Depois de ter ficado muito pouco impressionado com a adaptação a filme de Baywatch, o Filipe Urriça deu esta semana uma oportunidade a um documentário produzido pela HBO, Mãe Querida, Mãe Morta. E que excelente documentário é, segundo escreve neste artigo.

Eu tive oportunidade de ver a primeira temporada de Ugly Delicious na Netflix. Uma série documental do gigante do streaming sobre comida. Podia ser mais um, mas não é. David Chang consegue mergulhar fundo em algumas das comidas mais populares do mundo, indo além de serem boas ou más. É comida, sim, mas não só.

Finalmente, o Marco Gomes viu um filme de Miguel Gomes, o autor de As Mil e Uma Noites, o enorme filme que é composto por três partea. O Marco, contudo, escreve esta semana sobre Tabu, outro filme do realizador português que conquistou uma legião de fãs e a crítica especializada.

Ver 11 Marco 2018

Filipe Urriça, Mãe Querida, Mãe Morta (TVCine)

Depois de ter visto "Mãe Querida, Mãe Morta", sei que mais vale ver documentários em vez de filmes como Baywatch quando não sei o que escolher para esta rubrica de fim de semana. E se forem excelentes como este da HBO, tenho de ver quais são os próximos da programação TVCine.

Este documentário abre com uma revelação chocante: uma jovem de vinte anos pode vir a ser condenada à morte por matricídio. Sim é mais um daqueles documentários em que é analisado um caso policial. Porém, este crime envolve muito mais que as circunstâncias do homicídio. 

Gypsy Blanchard é uma jovem que ficou conhecida pela sua condição de saúde agravada, pois recebeu grandes quantidades de ajuda de várias instituições. Depois de ter sido acusada de homicídio de primeiro grau, por ter morto a própria mãe, vemos que há claramente algo que não bate certo. Foi vítima do Síndrome de Munchausen, ou seja, acreditava estar doente quando estava saudável. 

Pela natureza das pessoas envolvidas no caso foi-se ao passado, nomeadamente ao de Dee Dee Blanchard, mãe de Gypsy. Este documentário expõe vários anos de acumulações de mentiras, manipulações e da triste infância que Gypsy teve de sofrer. Nem  todos podem ter o excelente encerramento de "The Jinx" - um outro excelente documentário policial com selo HBO - porém, é praticamente impossível não ficar estupefacto com o que aconteceu nesta história. Todas as mentiras que são refutadas constroem as duas personagens principais deste caso: mãe e filha. É difícil imaginar que uma relação possa ter este desfecho trágico. 

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Marco Gomes, Tabu (DVD)

A globalização também é isto, achar similitudes no trabalho artístico de seres provindos de culturas tão diversas como, entre si, distantes. Exaltando-se a obra do português Miguel Gomes e do tailandês Apichatpong Weerasethakul (citando os representantes mais destacados) pela diferença com que à mais primordial função do cinema, contar estórias e histórias, se entrega o poder da liberdade e imaginação sem compromisso de cânones.  

O vencedor do Prémio Alfred Bauer e Prémio da Crítica na sexagésima segunda edição do Festival Internacional de Cinema de Berlim homenageia em 2012 o filme homónimo de 1931 realizado pela dupla F.W. Murnau e Robert Flaherty, não sendo nele maior a evocação de paragens exóticas (trocando Bora Bora por Moçambique) e sustentáculo narrativo do amor proibido que o desejo de invocar no tempo corrente a memória do cinema clássico a preto e branco no período mudo.

Superficialmente é Tabu o registo de Miguel Gomes que mais se afasta da marca autoral, e, possivelmente, seu mais vincado traço identitário, a eternidade da infância. Como as crianças, provocando no cumprimento contrário do estipulado, enfadando-se rapidamente com o rotineiro, revelando escrúpulos nulos na atitude zombeteira.

Dividido em duas partes, à semelhança do modelo antigo, “Paraíso Perdido” e “Paraíso”, denuncia-se a formalidade na quebra de expectativas, cabendo na metade primeira o grosso dos elementos cómicos, na outra, os dramáticos, em intrujice estrutural tendo por prelúdio um pequeno conto assombrado.

Esse mestre-de-cerimónias introduz a extravagância de ramificações num mesmo argumento, incitando a nele ver-se para além do poder de sugestão, emparelhando quadros bizarros como o protesto organizado contra as Nações Unidas, Shame ON U, ligações imprevistas à linha central narrativa, relação amorosa entre Aurora e Gian-Luca, das quais o comunicado das forças revolucionárias moçambicanas assumindo assassinato alheio se mostra a mais surpreendente, ou, característica que ganha aqui peso estilístico, os incontáveis pormenores descritivos, deliciosamente, supérfluos.

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Pedro Martins, Ugly Delicious (Netflix)

Não é a primeira série que vejo com David Chang em destaque, lembrando-me por exemplo de A Mind of a Chef. Contudo, Ugly Delicious, também na Netflix, assume um papel importante na cultura além da culinária, devido à inserção das raízes da comida na sociedade.

São apenas oito episódios na primeira temporada que estreou recentemente, com os temas a irem da pizza aos recheios, passando por arroz frito, pela comida caseira e pelo churrasco. São vários métodos, claro, mas também diversas formas de como esse tipo de comida se inseriu e moldou as pessoas, as suas raças e os seus estratos sociais.

Com convidados que vão além dos chefs consagrados, é possível perceber enquanto se assiste a uma discussão que vai além do que é melhor, do que sabe melhor. No episódio sobre frango frito, por exemplo, é mencionada e explicada o estigma social que esse particular prato tem na classe negra.

Chang ajuda, obviamente. O chef do Momofuku tem o coração perto da boca e não se ensaia em elogiar e em destruir pratos, chegando mesmo a emocionar-se de forma sentida em solo nipónico. Fica a vontade de experimentar muito do que passa na televisão, mas fica sobretudo a certeza de se ter percebido um pouco melhor a comida inserida no mundo à sua volta e não apenas no garfo.

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