Pedro Martins por - Jan 21, 2019

Neste momento, The Grand Tour Game é acessível e descartável

Com o arranque da terceira temporada de The Grand Tour no Prime Video da Amazon, os fãs de Jeremy Clarkson, Richard Hammond e James May têm uma nova forma de acompanhar as aventuras e desventuras do programa que tenta semanalmente misturar alguns dos carros mais exóticos com humor que vai conquistando alguns e irritando outros. Além de já ter visto a estreia da nova temporada, tive também oportunidade de jogar The Grand Tour Game.

Logo no menu principal ficamos a saber que a obra tem conteúdo das três temporadas em existência, ainda que não seja bem como a produtora quer dar a entender. No menu são mencionadas as Season One, Season Two e Season Three, contudo, das duas primeiras apenas está disponível conteúdo dos respetivos primeiros episódios. Também na Season Three apenas está disponível o primeiro episódio, porém, mais serão publicados para acompanhar o decorrer da sua transmissão no serviço de streaming da Amazon.

O conceito é simples: são exibidos trechos dos episódios em que estão, com a componente videojogo a entrar na equação e a deixar os jogadores viver na primeira pessoa aquilo que o trio de apresentadores já tinha feito na série. Como derradeiro objetivo terão que ganhar uma medalha de ouro, havendo também recompensas de prata, bronze e, caso não façam os mínimos para chegarem ao pódio, uma “recompensa” que tem a forma de uma sanita.

The Grand Tour Game, com o conteúdo que tem disponível e já incluindo a estreia da terceira temporada, demora menos de noventa minutos a concluir. São inúmeras cenas por episódio, mas cada uma demora um ou dois minutos a concluir. O episódio da primeira temporada, The Holy Trinity, tem 15 cenas, número que baixa para 11 cenas em Past, Present or Future, o episódio da segunda temporada, subindo novamente para 16 cenas em Motown Funk, o nome do episódio de estreia da terceira temporada.

O arranque do jogo dá aos jogadores precisamente os minutos iniciais da temporada de estreia de The Grand Tour, ou seja, os fãs poderão conduzir até ao festival Burning Van. E se estão recordados, este episódio trouxe o programa até Portugal, mais concretamente até Portimão. Também no jogo podemos experimentar a “santa trindade” automobilista, ou seja, jogamos com o McLaren P1, com o Porsche 918 Spyder e ainda com o Ferrari LaFerrari.

Seja numa corrida pelas estradas algarvias ao volante do P1, seja a fazer drift com o Porsche de Hammond ou a fazer com o May sinta o “Fizz” com o LaFerrari, depressa torna-se evidente que a jogabilidade de The Grand Tour Game deixa muito a desejar. Estar aos comandos destes carros deveria ser prazeroso, devia permitir aos jogadores inserir os bólides nas curvas ao milímetro, deixar a traseira escorregar sob controlo. Em praticamente todos estes exemplos, não só há uma resistência nos controlos, como quase se sente uma teimosia, ou seja, em diversos momentos parece que os carros querem fazer aquilo que lhes apetece e não o que o jogador lhes diz para fazer.

Muitas das cenas são tipos de prova repetidos, mudando apenas o cenário – quando não fazemos exatamente a mesma coisa, mas com cada um dos apresentadores. Há drift em vários locais, há corridas em vários locais (Algarve, Eboladrome e a pista construída em Chicago na estreia da terceira temporada), há também algumas variantes estranhas, como evitar que Hammond grite enquanto conduz o Porsche, estourar o pneu do Lamborghini conduzido por Clarkson, ou fazer o maior ruído possível (que basicamente consiste em acelerar ao máximo e deixar o carro deslizar).

Outra das variantes das competições incluídas são corridas que incluem Gadgets (basicamente, Power-Ups) como mensagens de texto enviadas aos outros apresentadores durante a corrida, mais potência, nevoeiro cor de rosa e, uma das novidades disponibilizada com a estreia da terceira temporada, Musical Idiots. Não é nada de verdadeiramente emocionante e, graças à jogabilidade romba, nunca chega a servir para encantar o jogador. Curiosamente, na prática isto tem o efeito contrário ao que seria pretendido pela produtora: a frustração da jogabilidade aliada à frustração de ver o ecrã preenchido por um destes “ataques” é a cereja no topo do bolo.

Como podem facilmente compreender, The Grand Tour Game não é um bom videojogo, com o destaque a ser a forma como vai integrando os dois meios de entretenimento. Quando estamos a ver os vídeos retirados da série que servem para esconder os loadings, é possível passar a ação à frente ou recuar, processos que colocam os jogadores a pressionar nos botões Clarkson ou May, respetivamente – sim, é esta a descrição oficial, mas basicamente têm que pressionar os bumper buttons do vosso comando para controlar quanto tempo e que segmento é que querem ver.

Um dos pontos mais interessantes é a inclusão da parte em que Hammond teve o acidente na Suíça enquanto conduzia o Rimac elétrico. Não só é possível jogar esse segmento (com os três apresentadores), como as imagens do acidente voltam a estar em destaque, não sendo também excluídos os comentários afiados de Clarkson e de May. É uma sensação estranha lutar pelo melhor tempo enquanto evitamos ser penalizados por tocar nas barreiras, quando sabemos perfeitamente bem qual será o desfecho.

Graficamente, The Grand Tour Game é também pouco memorável. Os segmentos de televisão são o que são, mas a componente do videojogo faz tudo muito pelo mínimo, não se destacando praticamente em nenhum aspecto. Importa sublinhar que ao colocar as partes em videojogo perdem-se vários trechos onde a excelente cinematografia da série aparecia em destaque. A modelagem dos carros é competente, tal como a maioria dos cenários. Na sonoplastia, o cenário é exatamente o mesmo, a destacar-se a inserção dos comentários dos apresentadores nas ações dos jogadores.

O jogo conta ainda com uma componente que suporta até quatro jogadores em simultâneo localmente, sendo até possível participar em corridas rápidas ou aceder ao modo Grand Prix, que permite escolher e jogar várias corridas num episódio. Infelizmente, os problemas mencionados até aqui continuam obviamente presentes. Além disso, por algum motivo técnico, na minha televisão este modo não ocupa a totalidade do ecrã, o que não facilita a forma como se compreende o que está a acontecer nos traçados.

Para ser uma obra recomendável, The Grand Tour Game terá que mudar bastante ao longo das próximas atualizações. O conceito é minimamente interessante, mas está longe de conseguir sustentar a proposta como um todo. Este texto só não é uma análise porque a obra vai mudar com novo conteúdo, mas os três episódios já disponíveis vivem muito da reciclagem de ideias entre locais e competições. Se assim for durante o que está para chegar, não contará com a minha recomendação.

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