Marco Gomes por - Jan 7, 2017

Luzeiro do Escondidinho – Episódio 81

Fecha-se o ciclo às recapitulações bimestrais do ano 2016 com os meses de novembro e dezembro. Pese neles andar absorto o pessoal com os preparativos para as festividades e sua celebração propriamente dita, houve, ainda assim, quantidade, variedade e razoável qualidade média entre os lançamentos de humildes meios.

Logo a abrir o período, um de novembro, surge o mito Owlboy e seu, pensava-se, infindo ciclo de desenvolvimento, prosseguindo com a ação visceral da sequela de Killing Floor (2009), a bem-recebida adaptação de SUPERHOT à realidade virtual, título de lançamento do dispositivo Oculus Touch, e, a ver-se já a porta dos fundos, Shantae: Half-Genie Hero, a mais recente iteração de uma série com barbas, marca de um dos decanos coletivos da produção dita independente, WayForward Technologies.

Os de galhardia pouco badalada andam aí ao montinho cantando Janeiras na madrugada. 

Luzeiro 81

Beholder (Warm Lamp Games, Rússia) 

PC (Windows, OS X, Linux) – 9 de novembro, 2016

A provar que a simulação de controlo populacional em estados totalitários está com a cotação em alta quando se pensam em ideias para videojogo, indo além de extravagante pressuposto afirmando-se como objeto consistente capaz de proporcionar reflexão divertindo, estão dois casos já aqui apresentados e que a reta final de 2016 ungiria de louvores, Beholder e Orwell.

Espreitando pelo ferrolho no episódio cinquenta e quatro, poder-se-á dizer que é Beholder o lado artesanal do método, assegurando o título editado pela Alawar Entertainment ser válida adição ao nicho de mercado pelo funcional trabalho de arte, implementação certeira de mecânicas de jogo e impacto notório das ações despoletadas na construção narrativa, argumentos contrabalançados na trôpega congruência textual – provavelmente devido a uma menos bem conseguida tradução para inglês da língua materna – e exígua duração da campanha.

Luzeiro 81

Candle (Teku Studios, Espanha) 

PC (Windows, OS X, Linux) – 11 de novembro, 2016

Aparecido nos primórdios da rubrica, episódio quarto, alumiaria Candle somente um ano e meio após a janela de lançamento inicialmente aventada, verão de 2015, sendo o pavio aceso pela Daedalic Entertainment na qualidade de editora.

A estreia do coletivo fundado por Jose Gutiérrez e Miguel Vallés traz para a aventura de apontar e clicar um registo de francos dotes plásticos dirimidos à unha, muito contribuindo para a consistência de um universo de exóticas carnações, mas, igualmente a sólida base jogável combinando regras clássicas da estirpe, onde não faltam quebra-cabeças tão puxadinhos quão justos, coadjuvando-se a resolução na empenhada prospeção dos cenários, com secções de plataformas de ação para desenjoar.  

Luzeiro 81

I Expect You To Die (Schell Games, Estados Unidos da América) 

Oculus Rift, PlayStation VR – 13 de dezembro, 2016

Encontra-se a tecnologia de realidade virtual na fase de boas intenções, não conseguindo concretizar, para já, as promessas de forma consistente e sistemática. Uma das últimas tentativas de botar a cabeça de fora no panorama surge pela mão da companhia fundada por Jesse Schell, reclamada como uma das mais espraiadas em território americano, espectro da grande edição à parte.

Colocando os jogadores em espaços constritos na tentativa de desbloquear situações atentatórias para com sua existência digital, como explosões, libertação de gás tóxico ou afogamento, destaca-se I Expect You To Die como imersivo e intuitivo quebra-cabeças de múltiplas vias de solução para cada imbróglio. A julgar pelos créditos finais da obra, seu grande pecado, travo a pouco deixado na boca pelas quatro missões disponíveis, será debelado por matéria adicional, desconhecendo-se presentemente se terão os autores levantado véu a conteúdo DLC, ou mesmo, a uma possível sequela.

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ISLANDS: Non-Places (Carl Burton, Estados Unidos da América) 

PC (Windows, OS X) e Plataformas Móveis (iOS) – 17 de novembro, 2016

Tal como os Homens, felizmente que também os jogos não se medem aos palmos, revelando-se a estreia de Carl Burton no meio como, simultaneamente, fugaz e impactante exercício, condições que assumem em ISLANDS: Non-Places indestrinçável relação.

Assumindo a pele de um desses objetos lúdicos digitais em que o propósito de reduzir índices de tensão acumulada nos utilizadores não suplanta o desejo de redimensionar a identidade autoral para novos e amplos campos de expressão artística, utiliza o ilustrador um dispositivo minimalista onde interações descomprometidas com retratos do mundano desembocam invariavelmente em trajetos surreais de incomum grau atmosférico.

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OneShot (Team Oneshot, Estados Unidos da América) 

PC (Windows) – 9 de dezembro, 2016

Criado por Mathew Velasquez (desenho de jogo, programação) e Casey Gu (arte, composição musical), com edição Degica Games, é OneShot exemplo, tal como ISLANDS: Non-Places, do insondável universo da produção videojogável de humildes meios, a surpresas deixando espaço mesmo após depurado escrutínio. 

Urdido em RPG Maker, o que para muitos já é esotérico, define-se despojadamente como uma aventura de quebra-cabeças em plano inclinado onde guiamos uma criança, Niko, por um misterioso mundo na esperança de restaurar o fulgor a seu “há muito padecido sol”, tapando a simplicidade dos argumentos a dimensão de experiência única baseada em duas centrais premissas, a metaconsciência da obra para com as ações do jogador, e, também disso decorrente, o transcendente apego devotado à personagem de ficção.

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Orwell (Osmotic Studios, Alemanha) 

PC (Windows, OS X, Linux) – 27 de outubro, 2016

A bem dizer, o título editado pela Surprise Attack deveria constar do penúltimo episódio de recapitulação bimestral a 2016, contudo, faz-se a exceção por surgir a torrente de análises à obra somente a partir de novembro, como a de Urriça no VideoGamer Portugal, quentinha ainda da saída do forno.  

Tirando nabos da púcara na entrega sessenta e nove, um mérito ninguém retirará a Orwell, o de colocar o dedo numa das feridas da dita sociedade ocidental, crescente desequilíbrio entre liberdade e segurança da população, não se furtando a questões éticas e políticas. Desintérias técnicas à parte, sustenta a obra de forma fiável a premissa do escrutínio da vida privada de potenciais ativistas contra a férrea ordem instalada através de crível argumento e personagens nele inseridas, não faltando múltiplas reviengas na trama e sentido impacto das ações tomadas.

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Shadow Tactics: Blades of the Shogun (Mimimi Productions, Alemanha) 

PC (Windows, OS X, Linux) – 6 de dezembro, 2016

Surgido no episódio cinquenta e cinco, consta Shadow Tactics: Blades of the Shogun do catálogo editorial Daedalic Entertainment, parecendo escolhê-los a dedo a companhia germânica ao, não só publicar duas das mais destacadas produções de humildes meios da reta final de ano, como, no caso analisado, apostando num estúdio compatriota com duvidosa folha de serviços, como atesta a insonsa aventura de plataformas The Last Tinker (2014).

Não passando a constatação de mero pormenor face aos elogios angariados pela mais recente empreitada, e que a coloca, mesmo que sorrateiramente, entre as mais robustas experiências táticas do ano, até por assumir um legado em vias de extinção, o da saudosa franquia Commandos e sua achega à ação furtiva, destaca-se Blades of the Shogun por conduzir os jogadores a uma esmerada recriação do Japão feudal no século XVII, gratificante desenho de níveis e personalidade do quinteto de personagens a dirigir.

Luzeiro 81

Yesterday Origins (Pendulo Studios, Espanha) 

PC (Windows, OS X), PlayStation 4 e Xbox One – 10 de novembro, 2016

Duas aventuras de apontar e clicar a merecer destaque na reta final de 2016, ambas de safra castelhana, porém, os passos iniciáticos dados pelo Teku Studios há muito foram calcados por um dos decanos coletivos do país vizinho fundado que foi em 1994 o Pendulo Studios, pais de, entre outras produções, a série Runaway.

O mais recente labor aparecido originalmente no Luzeiro ao episódio sessenta, Yesterday Origins, sequela de Yesterday (2012), conheceu edição em novembro pela mão da Microïds sobressaindo da concorrência no mercado pelo esmerado argumento, carismático leque de personagens, variedade de localizações, eficaz interface de controlo e substancial desafio proporcionado pelos quebra-cabeças, nos antípodas cifrando-se os incómodos problemas técnicos e desenho de enigmas incapaz de surpreender os mais empedernidos devotos do género.

Luzeiro 81

Agora é que é! Imperdível será o próximo domingo para os que gostando de estratégia e cartas colecionáveis preferem a experiência digital a meter as mãos na massa. Até lá, bons jogos.

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