Depois de uma semana de interregno, a rubrica que coloca em evidência o que temos andado a ver regressa no primeiro dia de novembro. Num fim de semana que convida a horas recatadas, são três considerações que voltam a ser marcadas pela diversidade e pelo que os membros da equipa extraíram das mesmas.

Com um olhar sobre o papel e o impacto que as redes sociais têm na sociedade, O Dilema das Redes Sociais foi a proposta escolhida por Pedro Martins. As impressões do diretor de conteúdos são as primeiras que podem ler, contudo, o documentário disponível na Netflix é um olhar que se revela particularmente interessante na forma como demonstra o que os algoritmos e a Inteligência Artificial atingem nos bastidores e os consequentes efeitos que têm e que prometem continuar a ter.

De seguida é a vez de Marco Gomes dedicar alguns parágrafos dedicados a O Homem do Braço de Ouro. Baseada no livro de Nelson Algren, a película assinada por Otto Preminger conta com Frank Sinatra e coloca em evidência um tema que chocou muitos em 1955: a toxicodepência. Segundo o Marco, Preminger realiza cenas com um “chocante realismo”.

Finalmente, o Filipe Urriça escreve não sobre um filme, documentário ou série, mas sobre The Voice Portugal. O redator aproveita para partilhar a sua rotina de domingo à noite e como o programa onde se tentam encontrar novos talentos está inserido na mesma. É um programa que significa um momento familiar e “um momento pelo qual espero todos os domingos e que não alteraria por nada”.

Pedro Martins, O Dilema das Redes Sociais (Netflix)

Assinado por Jeff Orlowski, O Dilema das Redes Sociais é um documentário que, apesar do título direto, esconde alguns trunfos na manga. A atenção do espectador é inequivocamente conquistada pelos depoimentos de figuras que tiveram - e têm - algo a dizer sobre os tentáculos das redes sociais. É fascinante perceber como o nefasto vício de muitos foi meticulosamente calculado em laboratório.

Em evidência estão os algoritmos que ajudam as empresas de Silicon Valley - Google, Twitter, Instagram, Facebook, Pinterest, etc - a competir e a deter a atenção de quem abre as aplicações, incluindo o ciclo que começa com as notificações enviadas para os smartphones. Todos os passos foram estudados, manipulando não apenas o que vemos, mas como o vemos.

São avisos claros para o que está a acontecer e para onde vertiginosamente nos dirigimos se continuarmos, enquanto sociedade ligada, por este caminho. Os depoimentos, alguns verdadeiramente fervorosos, são o que fazem este documentário ser contundente na mensagem a passar. Note-se ainda que há um claro apontar de dedos às empresas, incluindo por aqueles que lá trabalharam e que em alguns casos foram responsáveis pelo início deste cenário desolador.

Compreendo a sua inclusão, mas as cenas dramáticas levadas a cena por atores são o que menos impacto tem. Sim, estão no documentário para representar visualmente como os algoritmos funcionam e para ajudar a compreender melhor o poder destrutivo e afastador que as redes sociais têm no seio das famílias. Porém, o que os especialistas têm a dizer é mais profundo e muito mais direto ao osso de quem vê.

O Dilema das Redes Sociais está disponível desde setembro em exclusivo no catálogo da Netflix. Se ainda não o viram, dêem-lhe uma oportunidade. É evidente que a dependência dos smartphones em geral e das redes sociais em particular tem consequências devastadoras, mas o documentário faz um bom trabalho a contextualizar essa devastação, evitando tanto quanto possível cair no alarmismo fácil.

Marco Gomes, O Homem do Braço de Ouro (DVD)

Existem lançamentos de cinema caseiro cujo habitat natural são as ilhas promocionais dos hipermercados, onde o valor simbolicamente já está diluído numa mole indistinta de plástico.

O díptico que a Círculo Digital - nunca antes dela ouvindo falar - junta num único disco DVD o atesta em indecoro editorial ao converter diretamente fitas martirizadas pelo tempo, com tradução duvidosa para língua portuguesa e ausência pontual de som e legendagem.

Atribuir a pomposa chancela “Obras Mestras do Cinema Clássico” também dá direito a pega na simples justificação de o não ser (obra-mestra) nenhuma delas, e nem enfiamos pé nos terrenos pantanosos do entendimento de “Cinema Clássico”. O laçarote no embrulho é o desfasamento qualitativo na comparação dos registos.

As Neves do Kilimanjaro (1952), The Snows of Kilimanjaro, é o exemplo acabado de ter a evolução tecnológica servido a Hollywood para continuamente exceder os limites do artificialismo. A adaptação infiel - à cabeça o desfecho - do conto homónimo de Ernest Hemingway converte drama em comédia na falta de jeiteira do realizador, Henry King, e na obsessão da meca por gravação em estúdio, fundindo-a ao disparate com material captado na Europa, mas, principalmente em África.

Mais fino pia O Homem do Braço de Ouro (1955), The Man with the Golden Arm, não deixando créditos por mãos alheias Otto Preminger, produtor, realizador e ator nascido austríaco e, por alterações geopolíticas, falecido ucraniano.

Também ela adaptação, do livro homónimo de Nelson Algren originalmente publicado em 1949, com polémica se fez a projeção da obra à época ao abordar uma temática proscrita das telas, a toxicodependência, sem se furtar a quadros de chocante realismo.

Ao arrojo acresce a banda-sonora jazzística de Elmer Bernstein e grafismo de genéricos (e conteúdo promocional) do lendário Saul Bass. A extensão do renome ao elenco de atores revela-se, porém, o calcanhar de Aquiles do filme.

Pese um dos mais exigentes papéis da carreira, cumprido com brio dentro de suas possibilidades, não cola a imagem de adicto a estupefacientes, e situações degradantes daí advindas, a um dos ícones maiores da cultura americana, Frank Sinatra. O mesmo se aplicando à escultural Kim Novak nessa Molly de coração d’oiro disposta a sacrificar-se pelos desfavorecidos da vida.

Filipe Urriça, The Voice Portugal (RTP)

Ultimamente não tenho visto séries e filmes que valem a pena mencionar neste espaço. Por isso, decidi trazer cá o que já considero ser, quase, um ritual de fim de semana. Não vejo sempre programas de grande valor cultural, às vezes gosto de ver entretenimento televisivo, neste caso é o The Voice Portugal.

O meu domingo à noite começa, depois do telejornal da SIC, com Isto É Gozar Com Quem Trabalha - que vejo com a minha mulher e a minha filha. Pessoalmente, a par de Bruno Nogueira, acho que Ricardo Araújo Pereira é um dos melhores humoristas portugueses. Portanto, evito falhar um programa dele, só se tiver de lavar a louça ou arrumar a mesa, porque o que não quero perder mesmo é The Voice Portugal, que passa na RTP.

Numa última nota ao programa da SIC, acho incrível como é que a minha filha de vinte meses se ri à custa do Ricardo Araújo Pereira. Depois, ou no meu colo ou no da mãe, a minha filha adormece a ver The Voice. Se tudo correr bem adormece à terceira música, porque a energia dela é quase inesgotável.

The Voice é um programa de caça talentos que avalia uma única característica nas provas cegas, a voz. Apesar de ser mais justo do que um X Factor, Ídolos ou Got Talent o programa é feito nos mesmos moldes. O que a edição do The Voice Portugal procura é dar voz às sob stories (termo usado em histórias de emoções fortes para deixar os seus espectadores num pranto).

Caio sempre nesse truque editorial que dá destaque a histórias tristes e acabo por ver sempre esta parte inicial do programa. A segunda parte acaba por colocar quem foi selecionado a competir com outros concorrentes de uma das quatro equipas. Sinceramente, desde que Anselmo Ralph e Michael Carreira saíram do programa este ficou muito melhor. Acho que Diogo Piçarra e António Zambujo têm um gosto musical muito mais apurado.

Enfim, isto para vos dizer como é que o meu fim de semana acaba e, por conseguinte, como é que a minha vida em família passou a ser agora que tenho uma filha cada vez mais consciente do mundo que a rodeia. Ver The Voice não é como ver um Twin Peaks ou um Breaking Bad, mas é um momento pelo qual espero todos os domingos e que não alteraria por nada.

Continuem a conversa nos fóruns VideoGamer!