por - Sep 10, 2016

PlayStation Classic: A gigante encolheu e não acordou

A nostalgia continua a fazer as delícias das empresas de videojogos. Novas e atualizadas versões de consolas antigas continuam a chegar ao mercado. Depois de a Nintendo ter colhido frutos com esta estratégia de revivalismo, no final de 2018 foi a vez da Sony tentar a sua sorte com a PlayStation Classic, uma versão em miniatura da sua primeira consola caseira. São duas dezenas de jogos pré-carregados num hardware que é uma paixão antiga, mas o seu cômputo geral não cumpre totalmente a missão que tinha de rebobinar a linha da existência dos jogadores.

Numa altura em que a PlayStation 4 se afirma mais e mais como a vencedora da atual geração de consolas, julgo que ninguém retira importância à mítica caixa cinzenta – agora 45% mais pequena -, ao papel que desempenhou na democratização dos videojogos em três dimensões. Quando falamos de videojogos estamos a falar da PlayStation e quando falamos da PlayStation estamos a compreender parcialmente como é que chegamos ao presente. A questão principal com esta versão do hardware é que, além da seleção dos títulos não ser a mais consensual, há diversas lacunas no processo de emulação e a constatação que algumas das obras não envelheceram bem.

Dentro da caixa, além de dois comandos DualShock, há também um cabo HDMI para fazerem a ligação à televisão e um cabo de alimentação, com o carregador que liga à fonte a ficar a cargo de quem faz compra. O plural dos comandos permite desde logo sessões multijogador local nos títulos que o comportam, mas uma vez que a escolha recaiu no primeiro modelo do acessório, de fora ficam os analógicos e os motores de vibração. Na prática, como o DualShock 4 tem uma forma idêntica, as primeiras horas são de habituação à ausência dos botões graças à memória muscular marcada com as centenas e centenas de horas investidas nos jogos PlayStation 4.

Infelizmente para os fãs, a dissonância entre hardware e software não tarde a fazer-se notar. Quando é retirada da caixa, a PlayStation Classic, graças às suas dimensões reduzidas, exala carisma e despoleta memórias que pensava já não ter. Este rectângulo de plástico cinzento acaba por ser a humanização da tecnologia, o lado emocional dos videojogos e de um passatempo que na altura estávamos longe de adivinhar ser capaz de chegar tão longe. Os problemas começam quando se explora o que está dentro da consola, não demorando muito até se sentir o outro lado da tecnologia, mais frio e distante.

O efeito deste afastamento sente-se quando se repara, mais do que as obras incluídas, naquelas que foram excluídas, o que mina a motivação para jogar e jogar novamente. Entre os vinte videojogos eleitos estão nomes como Cool Boarders 2, Destruction Derby, Grand Theft Auto, Metal Gear Solid, a versão Director’s Cut de Resident Evil, Ridge Racer Type 4, Tekken 3, Oddworld: Abe's Oddysee, Syphon Filter, e até títulos com uma longevidade mais prolongada, como Final Fantasy VII, Revelations: Persona e Wild Arms. Houve também vontade para incluir Rayman, Tom Clancy’s Rainbow 6 (difícil de jogar sem os botões anlógicos) e Twisted Metal, nomes que muitos já ouviram, mas que se calhar nunca tiveram oportunidade de explorar até à génese.

Alguns dos nomes, como Revelations: Persona, podem parecer escolhas peculiares, mas que são opções pálidas se tivermos em consideração que Battle Arena Toshinden, Intelligent Qube, Jumping Flash, Mr Driller e Super Puzzle Fighter II Turbo também marcam presença. Obras que são tangenciais a alguns dos maiores colossos que foram publicados na PlayStation. Provavelmente por questões de direitos e licenças, a consola não conta com alguns dos videojogos que lhe deram nome, como por exemplo Gran Turismo e Silent Hill, mas também Crash Bandicoot, PaRappa the Rapper, Castlevania: Symphony of the Night, entre muitos, muitos outros. Aliás, obras como Legacy of Kain: Soul Reaver, Ape Escape e Tomb Raider podiam ajudar tanto na ilustração mais contundente do catálogo original como na diversificação dos géneros incluídos, algo que não aconteceu.

Seria sempre uma tarefa impossível delinear uma lista que fosse do agrado de todos os fãs saudosistas, mas esta amostra aquém também não é apresentada da melhor forma. Com a PlayStation Classic ligada a uma televisão moderna, nota-se que a passagem do tempo não foi generosa com algumas das obras. Além das barras pretas que circundam a janela onde a ação decorre e que não podem ser disfarçadas com molduras digitais – como por exemplo na Nintendo Classic Mini – que cobririam o espaço deixado em branco, a representação da tridimensionalidade das obras também não lhes faz grandes favores.

Uma boa parte dos elogios feitos às pequenas consolas da Nintendo estava relacionada com a magia dos títulos incluídos. Aqui essa magia perde-se numa boa parte do catálogo disponibilizado, uma vez que o aspeto gráfico e a performance dos jogos acabam inevitavelmente por subtrair à diversão. Quase metade dos jogos – nove dos vinte disponibilizados – tem uma emulação baseada na versão PAL, pelo que a resolução é superior à versão NTSC, mas o grafismo é apresentado a 50Hz e não a 60Hz. Isto faz com que haja uma representação de fotogramas dissonante entre o espectro do catálogo, algo que é agravado pelo facto da saída da PlayStation Classic estar preparada para lidar com os 60Hz.

Há contudo alguns momentos em que estamos inteiros a reviver estas experiências, especialmente nos títulos 2D ou naqueles menos dependentes da fluidez e/ou da rapidez, mas títulos como Cool Boarders 2 e Ridge Racer Type 4 ilustram o conteúdo que conquistou legiões de fãs, mas danificado pelo passar do tempo entre os lançamentos originais e as versões incluídas na PlayStation Classic. De notar que é preciso algum cuidado e até afastamento para evitar que estas novas sensações não façam danos que possam denegrir a efabulação e o encantamento que trazíamos das versões originais dos títulos.

Falando de software complementar, a PlayStation Classic permite que sejam criados Cartões de Memória virtuais que emulam os acessórios reais que podiam e deviam ser comprados para a PlayStation e deixam gravar o progresso feito e até ver os ícones como se fosse o acessório real. Há também um ponto de gravação que suspende o momento em que ficam, mas é uma plataforma que não conta, por exemplo, com parâmetros para ajustar as definições gráficas como a escolha do tamanho do ecrã ou a colocação de linhas artificiais para imitar os painéis CRT.

Resumidamente, a PlayStation Classic é isto: uma janela para quem quiser compreender um pouco melhor um dispositivo que foi importante na história dos videojogos, mas que não é a janela que poderia ter sido se a Sony tivesse colocado mais músculo na sua concepção. Sente-se ocasionalmente o encanto e é inegável que o aspeto do hardware, tal como alguns sons dos menus e dos ecrãs de carregamento, continua a ser adoravelmente carismático e evocativo.

Contudo, os jogos incluídos compõem uma lista pouco consensual e com diversos problemas de performance. O preço inicial também não ajudou: quando chegou ao mercado no início de dezembro, a PlayStation Classic custava 99,99€, valor que entretanto já foi reduzido em algumas superfícies comerciais, ficando por esclarecer se o corte foi para adocicar as compras de Natal ou se será permanente. A PlayStation Classic é um meio termo e certamente não é servida justiça ao legado e à importância que a consola original tem para a própria Sony e para milhões de jogadores.

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