Publicado em pleno Dia dos Namorados, este artigo não é uma direta lista de sugestões para partilharem com a vossa cara-metade. Por exemplo, o Pedro Martins escreve sobre Malcolm & Marie, filme que tem momentos românticos, mas que mostra inequivocamente como o passado pode afetar o presente de uma relação.

O Marco Gomes resolveu não ver apenas um filme ou uma série. Este domingo, o responsável pelas imagens das análises e dos artigos publicados no VideoGamer Portugal acedeu à Plataforma Medeia Filmes para testemunhar uma “Quarentena Cinéfila”. É uma participação longa, mas vale a pena ler, especialmente se estiverem à procura de sugestões menos blockbuster para estes dias.

Finalmente, o Filipe Urriça passou pelo catálogo da HBO para assistir a C. B. Strike. É uma série que ganhou alguma tração por ter uma primeira temporada baseada em dois livros da escritora JK Rowling, que os assinou com o pseudónimo Robert Galbraith. O Filipe afirma que “vejam esta série que vale a pena e não vos ocupará muito do vosso tempo”.

Pedro Martins, Malcolm & Marie (Netflix)

É muito provável que quem assistir a Malcolm & Marie na Netflix não fique indiferente. Escrito e realizado por Sam Levinson (Euphoria), o filme coloca-nos numa casa durante praticamente uma hora e quarenta minutos enquanto assistimos a uma noite de um casal. É uma montanha-russa emocional, oscilando entre a discussão e as pazes sem dar grande tempo ao espectador para respirar.

Malcolm (John David Washington) é um realizador que chega a casa depois da estreia da sua nova película. Marie (Zendaya) é a sua namorada, atriz com dificuldades em se afirmar, que ainda lida com a recuperação do consumo de estupefacientes. São dois atores que percorrem as várias divisões da sua casa depois de regressarem dessa estreia de sucesso.

Ao longo do filme, contudo, Levinson puxa a sua relação atrás. São acusações, declarações de amor, beijos e gritos. Marie e Malcolm atacam à vez, estilhaçando memórias, trazendo para esta noite - e para a atenção de quem vê - os seus passados - seja o seu passado em conjunto, seja o passado que ambos tiveram antes de começarem a relação.

É uma obra claustrofóbica, íntima e soturna. A casa é deslumbrante e serve bem a apresentação total a preto e branco. Malcolm & Marie peca por ser demasiado previsível na oscilação entre os ataques e as recuperações, mas é uma película que apresenta um elenco de dois que enche o ecrã com as suas prestações. É muito arriscado assentar um filme inteiro em algo tão contraído e esse preço é pago em alguns momentos.

Marco Gomes, Quarentena Cinéfila - 25 Janeiro a 11 Fevereiro (Plataforma Medeia Filmes)

Acreditemos que a normalização do dia-a-dia esteve mais longe. A segunda fase do confinamento social no país fez regressar a “Quarentena Cinéfila”, iniciativa conjunta Medeia Filmes/Leopardo Filmes que disponibiliza na plataforma digital da primeira obras para visualização gratuita do catálogo da segunda.

Iniciada a 25 de Janeiro sob a designação “Raridades”, e com duas levas de cinco filmes confirmadas até ao primeiro dia de Março (por bons motivos que daí não passe), foca-se este texto na primeira saltando desde logo a escolha de abertura aqui destacada há quatro meses, Posto Avançado do Progresso (2016) de Hugo Vieira da Silva.

O Mundo no Arame (1973), Welt am Draht, é Rainer Werner Fassbinder em modo ficção científica. Mini-série em duas partes, duzentos e quatro minutos de tempo agregado, reutilizando conceitos filosóficos da Grécia Antiga para questionar a realidade da perceção nos perigos de um futuro que, passado quase meio século, é o nosso presente de Inteligência Artificial, supercomputadores e Realidade Virtual.

O mais palpável elo entre as obras programadas é o distanciamento para com o espectador, nenhuma fazendo questão em ser empática. Chantrapas (2010) do georgiano Otar Iosseliani eleva-o ao cinismo na estória de um realizador expatriado por a obra incomodar o regime comunista vigente no país, mas que, não fazendo cedências às pretensões dos produtores é igualmente improfícuo fora dele.

A ignorância é um dos combustíveis da ilusão. Sem referências do autor, Bruno Drumont, criei nas imagens promocionais de O Pequeno Quinquin (2014), P’tit Quinquin, a expetativa de comédia ligeira para entreter miúdos e graúdos. Em sua esquizofrenia identitária o mais desconcertante é também o ser, podendo melhor classificar-se enquanto comédia negra cujo humor absurdo galga terrenos do surreal.

Pelo inverso atesta a fraca ciência de fórmulas garantidas de vivência na memória do espectador, almejando-o mesmo nos aparentes defeitos, reconhecidos na idiossincracia, como a pouca economia de narração. Nascido mini-série -com uma segunda temporada concretizada em 2018-, nenhum de seus duzentos minutos pela província gaulesa foi cortado na passagem ao cinema (excetuando redundâncias como repetição de créditos) mesmo sendo um terço das cenas descartável. Sem elas a bizarria perdia histrionismo.  

A fechar o bloco temos Alguns Dias em Setembro (2006), Quelques Jours en Septembre, que, pese transcorrer em França e Itália, grossa parte em Veneza, nos chega pelas mãos do argentino Santiago Amigorena. Simultaneamente thriller ligeiro e romance improvável revolve os meandros da intriga internacional sem nela entrar a fundo, culminando numa sequência contínua onde progressivamente se torna nítido o retrato da difusão informativa de um dos acontecimentos chave da História no século passado, o ataque terrorista de 11 de Setembro de 2001 aos Estados Unidos da América.

Filipe Urriça, C. B. Strike (HBO)

Adoro ler policiais, tenho prateleiras cheias de livros deste género e há um autor que me tem surpreendido bastante, Robert Galbraith, o pseudónimo de J. K. Rowling. Depois de Harry Potter, Rowling tem-se dedicado à escrita para um público mais adulto, começou por um romance (que também tenho) e agora está a trabalhar na sua série do detetive privado Cormoran Strike.

Fiquei entusiasmado em saber que C. B. Strike foi parar ao catálogo da HBO Portugal, porque queria ver como é que este foi adaptado e se correspondia ao que eu imaginei quando li as inúmeras páginas de Quando o Cuco Chama, O Bicho-da-seda e A Carreira do Mal. Comecei pela primeira temporada que corresponde ao primeiro livro de Galbraith.

Não fiquei desiludido para felicidade minha, acho que há ali bons atores, mas só não consegui ficar a gostar mais deles por haver cortes no desenvolvimento de algumas personagens. Pessoalmente, o que eu queria era que a série tivesse pelo menos, trabalhado bem Cormoran Strike e Robin Ellacott. Há ali uma certa química, porém, tal como nos livros, é só na próxima investigação que o seu relacionamento se desenvolve a sério.

Não sei porquê, mas imaginei as personagens muito mais velhas do que aquilo que são na série, principalmente o polícia responsável pela investigação do crime. Mesmo assim, fiquei envolvido na investigação, até porque já nem me lembrava de quem tinha sido o assassino. E o mistério resulta, deixa-me investido na série à procura de respostas sobre o verdadeiro culpado do crime.

Vejam esta série que vale a pena e não vos ocupará muito do vosso tempo, visto que são três episódios na primeira temporada e dois episódios na segunda e na terceira. Só espero que a vinda desta série para a HBO signifique que os livros ainda não traduzidos venham a ser publicados brevemente, ainda aguardo pacientemente pela publicação de Lethal White e de Troubled Blood. Espero que 2021 me traga esta surpresa.

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