Fedro, Jan David Hassel, Almut Schwacke

Assumindo-se como parábola sobre o estado atual da humanidade tendo por veículo um futuro alternativo onde não expirou a chamada Guerra Fria, transporta-nos All Walls Must Fall para Berlim em 2089, metrópole dividida pelo muro nunca derreado em que numa só noite será galarim para o destino do mundo na contenda entre agentes secretos para impedir um ataque nuclear de escala planetária. A executar a premissa estará a velhinha estrutura tática isométrica, guarnecida por invulgares características para o género como definição de ações consoante a batida musical, geração procedural de níveis, habilidades de manipulação da linha temporal ou simulação do comportamento de multidões.

Luzeiro 100

Alto’s Odyssey (Team Alto, Canadá, Inglaterra) V/

Plataformas a anunciar – Verão, 2017

Créditos: Ryan Cash, Harry Nesbitt

Se existe alguém cujos dias tenham mais de vinte e quatro horas, essa pessoa será Ryan Cash, conhecido por Snowman, encontrando-se neste momento a trabalhar em quatro projetos de conhecimento público, Distant, Where Cards Fall (obras equacionadas para esta lista), Skate City e Alto’s Odyssey. A si juntando o parceiro de crime do original, o artista britânico Harry Nesbitt, não há que enganar, mesmo perante a apática receção a seu anúncio, é aquele último a sequela de um dos marcos de 2015, Alto’s Adventure, trocando montanhas geladas do centro europeu por escaldantes dunas nas Arábias. 

Luzeiro 100

Bomb Chicken (Nitrome, Inglaterra) V/

PC (Windows, OS X) – Previsão de lançamento não divulgada

Créditos: Mat Annal, Heather Stancliffe 

Quase que poderíamos ironizar com José Mário Branco perguntando ao Nitrome, “Qual é a tua, ó meu?”, relativamente ao posicionamento do estúdio fora do mercado móvel e seu portal de conteúdo em browser. Passado há mais de um ano pelo Luzeiro, continuam a aguardar-se novidades sobre o lançamento de Flightless nos computadores pessoais, agoirando-se percurso semelhante a Bomb Chicken ao aparecer discretamente, e sem qualquer outro auxílio promocional, no Steam Greenlight, quase como se não fosse projeto promissor onde uma galinha procurará desmascarar as vis intenções de uma cadeia de comida rápida, BFC, por intermédio de quebra-cabeças em plataformas baseados na habilidade daquela em chocar bombas como se não houvesse amanhã.

Luzeiro 100

Exo One (Exbleative, Austrália) V/

PC (Windows) – janeiro, 2018

Créditos: Jay Weston, Tim Mcburnie, Rhys Lindsay

Um dos subgéneros mais intolerados, e, até por isso, agremiado em nicho de fervorosos devotos, aventura de exploração em estado bruto, terá Exo One como uma mais esperançosas promessas no médio prazo seguindo a, pouco afortunada, primeira missão humana fora do sistema solar na perspetiva de um piloto aos comandos de vaivém com tecnologia alienígena. O movimento de locomoção aparentemente libertador, ao que alheio não será o surreal aparato técnico, consubstanciar-se-á no aproveitamento das características do terreno para manipular as leis da gravidade, ou dela a ausência, sempre em cadência de cortar o fôlego. 

Luzeiro 100

Genesis Noir (Feral Cat Den, Estados Unidos da América) V/

PC (Windows, OS X) – Data a confirmar, 2019

Créditos: Evan Anthony, Jeremy Abel, Mercy Lomelin, Skillbard

Até por nunca o ter deixado ficar mal, com alguns dos mais viçosos episódios publicados, foi a aventura de apontar e clicar género bastante acarinhado no Luzeiro, material existindo para conceber outro par deles sem baixar a fasquia. Da pena de mais não se convocarem a este fascículo derradeiro por óbvias razões de equitatividade, demonstra-se o potencial da jazida pelo quilate de dois representantes, o primeiro na lista, Genesis Noir, intrigando pela dimensão poética contida no desígnio de impedir o “Big Bang” como forma de salvar o amor, metafísica demanda a empreender na diluição de narrativa visual e arte generativa de conteúdo interativo.

Luzeiro 100

Harold Halibut (Slow Bros., Alemanha) V/

PC (Windows, OS X), PlayStation 4, Xbox One – Data a confirmar, 2018

Créditos: Onat Hekimoglu, Ole Tillmann, Fabian Preuschoff, Daniel Beckmann, Ilja Burzev, Holle Schlickmann

Ciclicamente ao meio, inscrito a maioria das vezes na parcela das aventuras de apontar e clicar, regressa o desiderato expressivo artesanal cruzando modelação em plasticina, material de base a ser complementado, com captação fílmica em stop-motion, seguindo-se na linha de montagem o quotidiano de Harold Halibut, atabalhoado pau para toda a obra numa nave espacial encalhada em ignoto planeta aquático, refém, como a restante tripulação, dos segredos lá encofrados e da esperança de um dia regressar aos céus.

Luzeiro 100

Into the Breach (Subset Games, Estados Unidos da América) V/

PC (Windows, OS X, Linux) – Previsão de lançamento não divulgada

Créditos: Matthew Davis, Justin Ma, Polina Hristova, Chris Avellone, Ben Prunty, Isla Schanuel, PowerUp Audio

Anunciar Into the Breach como subsequente labor dos criadores de FTL: Faster Than Light (2012) deveria bastar para eclodir ondas de comoção, nem por sombras tal sucedendo na massificação de estímulos que torna o mercado cada vez mais imprevisível. Contudo, parte da possível explicação residirá igualmente na acanhada mostra de Into the Breach ao público, tapando trunfos, ou deles carecendo dimensão empírica, que o distinguirão de restantes títulos de estratégia por turnos, algo que secções randomizadas e customização das mechas, veículos para repelir uma ameaça alienígena vinda do subsolo, não pesam suficientemente no prato dos argumentos. 

Luzeiro 100

Legion 1917: Rise of the Bolsheviks (Sornyak Arts, República Checa) V/

PC (Windows, OS X, Linux) – Previsão de lançamento não divulgada

Créditos: Tomislav Cecka, David Wagner, Mark Sidlovsky, Milan Mancel, Silvester Bucek, Jan Rmoutil, Vladimir Pech, Jaroslav Klimes, Martin Konir

Lamberam os criadores de Legion 1917 as feridas de uma campanha menos bem-sucedida no Kickstarter, o que deverá ter condenado a janela de lançamento aventada para o final de 2017, procurando avançar com respaldo das reações por ela desencadeada de forma a garantir que a proposta de estratégia por turnos no contexto histórico da guerra civil russa, pormenorizada através de narrativa de viagem num império em decadência, com visuais bidimensionais urdidos à unha e robusto naipe de decisões pouco pacíficas na ótica moral estará à altura de uma das aliciantes promessas num género sempre concorrido.

Luzeiro 100

Mineko’s Night Market (Meowza Katz, Canadá) V/

PC (Windows, OS X) – Quarto trimestre, 2018

Créditos: Brent Kobayashi, Brandi Kobayashi

Assumindo-se como exercício celebratório da cultura japonesa, de estranhar não será ter Mineko’s Night Market como referência para a estrutura de jogo uma série daquela proveniência, Animal Crossing, dando à protagonista, Mineko, uma curiosa menina recentemente mudada para uma ilha japonesa, a abarrotar de felídeos, no sopé do Monte Fugu, liberdade para a bel-prazer explorar o local, meter paleio com os restantes habitantes, catar recursos de escassa índole, confecionar bugigangas para levar ao mercado, ou lá adquirir bens colecionáveis, e participar de jeitosa oferta em minijogos.

Luzeiro 100

Minit (Vários, Holanda, Alemanha, Finlândia) V/

PC (Windows), Consolas a anunciar – Data a confirmar, 2017

Créditos: Kitty Calis, Jan Nijman, Dominik Johann, Jukio Kallio 

Se ter edição da Devolver Digital por si só quase que implica gato escondido com rabo de fora, o que dizer da pontual colaboração de autores com créditos firmados na indústria exclusivamente para dar corpo a uma aventura, a lembrar as da velha-guarda, onde uma suposta maldição reduz cada dia do protagonista a um mero minuto, aquele que os jogadores terão para gastar em cada sessão de jogo, destapando segredos, abafando perigos que ao caminho surgem e, em instância última, dar fim ao incómodo enguiço.

Luzeiro 100

Narita Boy (Studio Koba, Espanha) V/

PC (Windows, OS X, Linux) – dezembro, 2018

Créditos: Eduardo Fornieles, Robert Casas, Nito Diez, Chie Wakabayashi, Salvador Fornieles

Na incessante bátega saudosista para com os anos oitenta do século ido, tudo em Narita Boy transpira ao período, dos efeitos visuais esbatidos sobre coloração néon aos sintetizadores analógicos da trilha sonora, para, sobre estrutura de deslocamento lateral envolvendo ação, plataformas e elementos role playing game, cruzando referências como Another World (1991) ou Superbrothers: Sword & Sorcery (2011), contar a viagem épica por múltiplas dimensões de um herói munido da “espada techno”, único meio efetivo para rebater a ameaça que assombra o reino digital.

Luzeiro 100

PikuNiku (F/DB, Inglaterra, França) V/

PC (Windows, OS X) – Data a confirmar, 2017

Créditos: Remi Forcadell, Arnaud DE Bock

Questões legais à parte que possam implicar mudança futura de intitulação na obra, por no mercado existir já outra assim designada, é Pikuniku uma das mais intrigantes peças do conjunto arrebanhado, sintetizada pelos próprios criadores como “absurdo quebra-cabeças exploratório”, devendo os jogadores utilizar de forma imaginativa, e com denso grau de liberdade, o mundo ao redor para, qual “recreio terapêutico”, restaurar a comunidade dos Preocupados confrontando seus receios e inquietações com base num sistema orgânico relacional.

Luzeiro 100

Remnants of Naezith (Tolga Ay, Turquia) V/

PC (Windows, OS X, Linux) – Data a confirmar, 2017

Créditos: Tolga Ay, decldev, SiikiKala, Darya Kojemyakina,  Maks Kneht, Erek Rabang, PronomicalArtist

Quanto mais não seja pela sistematização de processos e padronização de mecânicas, são as plataformas de precisão fenómeno recente, o que não impede delas significativo e constante caudal no mercado. Entre as mais promissoras no curto/médio prazo consta a de Kayra, jovem imbuído da alma de um arcano dragão com poderes elétricos, pró-forma para uma experiência caracterizada pela liberdade de controlo onde os ditames de locomoção ao longo dos vinte níveis contidos em cada um dos quatro capítulos que a campanha alberga, complementada pelo imprescindível modo contrarrelógio, gizados são pelo critério do jogador e não da urgência inerente ao desenho das várias secções. 

Luzeiro 100

Sacred Fire (Poetic Studio, Eslováquia) V/

PC (Windows, OS X, Linux) – abril, 2018

Créditos: Andrej Vojtas, Rene Aigner, Doug Cockle, Sean Beeson, Martin Kolesar

Descrito como role playing game por turnos psicológico, assume Sacred Fire papel de uma das mais estimulantes adições futuras ao género no plano teórico, erguendo-se pela expressão narrativa, e esta pelo complexo sistema de escolhas e consequências que influenciará o destino da Caledónia antiga face à ameaça imperialista vinda de Roma, num percurso calcado por fatores como renome, chantagem ou lealdade, onde, entre o vasto rol de incomuns propriedades, se estrutura a personalidade e força interior da personagem controlada por intermédio de veículo monologar.  

Luzeiro 100

Semblance (Nyamakop, África do Sul) V/

PC (Windows, OS X) – outubro, 2017

Créditos: Cukia Kimani, Ben Myres, Daoyi Liu, Jean Roux, Daniel Caleb, Keith Kavayi

Procurando com o absurdo narrativo justificar a estrutura jogável, conta-se em Semblance a estória de um mundo mole gradualmente enrijecido por efeitos de uma infeção, dando seu guardião a vida para criar Squish, esperança derradeira para salvar a flacidez do local através da recolha dos bochechos sobejantes de sua essência, tudo embrulhadinho num pacote que aborda com engenho as plataformas de quebra-cabeças por intermédio da possibilidade de deformar o mundo em redor abrindo passagens ou criando saliências para almejar o gelatinoso protagonista seus fins.

Luzeiro 100

Solo (Team Gotham, Espanha) V/

PC (Windows) – Primeiro trimestre, 2018

Créditos: Juan de la Torre, Daniel García, Román Baos, Adrián Moreno, Hugo Ruiz

Vira o disco, toca o mes… Apostando numa experiência que privilegia a exploração e resolução de quebra-cabeças como em The Guest (2016), demonstra o cotejar entre obra lançada e a em desenvolvimento na Team Gotham possibilidades infindáveis que aos criadores o meio oferece, reciclando Solo a estrutura jogável daquele para uma dimensão quase descabida nos amplos horizontes de seu juvenil universo, os de um arquipélago inteiro dado a jornada de emoções onde confrontar-se-ão  jogadores com árduas escolhas, assim como múltiplas respostas para os enigmas, capazes de transformar não só o curso narrativo, mas, mesmo contornos estéticos da ensolarada localização.

Luzeiro 100

Strikers Edge (Fun Punch Games, Portugal) V/

PC (Windows), PlayStation 4 – maio, 2017

Créditos: Filipe Caseirito, Tiago Franco, Miguel Cintra

Por méritos inerentes à obra, mas, igualmente pelo simbolismo da representação caseirita – trocadilho foleiro com o sobrenome de um dos autores – no abalar do Luzeiro, convoca-se o mais mediático título nacional em desenvolvimento, se tudo correr pelo melhor, estado findo quando este artigo for para o ar, e simultaneamente um dos mais fervilhantes títulos multijogador arcada planeados para 2017 através da velha, mas sempre reinadia, fórmula do Jogo do Mata, subvertida trocando a comum bola por armas de arremesso e desportistas de calções por ferozes guerreiros. 

Luzeiro 100

Tale of Ronin (Dead Mage, Estados Unidos da América) V/

PC (Windows, OS X, Linux), PlayStation 4, Xbox One – Previsão de lançamento não divulgada

Créditos: Parsa Jamshidi, Kamyar Nasirifar, Vida Abdollahi, Amir Fassihi, Hamid Nikoofar, Nicolai Patricio, Yaser Zhian

A filtragem das vinte obras presentes na lista implica, desde logo, que várias outras, pese robusto potencial, dela fiquem excluídas. Nessa ótica será Tale of Ronin uma das mais imerecidas escolhas por falta de sólida informação que a justifique, mais ainda quando o título que promete redefinir o estatuto de sua equipa de desenvolvimento, Children of Morta, arremeda pela ausência no mercado a janela de lançamento apontada inicialmente para outubro de 2015. Destas coisas vale-se a intuição, e os calores provocados pelo imaginário do Japão feudal, num role playing game de turnos simultâneos em mundo dinâmico e independente ao soçobrar do samurai controlado.

Luzeiro 100

The Occupation (White Paper Games, Inglaterra) V/

Plataformas a anunciar – Data a confirmar, 2017

Créditos: Pete Bottomley, Martin Cosens, James Burton, Oliver Farrell, Scott Wells-Foster, Robert Beard, Jonny Pickton, Nathaniel Apostol 

Os criadores do discreto, mas bem recebido, Ether One (2014), têm em desenvolvimento uma intrigante aventura narrativa de contornos políticos que, pese transcorrer a 24 de outubro de 1987, concretamente, em quatro horas desse dia, com certeza tem por base apurada reflexão sobre o mundo atual quando um ataque terrorista em larga escala leva o governo britânico a condicionar direitos e liberdades da população sob fundamento securitário, cabendo ao jogador no papel de jornalista tomar decisões de, muitas das vezes, elevada conflitualidade ética consoante evidências resultantes de eventos ocorridos em tempo real. 

Luzeiro 100

Tonight We Riot (Pixel Pushers Union 512 , Estados Unidos da América) V/

PC (Windows, OS X) – Data a confirmar, 2017

Créditos: Ted Anderson, Stephen Meyer, Michael Taylor, Sean Dick, SIXIXIX

A encerrar lista pródiga em títulos onde, de forma sisuda ou aligeirada, sobressaem preâmbulos de contornos histórico-políticos, temos em Tonight We Riot deles o espécime mais descontraído, relatando a Revolução Socialista sem qualquer tipo de fervor investigativo ao transformar a luta do proletariado contra o grande capital numa desordeira, e bidimensional, versão de Pikmin, mesclando ação arcada e estratégia enquanto pelas ruas ajunta recrutas à causa operária, atacando com tudo que vem à mão, de cocktail-molotov a pedras da calçada.

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