Pedro Martins por - Oct 25, 2018

Na véspera de Red Dead Redemption 2, regressar a Red Dead Redemption – numa Xbox One X

Quando Red Dead Redemption chegou ao mercado, chegou com estrondo. Estávamos em 2010 e a Rockstar Games provava que não precisava apenas de Grand Theft Auto para ser reconhecida no mercado – se é que precisava de o fazer. Agora, estamos a escassas horas da produtora voltar a assinar o que se espera que venha a ser um dos títulos mais badalados do ano.

Nesse ano comprei a versão Xbox 360 da epopeia poeirenta de John Marston, pelo que recentemente aproveitei para matar saudades do título colocando-o na minha Xbox One X e tirando partido do programa de retrocompatibilidade da Microsoft. E a verdade é que o western envelheceu bastante bem, não só provando a amplitude do seu mundo, como neste caso o quão boas são as melhorias executadas pela consola mais poderosa da casa de Redmond.

Não passa por um jogo lançado em 2018, claro que não, e há algumas texturas, particularmente associadas à modelagem de personagens, que sofrem com planos mais apertados. Contudo, a atmosfera está cá toda, tal como as memórias que têm do vasto mundo de jogo e a liberdade que oferece cavalgar pelos prados enquanto apagam novamente o destino das vossas intenções.

Ainda que as missões possam recorrer por diversas vezes a uma fórmula assente na evolução de moldes que são testados desde o arranque, a Rockstar foi inteligente em construir um mundo à sua volta, um recreio que os jogadores podem explorar. Isso foi um feito em 2010 e continua a sê-lo em 2018, porque mesmo sem os detalhes amiúde de, por exemplo, Grand Theft Auto V, a verdade é que o cômputo geral é alicerçado pela já mencionada incontornável atmosfera.

Quando terminei Red Dead Redemption pela primeira vez, senti o impulso para ver tudo, explorar todos os cantos e fazer tudo o que era possível. Voltar a este mundo tanto tempo depois permite também perceber que estes cenários funcionam praticamente com um acordeão, tanto em ritmo, como na forma como esticam e encolhem consoante a posição do jogador.

Ou seja, é evidente que a produtora, mesmo colocando esta imensidão digital à nossa frente, sabe bem onde tem o jogador. Enquanto exploramos o mundo, a abertura da paisagem permite absorver a vastidão e a desolação de um mundo que parece literalmente parado no tempo, fazendo-nos recuar desde aquela viagem de comboio inaugural – tão claramente uma montra do que estava para chegar. 

Contudo, quando estamos focados numa missão, esse “acordeão” encolhe e torna-se focado. As cenas fazem parte de um guião apertado, sim, mas fazem-nos sentir exatamente como aquilo que queríamos ser: um cowboy que se vai descobrindo com o passar do tempo. Estas variações de ritmo associadas a um arco narrativo que nos agarra praticamente desde a primeira hora – e enclausura algumas surpresas memoráveis – tornam Red Dead Redemption algo único.

Lembro-me deste jogo chegar a ser descrito como um “Grand Theft Auto com cavalos”, mas além de ter uma identidade distinta e de não precisar de ser comparado com o colosso que é GTA, a escala de ritmos é bastante diferente, tal como é o tom da teia narrativa. E importa não esquecer que estamos a falar de uma obra que conseguiu isto aproximadamente três anos antes de Grand Theft Auto V chegar ao mercado e se tornar no campeão de vendas.

É importantíssimo perceber como é que a Rockstar trabalha uma obra com dezenas de horas de conteúdo e uma área de jogo deste calibre sem fazer o jogador sentir-se aborrecido, ou melhor, sem fazer o jogador sentir-se tão aborrecido nos tempos mais mornos que o faça pousar o comando. Isto deve-se à jogabilidade trabalhar em uníssono com a história e, não menos importante, ao elenco de personagens ricas que secundam Marston.

Não sei como é que Red Dead Redemption amadureceu nas restantes plataformas, mas aqui, na Xbox One X, está precisamente como o tinha na memória, ou seja, um marco na minha vida enquanto jogador e, sobretudo, a prova que havia mais Rockstar além de GTA – sim, e além de jogos de ténis de mesa também. Não sei se Red Redemption 2 será melhor, porém, se amanhã os jogadores começarem uma aventura tão boa como esta a que tiveram direito há oito anos, então a luta pelo jogo do ano vai tornar-se bastante animada.

O ponto a reter é: estava-se muito bem por estas terras em 2010 e continua-se a estar em 2018. Voltar a um jogo tanto tempo depois e compreender que o conceito que tinha da sua qualidade não estava a ser insuflado pela passagem dos anos é refrescante, mas é também um atestado de competência à Rockstar. E derradeiramente só me fez, ainda mais, voltar a repetir o processo em Red Dead Redemption 2, ou seja: ir, explorar, levantar poeira e regressar passada uma semana para escrever a análise. Nem todas as séries conseguem isto; nem todos os jogos conseguem uma banda sonora que se possa ouvir de forma tão prazerosa com o jogo parado.

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