Marco Gomes por - May 13, 2017

Luzeiro do Escondidinho – Episódio 99

Não há mal que sempre dure, nem bem que se não acabe. Depois de um bimestre inicial de 2017 a aquecer motores, prosseguiu março e abril, mesmo com desilusões do peso de Rain World (28 de março) e Yooka-Laylee (11 de abril), em abertura de comportas de galhardos e mediatizados registos compilados cronologicamente na seguinte lista: Snipperclips (3 de março), Fast RMX (3 de março), Thimbleweed Park (30 de março), Blackwood Crossing (5 de abril), Cosmic Star Heroine (11 de abril), The Sexy Brutale (12 de abril), Wonder Boy: The Dragon’s Trap (18 de abril), Flinthook (18 de abril), Everything (21 de abril), Outlast 2 (25 de abril), What Remains of Edith Finch (25 de abril) e Little Nightmares (28 de abril).

Em período impulsionado pelo lançamento da Nintendo Switch, donde, para além dos mencionados na lista acima, se extraíram títulos sólidos mas sem lugar no alinhamento do episódio, Blater Master Zero (3 de março), Graceful Explosion Machine (6 de abril), Kamiko (27 de abril), fica a curiosidade de nos menos bafejados pelos holofotes, sem disfarce, voltarmos a ter honrosa contribuição da realidade virtual e títulos de base gratuitos.

Luzeiro 99

Afghanistan ‘11 (Every Single Soldier, África do Sul) 

PC (Windows) – 23 de março, 2017

Com a valorosa contribuição do RetroEpic Software, formado por Niki Boshoff, Keith Boshoff, Theunis Lombard, Hannes Ferreira e Paul Lombard, volta à carga o criador de Vietnam ’65 (2015), Johan Nagel, com a sequela, pisando a estratégia e tática militar um degrau acima na escadaria da plausibilidade histórica.

Falar em Afghanistan ’11 é falar em quanto a obra aprendeu com o antecessor, desmesuradamente expandindo o leque de ações e consequências no contexto inerente às várias decisões, cruzando o rigor investigativo com um desenho de jogo requerendo prudência na análise e iniciativa, para, perante o imprevisto, desde logo pedir diligência num pacote que sobressai nos pormenores como os condicionalismos impostos aos veículos terrestres pela deformação natural e artificial, com recurso a explosivos, do terreno ou a faca de dois gumes espetada nas fações terroristas ao destruir suas fontes de financiamento, mas, igualmente o modo de subsistência da população local.

Luzeiro 99

Battle Brothers (Overhype Studios, Alemanha) 

PC (Windows) – 24 de março, 2017

Dando ao jogador o papel de líder de um bando de mercenários numa campanha em mundo aberto gerado aleatoriamente, tendo por base o imaginário medieval fantástico, soube o trio formado por Paul Taaks (arte), Christof Schmidt (programação) e Jan Taaks (logística), aos quais pontualmente se juntou Casey (escrita) e Breakdown Epiphanies, parelha de Patrick Delaney e Dennis Meyer responsável pela trilha sonora, alimentar os nunca saciados devotos da tática por turnos em role playing game.

Ao contrário de muitos títulos concorrentes, seu principal mérito reside em não dar passos maiores que as pernas, oferecendo apenas aquilo que pode cumprir, uma experiência sólida e recompensadora por intermédio da muita liberdade conferida, trocando de bom grado o falso sentido épico pela comezinha adição em manter nossa dream team de guerreiros motivada e com o equipamento reluzente, pelo menos, até se pintalgar de vermelho escarlate. 

Luzeiro 99

Cosmic Express (Cosmic Engineers, Inglaterra) 

PC (Windows, OS X, Linux), Plataformas Móveis (iOS, Android) – 16 de março, 2017

Depois do elogiado A Good Snowman Is Hard To Build (2015), voltam a fazer das suas os Engenheiros Cósmicos, Alan Hazelden (desenho de jogo), Benjamin Davis (programação) e Typhaine Uro (arte), coadjuvados por Nick Dymond (composição musical) e Maize Wallin (desenho de som), trocando invernias por estações de caminho-de-ferro no espaço sem abdicar do género que une os registos, quebra-cabeças.

Seguindo a fórmula de títulos como Mini Metro (2015), definição de percursos viáveis para o escorreito funcionamento do sistema de locomoção, oferece Cosmic Express um visualmente apelativo, onde se inclui a própria identidade estética, representante da estirpe, ostentando desafios tão estimulantes quão divertidos, embora, não extensíveis ao pacote completo por interferência de ocasionais picos de dificuldade.

Luzeiro 99

Faeria (Abrakam, Bélgica) 

PC (Windows, OS X, Linux) – 8 de março, 2017

Lá vão picando o ponto os títulos estratégicos de cartas e/ou tabuleiro nos episódios de recapitulação mensal, distinguindo-se no bimestre passado a criação do estúdio fundado em 2005 por Jean-Michel Vilain e Martin Pierlot que, no percurso de solidificação enquanto desporto digital com prémios mensais, vai aplanando caminho para chegar ao mercado móvel (iOS, Android) disponibilizando períodos de teste por tempo limitado.

Nascido do cruzamento de muitos títulos do género a si anteriores, sai-se Faeria com uma fórmula única de risco e recompensa que, pese afáveis boas-vindas a jogadores iniciados, desenvolve-se sem contemplações para com erros crassos de planeamento e execução, exigindo patamares de pensamento tático superiores a grande parte da concorrência em plano transversal ao robusto alfobre de opções e modos de jogo, expandidos regularmente através de conteúdo adicional pago, modelo de negócio sustentando a gratuitidade base da proposta.

Luzeiro 99

Orcs Must Die! Unchained (Robot Entertainment , Estados Unidos da América) 

PC (Windows) – 19 de abril, 2017

Com Unchained levou o coletivo fundado por Tony Goodman e outros antigos colaboradores do Ensemble Studios, pais da celebrada série Age of Empires, sua marca fetiche, Orcs Must Die!, a uma nova dimensão proporcionada pela variação do modelo de negócio tradicional dos dois primeiros capítulos para a gratuitidade de base, resultando numa clivagem valorativa, que não necessariamente de adesão, entre jogadores e crítica especializada.

Bem mais benemérita esta, gabou na mistura de tower defense e ação na terceira pessoa, prevista igualmente para PlayStation 4 no trimestre final do ano, o amplo divertimento proporcionado pela componente multijogador, desenhado para curtas sessões ou noitadas inteiras, a acessibilidade de contato imediato e transmutação em rijo patamar de profundidade para velhos conhecidos, opípara quantidade de conteúdo a descobrir e desbloquear e, importante em casos afins, o equilíbrio geral da proposta evitando o típico pagar para ganhar.

Luzeiro 99

Paradigm (Jacob Janerka, Austrália) 

PC (Windows, OS X) – 5 de abril, 2017

Inspirando-se em clássicos como Day of the Tentacle (1993) e as séries Space Quest e Monkey Island, não deixou Jacob Janerka, com mãozinha de Jonas Kjellberg no desenho de som e composição musical, ficar mal a representação da aventura de apontar e clicar no período abordado segundo exemplar fazendo do humor num fictício país de leste em universo pós-apocalíptico surreal a tónica.

Aliás, acentuação cómica à parte, onde se inclui o meritório trabalho de vocalização, recai o destaque de Paradigm no universo engendrado a lhe dar forma, com ênfase óbvio no memorável leque de personagens, do qual serve o protagonista como escarrapachado testemunho. A macular o celebrado pacote estão quebra-cabeças que além não irão de cumprir padrões médios de exigência e a escassa meia dúzia de horas que nos guia pelas bizarras vielas de Krusz.

Luzeiro 99

Statik (Tarsier Studios, Suécia) 

PlayStation VR – 24 de abril, 2017

Se dúvidas houvessem quanto à necessidade de atentar no percurso do estúdio encabeçado por Andreas Johnson e Magnus Lindsten, encarregar-se-ia de as desfazer a semana final de abril, nela coincidindo o lançamento das duas primeiras, bastante bem recebidas pela crítica, propriedades intelectuais do coletivo, Little Nightmares e, quatro dias antes, Statik.

Concebido de raiz a pensar na tecnologia de realidade virtual, da qual faz firme uso, sobressai aquele pela inventividade inerente ao que lhe está na essência, quebra-cabeças e método de os descodificar, operacionalizando com mestria o conceito esboçado por cada desafio, mas, igualmente pelos pormenores subtis que aportam ambiência ao conjunto, em alguns casos mesmo tensão, ajudando a desfiar uma premissa narrativa hermética de partida.

Luzeiro 99

Wilson’s Heart (Twisted Pixel Games, Estados Unidos da América) 

Oculus Rift – 25 de abril, 2017

O exclusivo Oculus Rift descrito como thriller psicológico na primeira pessoa com ambiência na década de quarenta do século passado, e visuais resgatados à coincidente época dourada do cinema a preto e branco, segue o padrão do estúdio criado por Michael Wilford, Frank Wilson e Josh Bear, verificado em títulos como Splosion Man (2009), Ms. Splosion Man (2011) ou The Gunstringer (2011), de, mesmo com o beneplácito da crítica especializada, pelo mercado fazer passagens discretas.

Até por recente ser a massificação da tecnologia, não raras vezes apregoou-se determinado título como arauto das maravilhas prometidas pela realidade virtual, assim sucedendo com Wilson’s Heart. Sendo questionável sua factualidade, não o é a forma como nela procura imergir os jogadores por intermédio de narrativa devidamente orquestrada, destacando-se a qualidade de vocalização das personagens, em sequências que, mais do que despoletar miúfa, promovem, muitas vezes com recurso à inventividade dos autores, desconforto e insegurança salutares à experiência que se cumpre proporcionar.

Luzeiro 99

Chegada na semana próxima a contagem da rubrica ao três dígitos, há-que comemorar à larga, não faltando foguetes de lágrimas e repicar de sinos. Até lá, bons jogos.

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