Raw é um grande filme, pronto, já o disse. A minha recomendação esta semana é fácil, mas apenas para os leitores que não se impressionam facilmente com o que passa no ecrã. A obra da realizadora francesa Julia Ducournau triunfa nas várias mensagens que envia, seja o sexo, o feminino, o amor, a fúria. É algo a ver, sem dúvida.

O Filipe Urriça saiu de casa para ir ao cinema e a obra que escolheu foi Bad Investigate, a nova película de Luis Ismael, que saltou do anonimato quando criou o fenómeno que acabou por ser Balas & Bolinhos. O Marco teve oportunidade de ver Ao Sol de Satanás, filme inspirado no livro de Georges Bernanos que acabou distinguido com a Palma de Ouro em 1987.

Imagens Ver 11 fevereiro 2018

Pedro Martins, Raw (TVCine)

Depois de ter acompanhado o burburinho aquando da sua estreia, vi finalmente Raw, filme realizado por Julia Ducournau que chegou recentemente aos canais TVCine. E ainda bem que o fiz, pois não fiquei nada desiludido, ainda que a expectativa fosse muito, muito elevada. Apesar de não ser para todos, é um excelente filme.

A história é simples: Justine (boa interpretação de Garance Marillier) é caloira de veterinária. É também vegetariana, nunca tendo comido carne na sua vida. Como parte da praxe, Justine é pressionada a comer um rim de um coelho. E a sua vida nunca mais foi a mesma. A forma como a protagonista descobre o sexo, a carne e se integra na faculdade alimentam o filme e dão-lhe carisma, subvertendo estes temas com mestria.

Não se escusando a ser violento - na ação, mas sobretudo no aspeto visual -, Raw tem uma mensagem a passar praticamente desde o primeiro minuto. A relação e o amor entre irmãs está no topo, mas há também a clara intenção de usar esta violência para gritar a afirmação do sexo feminino, do corpo sem medo, e da independência.

Raw é assim uma obra que recomendo apenas com uma reserva. Se são facilmente impressionáveis, não é para vocês. Há corpos muito mal tratados, seja humanos ou animais. O filme revitaliza o género - e chega até a gozar com os clichés - mas não é de fácil digestão. Não escrevi o que acontece a Justine depois de comer o rim, pois é uma surpresa que gostava de não saber antes de começar a ver o filme.

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Marco Gomes, Ao Sol de Satanás (DVD)

O confronto da película com o referencial literário é sempre atemorizador para aquela, bem-sucedendo, em número residual, mais pelo engenho com que aborda a génese, autonomizando-se, do que pela fidelidade à imaginação do leitor.

A Palma de Ouro de 1987, Ao Sol de Satanás, Sous le soleil de Satan, baseada no romance homónimo de Georges Bernanos originalmente publicado em 1926, expõe com crueza as chagas da empreita, denunciando linhas pouco amestradas para com possível adaptação cinematográfica.

Como o padre de província Donissan, fez Maurice Pialat, realizador falecido em 2003 cuja obra espera ainda a justeza do tempo, um grande milagre, converter em película de arrebatado mérito o atabalhoamento dialogal de inúmeras sequências - acentuado no recurso às legendas -, a teatralidade cénica não integral e, especialmente, a constrição da amplitude narrativa, como se tivesse o material base sido decapado em excesso.

Num fenómeno que usualmente opera pelo inverso, assemelham-se os pecados de Ao Sol de Satanás a recursos estilísticos devidamente ponderados, ao qual alheio não será a credível ambiência e sólido valor plástico do conjunto. De substancial aporte é o desempenho da dupla Gérard Depardieu, Sandrine Bonnaire, até pelas esparsas aparições, uma das mais desarmantes entidades da representação gaulesa para cinema, corporizando em Mouchette toda a sua juventude, provocação e tormento.

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Filipe Urriça, Bad Investigate (Cinema)

Vi "Bad Investigate" no cinema, um filme que não esperava ver por ter sido realizado por Luís Ismael, que é conhecido pelo seu trabalho na trilogia "Balas & Bolinhos". Detestei todos os esses filmes, daí estar um pouco apreensivo antes de entrar na sala de cinema.

Felizmente o filme é agradável, dá para rir bastante, mesmo que seja com piadas que contenham muita linguagem imprópria. Porém, ri mais do que devia, pois estava uns lugares mais atrás de alguém que se ria por tudo e por nada. São momentos e situações provocadas pelas personagens que juntamente com a linguagem mais popular do que formal que provocam tanta vontade de rir.

Alex e Cid tentam ganhar a vida como vigilantes para apanhar ladrões e facilitar o trabalho de um sub-comissário da polícia corrupto. É nesta parte onde está centrada a narrativa, mas é nos detalhes da vida dos dois vigilantes que está o maior interesse do filme. Porquê que capturam criminosos, os seus objetivos de vida e a sua vida amorosa são os melhores momentos do filme, sobretudo, pela forma como expressam estes pontos. Nunca me ri tanto numa sala de cinema.