Num domingo que promete continuar a marcar as horas pelo frio, a equipa do VideoGamer Portugal apresenta um novo trio de propostas com entretenimento que não pode ser jogado para o vosso ecrã. Hoje espreitamos os catálogos da Netflix e da Apple TV+, havendo ainda tempo para versar sobre um DVD.

Começando pelo que a Netflix tem para oferecer, o Pedro Martins acedeu ao seu catálogo para assistir ao que Pieces of a Woman tem para mostrar. Chegado ao streaming há apenas alguns dias, o filme de Kornél Mundruczó versa sobre a dor da perda e os efeitos que são instaurados numa mãe e na família que a circunda.

Recorrendo à sua fiel coleção de DVD, o Marco Gomes escolheu este domingo Ma Ma. O filme é assinado por Julio Medem e conta no seu elenco com Penélope Cruz no papel de Magda, uma doente oncológica em estado terminal. Contudo e segundo o Marco, a película revela falências, incluindo as limitações do realizador espanhol.

A encerrar este texto dominical está a colaboração de Filipe Urriça, que teve oportunidade de assistir a Becoming You no Apple TV+. Série documental composta por seis episódios, é uma proposta para mostrar aos espectadores como as capacidades motoras e intelectuais são adquiridas e evoluídas com o passar do tempo.

Pedro Martins, Pieces of a Woman (Netflix Portugal)

Pieces of a Woman é um retrato sobre a perda e como os estilhaços vão encontrando forma de ferir com o passar dos meses. Realizado por Kornél Mundruczó e escrito por Kata Wéber, o filme não poupa os espectadores, o que leva a ocasionais excessos não condizentes com a maioria das duas horas.

Martha (Vanessa Kirby) está grávida e decide ter a bebé em casa. Pieces of a Woman começa praticamente com uma cena de mais de vinte minutos em plano-sequência para ilustrar os momentos que antecedem o parto e o parto propriamente dito. Na casa está o seu companheiro, Sean (Shia LaBeouf) e a parteira, Eva (Molly Parker). É um arranque que se revela angustiante mesmo antes do desfecho trágico.

A perda da filha faz o casal despistar-se, perder-se; mas as ramificações atingem a família e o seu desmoronar. Há também o processo judicial instaurado pelo casal - e patrocinado pela família de Martha, algo sobretudo virado para insuflar o final. Pieces of a Woman ferra a jugular dentro de portas, na ilustração íntima de como o luto é feito e de como nem sempre as ajudas são ajudas quando os protagonistas estão determinados a sofrerem solitariamente.

É impossível escrever sobre Pieces of a Woman sem destacar de forma inequívoca as performances do elenco, com o máximo a ser atingido por Vanessa Kirby. O argumento é bom e a realização é segura, mas os atores elevam a película a um novo patamar. Ellen Burstyn, por exemplo, interpreta Elizabeth, a mãe de Martha. Há uma cena entre as duas que suspende a respiração. Por muito que se fique com a cena do parto na memória, está longe de ser a única.

Quando os créditos rolam no ecrã, Mundruczó consegue injetar algum prestígio à marca Netflix no que ao cinema diz respeito. A gigante do streaming continua a precisar de mais filmes imperdíveis. Mesmo com alguns excessos que não são justificados, Pieces of a Woman vale a pena o tempo que lhe dedicarem. Não é um filme ligeiro e não pede desculpa por colocar a perda e personagens falidas à frente dos nossos olhos.

Marco Gomes, Ma Ma (DVD)

A exaltação da vida em fita segue dois caminhos perpendiculares, a mediação entre o que a obra entrega e o espectador dela consegue extrair e a projeção apriorística de todas suas intenções.

Ma Ma (2015) do espanhol Julio Medem opta pelo segundo, o mais acessível, e também por isso menos estimulante, para nos apresentar Magda, doente oncológica em estado terminal que usa da vitalidade restante como força motriz na procura da felicidade possível.

Num filme construído para sua atriz principal, Penélope Cruz, por aí se vê as limitações do realizador, cumprindo aquela com o talento e esmero que a incumbência suscita, falhando Medem em o realçar. A escolha e direção de atores, diga-se, é entre as muitas lacunas de Ma Ma a das mais evidentes, atestado sobremaneira no desempenho dos menores.

Parecendo sarcasmo, o mais abonatório dado de sua qualificação é-lhe em parte marginal, a dignidade no tratamento do corpo, arredando a carga erotizante amiúde conferida a sua cabeça de cartaz.

Filipe Urriça, Becoming You (Apple TV+)

O Apple TV+, serviço de streaming da gigante norte-americana, tem um catálogo muito peculiar, contudo não o explorei muito, fui direto para um documentário que me foi recomendado, Becoming You. Tal como Babies, da Netflix, este documentário de seis episódios mostra-nos como adquirimos e evoluímos as nossas capacidades motoras e intelectuais e visto que já sou pai há quase dois anos encontrei um grande interesse em assistir a este tipo de série documental.

A premissa é bastante curiosa: a equipa de produção acompanhou, supostamente, cem crianças de todo o mundo do dia zero até aos dois mil dias da suas vida. É um número estranho, porque se dividirmos dois mil por trezentos e sessenta e cinco, para sabermos que idade terão as crianças após este tempo todo, dá cerca de cinco anos e meio de vida. Seja como for, não me parece que seja um número ao acaso, quem é pediatra deverá saber se esta abordagem está ou não adequada para os temas apresentados.

Becoming You é narrado por Olivia Colman, que ganhou o Óscar de Melhor Atriz em 2018 com o seu papel em A Favorita, tem uma voz serena e calma, perfeita para este tipo de documentários. Porém, a escrita não é a melhor, há demasiadas expressões idiomáticas que já estou farto de ouvir nas situações apresentadas . Todavia, não posso deixar de concordar com o vocabulário e comunicação escolhidos, sem usar muitos termos técnicos ou científicos.

Vi dois episódios de Becoming You: “Who Am I?” e “Moving”. Enquanto o primeiro episódio explora a afirmação da identidade enquanto pessoa que pertence a este mundo, o segundo estabelece a luta e a consequente conquista da mobilidade por parte da criança. O que é interessante não é ver como é que a criança evolui, mas o largo espectro cultural que a série da Apple TV+ tem em torno destes temas.

Ver como é que uma criança cresce no Ocidente tem o seu valor, mas a maior contribuição da série para os temas que aborda é tecer uma comparação indireta com crianças que crescem em Nova Iorque e em Londres com outras que crescem ao longo da costa das ilhas de Bornéu ou nas montanhas cobertas de neve da Malásia. Há experiências que fazem parte do crescimento destas crianças asiáticas pelas quais a minha filha nunca passará. Enfim, vejam que vale a pena, sobretudo se são pais e os vossos filhos estão na faixa etária que esta série de seis episódios aborda.

Continuem a conversa nos fóruns VideoGamer!