Uma Páscoa feliz para todos os leitores que seguem o que vamos publicando neste espaço semana com algumas recomendações baseadas no que vamos vendo nos nossos televisores. Há, novamente, um trio de obras de entretenimento chamadas a este espaço, como podem ler ao longo do artigo.

O Pedro Martins teve uma boa notícia quando escreveu as novidades Netflix Portugal para abril. Finalmente teria oportunidade para ver The Prestige, uma das obras assinadas por Christopher Nolan a que ainda não tinha assistido. Assim fez e, como podem ler, ficou fã de um truque de magia que demora duas horas a ser revelado.

Deixando momentaneamente os DVD que continua a colecionar, o Marco Gomes resolveu aceder ao YouTube para ver O Espektador Espantado. Confesso que não conhecia o documentário assinado por Edgar Pêra, contudo, o Marco tratou de ilustrar a visão que o realizador tem sobre o estado do cinema atualmente.

Finalmente, o Filipe Urriça dedicou parte do seu tempo a ver Boneca Russa, uma das séries que marcou o catálogo Netflix no início de 2019. Foi conquistada uma legião de fãs e a crítica. O Pedro Martins já tinha escrito a criação de Natasha Lyonne, Amy Poehler e Leslye Headland aqui, mas volta a ser colocada em evidência a qualidade da mesma.

Pedro Martins, The Prestige (Netflix)

The Prestige era um dos poucos filmes de Christopher Nolan que ainda não tinha visto. Disponível na Netflix desde o início do mês, tive finalmente oportunidade de sanar essa lacuna e de ser surpreendido pela positiva. Obra de época inspirada no livro de Christopher Priest, o filme arranca com uma morte, demorando as duas horas seguintes a mudar a percepção que temos do que vimos.

No cerne do arco narrativo estão dois mágicos. Robert Angier (Hugh Jackman) e Alfred Borden (Christian Bale) alimentam uma rivalidade que, consequentemente, faz a trama avançar. Superando-se com os truques que vão criando e apresentando, os avanços são também motivo de inveja e de ódio entre os dois, pelo que é sem surpresa quando essa rivalidade começa a ter implicações fora do âmbito das suas carreiras.

Os truques são cada vez mais elaborados, requerendo mais e mais investimento de ambos. Em determinado momento, Angier chega mesmo a deixar para trás Londres e a encontrar-se com Tesla, personagem interpretada por David Bowie. É também um filme que se move em diferentes linhas temporais, fazendo o espectador perceber o que levou à morte inicial e também as consequências que a mesma tem para um dos mágicos.

O grande truque de The Prestige é o ângulo com que essa morte é encarada, fazendo-nos perceber quase quando os créditos estão a rolar que afinal estávamos também a fazer parte de um truque de magia. Nolan acabaria por realizar alguns dos meus preferidos, mas vale a pena ver como lidou com a sua carreira numa altura em que já tinha assinado Memento e Batman Begins.

Uma nota final apenas para o alcance desta rivalidade. A maneira como há trocas e mais trocas na forma como a assistente Olivia (Scarlett Johansson) é fiel a cada um dos lados da “barricada” mostra que na mente dos rivais há pouco fora de limites. E se ainda houverem dúvidas, basta ver a forma como Angier não para, nem mesmo quando a filha de Borden faz parte dos danos colaterais. Vale a pena ver The Prestige. E se já o tiverem visto antes da sua chegada à Netflix, sabem que vale a pena ver uma segunda vez depois daquele final.

Marco Gomes, O Espektador Espantado (YouTube)

Aproveitando a cábula no facebook do À Pala de Walsh, um dos mais relevantes endereços portugueses na rede sobre cinema, fiz-me ao caminho da oferta nacional que o meio disponibilizou para alentar a malta aferrolhada no domicilio, encalhando no primeiro apeadeiro, a obra de Edgar Pêra.    

Nesta logo se constata não estar a lista atualizada -estranho seria o contrário ao ter sido publicada em meados de Março-com a primeira entrada, O Barão (2011), indisponível para visualização. Em seu canal YouTube tem o autor um leque estanque de filmes ao dispor do público e outros que insere por curtos períodos de tempo.

Para além da opção escolhida para encabeçar este texto, tive oportunidade de ver o quarto volume dos Arquivos Kino-Pop dedicado a Manuel João Vieira & Irmãos Catita (2019), com registos do início dos anos noventa do século passado, O Homem Pykante - Diálogos Kom Pimenta (2019), documentário sobre a obra, essencialmente poética, de Alberto Pimenta e Lisbon Revisited (2014) que usa o título do poema de Álvaro de Campos para um exercício multilíngue sobre os escritos de Fernando Pessoa na relação com a cidade, com os outros e, acima de tudo, com sua idiossincrasia.

Sendo de base um exercício reflexivo, ou como em seu subtítulo Phylme-Ensayo, sobre o ato de ver cinema dificilmente não seria O Espektador Espantado (2016) minha escolha do lote, nesse paradoxo de quanto mais confortável para a ação criativa de Edgar Pêra mais desconfortável para o público o confronto com o produto derivado. Não por acaso um dos mais indomesticáveis cineastas nacionais cuja densidade experimental tem sido incapaz de unir forma e conteúdo, mesmo, como é o caso, em propostas estimulantes e pertinentes.

Filipe Urriça, Boneca Russa (Netflix)

Esta semana escolhi ver Boneca Russa, por ter um conceito curioso sobre o tempo e por ter Natasha Lyonne, a Jessica de American Pie, como protagonista. A série vê-se num ápice, são menos de dez episódios com cerca de meia hora cada um, o que é perfeito para dar-lhe um bom ritmo sem se arrastar com pormenores que não interessam.

Nadia Vulvokov está presa num ciclo temporal. Cada vez que morre regressa sempre ao mesmo momento: a casa de banho da sua casa na festa do trigésimo sexto aniversário. Felizmente, Nadia recorda-se das vezes que morreu e está a ver como é que quebra este ciclo, antes que seja tarde demais e morra definitivamente.

É uma série que tem um bom começo, apresentando a premissa sem dar tudo de uma só vez. Vamos percebendo o que se passa na sua vida, a sua personalidade e o problema que tem de enfrentar para poder seguir com a sua vida. Há humor negro que encaixa muito bem no tom da série e com a própria personagem, mas no último terço de Boneca Russa a narrativa tem uma reviravolta sinistra. Os risos dão lugar a uma tristeza com um misto de dúvidas.

O final tem o seu sentido, mas falta-lhe substância para podermos perceber aquilo que originou esta anomalia temporal. As personagens estão bem construídas, a tragédia é clara e bem apresentada, mas falta algo para ficarmos satisfeitos com a conclusão de Boneca Russa. Porém, fiquei contente por saber que haverá uma segunda temporada, porque valerá a pena vê-la por Lyonne, que também assina a escrita do argumento para além do papel que representa.

Continuem a conversa nos fóruns VideoGamer!