VideoGamer Portugal por - Apr 10, 2022

O que andamos a ver, 10 de abril, 2022

Este domingo, a equipa VideoGamer Portugal regressa com um trio de recomendações para um fim de semana que já faz sentir a chegada da primavera. Como é habitual, o Pedro Martins assina a primeira participação do artigo, desta vez versando sobre os nove episódios de Inventing Anna.

Afirma o diretor de conteúdos do site que apesar de o seu miolo ter um coração saudável, o facto de haver factos e ficção misturados sem uma linha clara, faz com que a série tenha uma mensagem diluída. Algo que não é beneficiado pela longevidade de alguns dos episódios.

O Marco Gomes viu Verão Danado e afirma que “o assomo de espanto com a naturalidade das sequências de abertura nunca chega a botar corpo, antes pelo contrário”. E a terminar o artigo temos as palavras de Filipe Urriça sobre Cake no Disney+. “É bom que haja séries que contem uma história como esta e que usem esta linguagem audiovisual para comunicar com quem vê,” afirma.

Pedro Martins, Inventing Anna (Netflix)

Inventing Anna tem um aviso no início de cada episódio que mina aquilo que tem a dizer. “Esta história inteira é completamente verdade. Exceto todas as partes que são completamente inventadas”. Compreendo o motivo de estar presente, mas retirou muita da minha confiança no que é documental e no que é puramente entretenimento.

É verdade que estamos perante uma série que conta a vida de Anna Sorokin – também conhecida como Anna Delvey – e é também verdade que a jovem chegou a Nova Iorque e que tentou escalar rapidamente a escada social, recorrendo várias vezes a um ajuste da sua realidade, certamente ajustando o dinheiro que tinha num alegado fundo fiduciário.

A série criada por Shonda Rhimes para a Netflix é inspirada num artigo que a jornalista Jessica Pressler escreveu para a revista New York. Aliás, Pressler inspirou a personagem Vivian Kent (Anna Chlumsky) e a série dedica uma boa parte da sua existência a ilustrar os bastidores de como o artigo foi escrito.

Delvey ganha vida numa prestação assinalável de Julia Garner, que já tinha estado bastante bem em Ozark. Mas a série tem também alguns problemas de ritmo – tão depressa oferece um episódio interessante em Marrocos como se arrasta em cenas demasiado longas.

São apenas nove episódios, mas há vários que passam uma hora de duração. Fazendo as contas, chegamos facilmente à conclusão que, mesmo que o artigo de Pressler tenha sido incluído na sua totalidade, são muitos os minutos adicionais. É pena, porque o miolo da série tem um coração saudável.

Para quem a vai ver ou já o fez, não deixem de ler este artigo no The New York Times, onde a jornalista que acompanhou o julgamento para a publicação descreve o que é verdade e o que é ficção. Certamente ajudou-me a mim.

Marco Gomes, Verão Danado (DVD)

Passagem de testemunho. Até por serem sessenta os novos cinquenta, e trinta e oito anos de carreira ninguém lhos tira, com certeza não levará a mal o epíteto. O veterano Pedro (Costa) cede lugar na rúbrica a um homónimo emergente, provando a constância na aparição de talento em Portugal na realização para cinema.

Libertado recentemente à exibição pública, By Flávio, ainda em circuito de festivais, concretamente no de Berlim onde fora nomeado para o Urso de Ouro em curta-metragem, tem por companhia no formato Estranhamento (2013) e Filomena (2019). Motiva estas linhas o único registo estendido de Pedro Cabeleira até ao momento, Verão Danado (2017).

Deslizam os créditos finais sobre uma batida de dança que a seu tempo emaranhar-se-á com uma partitura clássica até só esta se escutar. Reassegurando a primordialidade da função sonora no desenho do guião, cumpre acidentalmente também de metáfora para o processo de avaliação.

Verão Danado não é fotografia de uma geração, a do autor, quando muito imagem photoshopada para realçar o lema Carpe Diem. Porém, a depreciação -agora já não- subliminar do comentário revela-se incapaz de negar engenho e arte a inúmeros retalhos da película, e unicidade frugal a outros tantos como o serão passado por Chico e alguns camaradas a jogar uma versão de Pro Evolution Soccer com comentários em japonês na PlayStation 2.

O assomo de espanto com a naturalidade das sequências de abertura nunca chega a botar corpo, antes pelo contrário. Utilizar molde em muitas que se lhes seguirão, por exemplo, conferiu progressiva vacuidade aos diálogos. A vontade imensa de mostrar dom no primeiro registo de grande fôlego é não raras vezes benção e maldição. A ser predestinado, sabê-lo-á agora empiricamente Cabeleira.

Filipe Urriça, Cake (Disney+)

Esta semana decidi ver Cake no serviço de streaming da gigante de Burbank, antes de carregar em “ver” não sabia no que me ia meter. Descrever Cake não é fácil, mas imaginem um Black Mirror onde os escritores têm as rédeas soltas para fazerem tudo o que quiserem. Por muito que tenha ficado incrédulo com o que vi, Cake é eficaz porque passados vários dias ainda me lembro muito bem do que testemunhei.

O primeiro episódio de Cake é uma amálgama de pequenos excertos narrativos (alguns até duram menos de trinta segundos), que tanto são filmados com atores (num deles está a protagonista de Russian Doll, Natasha Lyonne), assim como há outros que são curtas animações com estilos bastante vincados. É como se num único episódio quisessem fazer passar uma mensagem de formas diferentes, é como se usassem vários idiomas para traduzir expressões idiomáticas.

É bom que haja séries que contem uma história como esta e que usem esta linguagem audiovisual para comunicar com quem vê. Cake é uma ode à criatividade, todavia, também ficam expostas ideias que não deviam ter saído da sessão de brainstorming da génese de Cake. Todavia algo tão criativo tem os seus problemas, nomeadamente falta-lhe foco. Vê-se claramente que mão editorial para cortar o que é desnecessário e acrescentar o que faz falta a esta proposta.

Cake está longe de ser mau, fico sempre boquiaberto com o que vejo a cada episódio, mesmo que mantenha a mesma lógica e se veja continuidade nas vários micro-narrativas, episódio a episódio. Por isso é simples, se estão mesmo com vontade de ver algo diferente do habitual, não há melhor recomendação do que Cake.

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