Depois de algumas semanas de ausência, o artigo onde os membros da equipa VideoGamer Portugal escrevem sobre o que têm andado a ver está de regresso com novas sugestões. O primeiro texto que podem ler é assinado por Pedro Martins, que se dedicou a experimentar o novo serviço da Apple e escreveu sobre os três primeiros episódios de Servant.

Logo de seguida é a vez do Marco Gomes escrever sobre a vida e a obra do grande José Mário Branco. Como podem facilmente perceber, é um texto marcado pelo momento e pelos elogios do Marco ao homem que “que nunca se escondeu na refrega das convicções, erguendo a voz por um país, por um mundo, que melhor saiba acolher os que cá andam e os que por cá andarão”.

E finalmente, o Filipe Urriça teve tempo para ver Venom, a obra protagonizada por Tom Hardy em que o vilão do mundo Spider-Man tem direito a quase todo o tempo de antena. Como seria de esperar, o filme não pinta Venom como o vilão completo, tentando mostrar as diferentes facetas da sua personalidade. Podem ler mais sobre as impressões do FIlipe no final deste artigo.

Pedro Martins, Servant (Apple TV+)

Tendo acompanhado alguns lançamentos no catálogo do Apple TV+, recentemente tive oportunidade de ver os três episódios disponíveis de Servant, a nova série que conta com M. Night Shyamalan nos créditos - aliás, é ele quem assina a realização do episódio de estreia. Depois de ter visto o arranque, sente-se uma mistura de inquietação com a curiosidade de se perceber onde é que a temporada vai levar os espectadores.
 
Resumidamente, Servant arranca com a chegada de uma nova ama, Leanne (Nell Tiger Free) a casa dos Turner - a mãe Dorothy (Lauren Ambrose) é uma repórter, e o pai, Sean (Toby Kebbell), é um chef que faz consultoria a partir de casa. Juntos têm um bebé que precisa do cuidado de uma ama. Todavia, não demora muito até que a tensão e o desconforto se façam sentir a série, sem que a série nunca guine para territórios de terror puro.

O bebé “real” morreu antes da série arrancar e no seu lugar está um boneco. A mãe nunca conseguiu superar a perda do seu menino, entrando num estado de negação, vendo e tratando o boneco como se fosse o seu amado filho. A questão é que a ama também o trata como se fosse uma criança real, mesmo quando a mãe não está presente, o que começa a levantar algumas questões - particularmente quando artefactos de madeira na forma de uma cruz - pensem em The Blair Witch Project e têm uma ideia próxima - começam a ser vistos em cima do berço da criança e nos aposentos de Leanne.

O pai, ainda que viva com o desgosto, sabe que está perante um boneco, tal como o irmão de Dorothy, Julian Pearce (Rupert Grint). Contar o que acontece com o boneco poderá ser considerado spoiler, tal como as descobertas que são feitas sobre a ama - especialmente quando Julian se desloca à sua cidade natal. Contudo, pode ser escrito que o mistério sobre as suas origens e sobre o “poder” que carrega consigo é inegável.

A ama conquista imediatamente o coração e a confiança de Dorothy, tendo o efeito oposto em Sean, que destrói os crucifixos de madeira e que começa a sofrer de formas estranhas - como perder o paladar e retirar uma farpa da garganta. É nestes moldes que Servant está ao fim de três episódios. O arranque é interessante, mas o que quer verdadeiramente contar é uma incógnita. Quem é quem e o que vai fazer poderá ter força para contar uma história desconfortável, caso o seu criador, Tony Basgallop, consiga manter nas revelações a cadência que está usar para criar o mistério.

Marco Gomes, Mudar de Vida. José Mário Branco, vida e obra (DVD)

Perante a infeliz coincidência - embora, por motivos logísticos vendo a publicação protelada uma semana - mal imaginava este texto ter-se começado dois dias antes de partir o criador que ao documentário visado serviu de âmago. Justifica os seguintes este parágrafo, pensados como estando ainda entre nós, até porque, esperemos ser esse o caso, por vezes traz a morte uma vida nunca tida, e José Mário Branco injustamente pouco existia enquanto referência para as gerações recentes.

A ironia é um dos pressupostos da condição humana. Ele que nunca se escondeu na refrega das convicções, erguendo a voz por um país, por um mundo, que melhor saiba acolher os que cá andam e os que por cá andarão. Ele que em larga parte do percurso de vida escarneceu do “faduncho choradinho”, considerando-o um veículo doutrinário do regime fascista.

Ele que no fenecer, sabemos agora, aos setenta e sete anos, deu recato ao guerrilheiro, conciliando-se inteiramente com a canção tradicional urbana ao assinar a produção de álbuns de Kátia Guerreiro e Camané. Competência destacada, a de produtor, cujo corolário cedo surgiu em dois discos incontornáveis de José Afonso, Cantigas do Maio (1971), alinhavando o desenho estético de todas mas uma faixa no particular, “Grândola, Vila Morena”, e Venham mais Cinco (1973).

No trabalho da dupla Nelson Guerreiro, Pedro Fidalgo, Mudar de Vida. José Mário Branco, Vida e Obra (2014), olha-se para ela, para a de ativista, ator e criador teatral, centrando-se na de escritor, compositor e intérprete de canções, cantautor na síntese da espécie. Provando-o o tema que dá nome à obra, “Mudar de Vidar” -em partilha de título com um dos mais celebrados registos de Carlos Paredes-, desenlaçando-se pela metragem da fita a par de ocorrências de uma vivência cheia.

Sendo esse o menos previsível artifício concetual de uma abordagem clássica ao género, apresenta-se com a humildade de quem não tem pretensões a romper barreiras apenas ser fidedigna à imagem do retratado e alcance de sua influência, o que, diga-se em boa verdade, nem uma nem outra parte significativa dos congéneres alcança.

Filipe Urriça, Venom (TVCine)

Pessoalmente, gosto de saber porquê que os críticos de cinema dizem que alguns filmes são tão maus. Em 2018, Venom foi um deles, mesmo quando protagonizado por um bom ator como Tom Hardy. Não deixo de ter pena por não haver muitos filmes com anti-heróis da Marvel ou DC Comics.

O que é certo é que as expetativas não eram muitas antes do visionamento do filme. Por isso, não fiquei desiludido com o que vi. Confirmei apenas o que já desconfiava: Venom é um mau filme. É uma confusão de filme, pejado por uma enorme incoerência.

Eddie Brock e o seu alter-ego Venom são uma e só pessoa, mesmo quando sabemos que juntos resultaram da fusão de alien e humano. Ambas as personagens parecem ter sido escritas por uma criança, e por isso não ficamos com um argumento maduro, mas com uma narrativa que tenta sempre ser cómica.

Nem ter um humor que funciona consegue. Pode ser que a sequela melhore aquilo que não funcionou e apresente algo que leve o seu tempo a desenvolver.

Continuem a conversa nos fóruns VideoGamer!