Depois de algumas semanas de paragem, o artigo dominical que versa sobre o que a equipa VideoGamer Portugal tem andado a ver está de regresso. Como é habitual, há três propostas em destaque, algumas das quais mais fáceis de recomendar do que outras. Ainda assim, é uma viagem pelo mundo do entretenimento onde não é necessário um comando ou um teclado.

O Pedro Martins acedeu ao Disney+ para dedicar o seu tempo a Mulan, obra que repensa com atores de carne e osso a película que chegou originalmente em 1998. Não é uma retumbante recomendação, mas também não é um desastre. Sim, a película assinada por Niki Caro esteve envolvida em várias polémicas mesmo antes de estrear, mas é possível sentir o seu coração - tanto na derradeira mensagem que quer passar, tanto na coreografia das cenas de ação.

Posteriormente podem ler as palavras que Marco Gomes dedicou a sete obras inseridas em Europa 6.1. São vários parágrafos que passam em revista o Festival de Cinema Europeu Online, acontecimento que decorreu entre os dias 15 a 30 de novembro. Vale a pena ler, especialmente se estiverem à procura de recomendações para os dias de chuva que vão marcando o calendário.

No final do artigo está a opinião de Filipe Urriça sobre Gamer Sapiens no Canal História. Apesar de não ser uma proposta a evitar, o redator afirma que o conteúdo podia ser mais equilibrado entre as componentes de história e as de videojogos. Afirma o Filipe que a série documental deveria dar mais destaque aos videojogos, algo que espera ver sanado nos próximos episódios.

Pedro Martins, Mulan (Disney+)

Mulan ficará na memória pelas suas cenas de ação. Bem coreografados, são momentos que enchem a retina enquanto guiam o espectador pela mão. Realizado por Niki Caro, o filme é a transição para imagem real da película animada que chegou originalmente em 1998, não se escusando a dar alguns passos em falso, tanto no ritmo com que se vai apresentando, tanto na performance do elenco.

Estamos perante a vida de Mulan (Yifei Liu), uma jovem que começa a aventura a perseguir uma galinha para o filme mostrar a sua bravura e o seu chi especial. A protagonista - e a sua família - não encaixam na comunidade onde os casamentos são arranjados e as mulheres não têm lugar no campo de batalha.

É uma família que se adora inserida num conto onde os invasores atacam e o imperador (Jet Li) envia emissários para recrutar um membro de cada família para defender a China. Na família de Mulan - pai, mãe, irmã - é o pai que se voluntaria para regressar ao campo de batalha depois de ter sido ferido numa guerra anterior.

O filme começa quando Mulan escapa pela calada da noite para ocupar o lugar do seu pai, deixando para trás um seio familiar preocupado e escondendo a sua identidade quando chega ao treino. Mulan, o filme, é uma proposta de amor e de lealdade, uma aventura de bravura onde a fidelidade à identidade acaba por ser tão crucial quanto o heroísmo na linha da frente.

Não esperem, naturalmente, cenas de ação dominadas pela violência, com a realizadora a ter sempre em consideração que está a orquestrar um filme Disney. Se têm uma subscrição Disney+, é uma obra que não pede muito e que inspira ao passar a mensagem que o verdadeiro valor está no interior de cada um. Esteve envolvido em polémicas na forma como a empresa o distribuiu e onde foi gravado, mas encarando-o como filme, não é uma obra que muda vidas, mas também não são minutos deitados ao lixo.

Marco Gomes, Europa 6.1 (Jangada - VOD)

Com a situação pandémica a impossibilitar a segunda edição da Mostra de Cinema Europeu, Europa 61, na cidade do Porto, nasceu da parceria entre a plataforma digital Jangada - VOD, a representação portuguesa da Comissão Europeia e a rede EUNIC Portugal o Festival de Cinema Europeu Online, Europa 6.1.

Com sete obras, de outros tantos países europeus, disponibilizadas até ao dia 30 de novembro, a cada dedicarei um parágrafo num exercício pueril de ordenamento ascendente por preferência.

Começando de forma aparentemente equívoca com Brasileiros (2017), Brazilok, não é proposta desfasada do conjunto na proveniência, vinda concretamente da Hungria pela dupla Csaba Kiss e Gábor Rohonyi, mas por ser única representante do que se designa por cinema comercial. Tendo por tema um torneio de futebol de aldeia, as rivalidades e discriminações étnicas que o enformam, é exemplo de desleixo no objeto pensado e executado para público casual, sujeitando-se a nem este agradar.

Pese ser um dos da União Europeia que melhor qualidade de vida oferece aos cidadãos, deve o Luxemburgo ser um país chatíssimo. Vide o exemplar no evento, um documentário chapa cinco de Yann Tonnar sobre essa temática fascinante... hortas comunitárias, tendo a tradução para português do título original, Schrebergaart, o sublinhado em esmero imaginativo, Histórias de Hortas Comunitárias (2011).

Mesmo que de outra forma a tentem vender, a mais recente obra de ficção de Manuel Mozos, Ramiro (2017), é cinema português em estado puro, ou seja, pouco dado a cedências para arrebatar um quinhão maior de público. Na prática, serve o dia-a-dia de um alfarrabista amante de poesia a uma comédia com alma mas sem chama, onde os momentos genuínos de fulgor são um quarto dos de marasmo e/ou curta inspiração.

O meio da lista faz-se com Macondo (2014), produção competentíssima da Áustria assinada por Sudabeh Mortezai, encurtada na avaliação pela obviedade de surgir na segunda década do século XXI. Quero com isto dizer, enquadrar-se sem diferenças de relevo numa tipologia de filmes prolífica nos últimos vinte, trinta anos, cruzando ficção com registo documental em retratos de marginalidade, discriminação e/ou precariedade, no caso, a vivência num bairro social focada numa família monoparental chechena, em especial numa criança obrigada a amadurecer precocemente, Ramasan.  

Comparada com o registo anterior apresenta bem mais buracos a proposta oriunda da Polónia, Fuga (2018), Fugue, de Agnieszka Smoczynska, elevando-se na premissa de um drama que outro encobre, adensado em sequências que nada pedem ao género, ao invés, reminiscentes de thriller ou mesmo de cinema de terror.

Pela mão de Alain Raoust apresenta-se de França A Vida nos Bosques (2019), Rêves de Jeunesse de título original, que no cúmulo de sua vulgaridade nos diz bem mais sobre o filme que a tradução à papo-seco. Daí o paradoxo que a inspiração que nele faltou ter vertido em parte da hora e meia de metragem deste retrato inóspito, nos arrabaldes do surreal às vezes, da juventude. O ali não contemplado é inconsistência e excessos de liberdade criativa.  

Atrever-me-ia a dizer que a considerável distância dos restantes é meu eleito no conjunto, Karel, Eu e Tu (2019), Karel, Já a Ty, realizado por Bohdan Karásek da República Checa. Película que vive da simplicidade ilusória do quotidiano dos sentimentos, como se naquelas personalidades bem definidas, e tão distantes da nossa, encontrássemos partes do caminho percorrido, factual e mental, na relação com o outro.

Filipe Urriça, Gamer Sapiens (Canal História)

Esta sexta-feira estreou um programa com um conceito interessante no canal História, apesar do seu nome ter sido completamente um tiro ao lado. Esqueçam o nome Gamer Sapiens, porque este programa quer apresentar os jogos com conteúdo inspirado em eventos históricos ou com personagens com relevância histórica.

A estreia de Gamer Sapiens, uma série espanhola criada para o canal História, exibiu dois episódios seguidos. O primeiro foi sobre piratas e o seguinte sobre a Segunda Guerra Mundial. Não é por acaso que menciono o facto de ser uma série criada no maior país da península ibérica, porque a maior parte dos entrevistados que expõe o contexto histórico do tema são espanhóis.

Por isso, tanto num episódio como no outro, os historiadores, psicólogos e militares dão exemplos de eventos ocorridos em território espanhol ou com personalidades com importância social ou geopolítica em Espanha. Não tenho nada contra a série estar focada em factos específicos em relação ao nosso vizinho, até porque fico a conhecer uma realidade que desconhecia, acho que é de louvar passar uma série que nos conte mais pormenores da História que não venha dos Estados Unidos.

A História é muito interessante, mas neste programa que diz “A História entra em jogo”, os videojogos são mero pano de fundo para dar exemplos de títulos que se inspiraram em factos históricos. Foram utilizadas algumas sequências de vídeo de jogos como Sea of Thieves, assim como clássicos como Sid Meier's Pirates! e The Secret of Monkey Island. Achei estranho não terem utilizado nada de Assassin's Creed IV: Black Flag, por exemplo.

Podia ser um espaço de comentário quanto ao que é apresentado nos jogos, quando é apenas mostrar como é que jogadores se podem divertir em cenários históricos. O episódio da Segunda Guerra Mundial também foi interessante e incidiu mais naquilo que os videojogos usam e não tanto como uma mera desculpa para fazer comentário.

Sinceramente, é possível que veja os próximos episódios, mas espero que dêem mais importância ao videojogo em si e não tanto à História. Talvez fosse possível se houvesse mais entrevistados da área de David Martínez, editor da Hobby Consolas, ou mais criadores de videojogos.

Continuem a conversa nos fóruns VideoGamer!