Neste domingo, o Pedro Martins teve finalmente oportunidade de ver Midsommar, agora que o mais recente filme de Ari Aster está disponível no catálogo dos canais TVCine. Confesso fã de Hereditário e das técnicas densas do realizador, podem ler a sua opinião sobre o Ritual depois da introdução.

E depois do filme que fez Florence Pugh brilhar podem ler os parágrafos assinados por Marco Gomes. Esta semana os mesmos são dirigidos a Like Someone in Love, película assinada pela dupla Abbas Kiarostami e Shay Modaressi.

As últimas linhas são atribuídas a Veep por Filipe Urriça. Série que ao longo dos anos satirizou com enorme sucesso a cena política norte-americana, é também uma boa lembrança de como o humor inteligente pode ajudar a ter pensamento crítico. Armando Iannucci assinou um fenómeno com substância, sendo sempre inteligente na forma como colocou a sua proposta num ângulo apartidário. É pena que tenha terminado, mas felizmente o Filipe ainda está apenas no final da primeira temporada.

Pedro Martins, Midsommar (TVCine Top)

Hereditário ainda está bem presente na minha memória, pelo que foi com um enorme entusiasmo que soube que Midsommar - O Ritual, o mais recente filme de Ari Aster, estava finalmente disponível no catálogo TVCine. Midsommar começa com Dani (Florence Pugh) a ter um dia terrível que não demora a tornar-se num evento traumático que acompanha Dani para o resto do filme.

Antes, durante e depois destes acontecimentos familiares, Dani está numa relação com Christian (Jack Reynor); antes, durante e depois desta tragédia, é um namoro longe de ser sólido apesar dos seus anos de duração. Christian tem os seus amigos e tem também uma viagem a um festival para celebrar o solstício numa estranha comunidade remota na Suécia.

Se quase tudo estava preso por arames, é aqui que Midsommar incendeia esses arames, deixando-os a ferver. Aster vai envolvendo o espectador em paisagens idílicas e mesmo bucólicas, mas nunca lhe dando o total controlo das emoções. Há sempre a certeza que algo macabro espreita e pode dar sinais da sua existência a qualquer momento, há sempre a certeza que estamos a ser ludibriados até aos golpes finais.

Midsommar é tido como uma obra de terror, mas é um terror que se manifesta de formas inteligentes, partindo tantas vezes da sabotagem da psique humana e não do folclore que vai alimentando crenças e desconfianças. A sensação de culto cresce numa metamorfose que vale a pena ver. Quando terminado, Midsommar consegue o queria: provocar algo. É terror que resiste quase sempre ao susto fácil, optando por edificar algo substantial. Ari Aster não desilude e Florence Pugh merece todos os elogios que lhe foram feitos.

Marco Gomes, Like Someone in Love (DVD)

O prestígio e respeito angariado pelo mundo permitiu-lhe trabalhar com a liberdade criativa necessária quando a asfixia cultural em seu país o negara, não deixando, porventura mais ao apreciador da obra que ao próprio, ser estranha a sensação que o derradeiro registo ficcional em longa-metragem substitua Teerão por Tóquio.

A manutenção do título original em inglês, Like Someone in Love (2012), na distribuição para Portugal foi sortilégio do destino provocando inadvertidamente semelhante alienação. A justificação formal daquela residirá em ter Abbas Kiarostami assim o escolhido pelo standard de Jazz ouvido nos créditos finais - composto em 1944 por Jimmy Van Heusen e Johnny Burke - mas não menos como expressão da ambiguidade relacional enformando a temática.

Aliás, fica sempre a dúvida quanto ao alcance do constrito arco narrativo na reflexão sobre a ausência de certeza dos sentimentos nos lugares humanos, provável metáfora sobre a tolerância encontrada longe da intimidade, num julgamento não do povo mas da cúpula política e religiosa iraniana.

Like Someone in Love é igualmente testemunho da plêiade identitária da humanidade, na ilusão afastando pelo contexto vivencial inédito, mas, principalmente no comportamento e automatismos da função dos atores japoneses, por comparação aos dos do Golfo Pérsico, a marca d’água autoral. Denunciada na mais fetichista característica de Kiarostami enquanto realizador, a profusão de sequências de condução automóvel e diálogos em seu habitáculo.

Filipe Urriça, Veep (HBO Portugal)

Se há algumas semanas atrás vi o que se considera a coqueluche da Amazon Prime Video, Fleabag, esta semana vi o equivalente no catálogo da HBO: Veep. Julia Louis-Dreyfus é uma atriz com imenso talento que interpreta uma vice-presidente dos Estados Unidos numa comédia com um argumento notável.

Selina Meyers é a vice-presidente dos EUA e isso tem a sua responsabilidade e trabalho, mas sem nunca ter a mesma importância do presidente eleito. Selina tem de gerir um escritório onde enfrenta, diariamente, polémicas, problemas pessoais e todo o tipo de casos específicos de quem é vice-presidente dos EUA.

Seja com Tony Hale, Anna Chlumsky ou Timothy Simons, não faltam bons atores para contracenar com Louis-Dreyfus e que ajudam a cimentar a grande e complexa personalidade da sua personagem. A comédia arranca grandes sorrisos a quem vê, mas é na complexidade emocional das personagens que a série é tão boa. O mais incrível é que retirei isso tudo dos oito episódios da primeira temporada.

Ainda me faltam mais seis que irei provavelmente ver em breve, sobretudo por estar com curiosidade para ver se o argumento reflete a política dos EUA, visto que Trump foi eleito em 2016. Recomendo verem Veep, até porque é bom para quem não tem muito tempo para ver séries dado que cada episódio tem menos de meia hora.

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