por - Jun 14, 2020

The Umbrella Academy – Crítica

Quem acompanha relativamente de perto aquilo que a Netflix tem estado a fazer no que a super-heróis diz respeito, não só terá certamente reparado numa qualidade com vários altos e baixos, como também alguma dependência do selo Marvel. Com a estreia de The Umbrella Academy, a toada muda e a casa de streaming coloca nos ecrãs aquilo que consegue fazer sem essa ajuda.

Isto não quer dizer que estamos perante uma obra completamente original, pois convém não esquecer que a base para estes dez episódios é a banda desenhada assinada por Gerard Way (também conhecido como vocalista dos My Chemical Romance) e por Gabriel Bá. Quando está a desenvolver a premissa inicial, The Umbrella Academy consegue de facto instituir um interesse genuino. Infelizmente, quando o palco principal é entregue a tramas secundárias, nota-se algum desleixo e, sobretudo, algum preenchimento apenas para que isto chegue à marca da dezenas de capítulos.

O arranque é bastante prometedor. A cena mostra-nos uma rapariga a saltar para uma piscina. Há sangue a mostrar-se à tona. A rapariga tem a sua criança minutos depois. A questão é que a rapariga não estava grávida quando mergulhou. Isto decorre em 1989 e nesse mesmo dia foram 43 as mulheres que tiveram repentinamente os seus bebés. Dessas 43 crianças, o milionário Sir Reginald Hargreeves conseguiu reunir sete. Numa mostra do quão frio é, Hargreeves atribuiu-lhes números em vez de nomes e na sua mansão treina-os para combaterem o crime. O nome dessa peculiar equipa? Umbrella Academy.

Colocando-se neste patamar, a série passa a ter que lidar com personalidades fortes e, para entretenimento do espectador, arranjar uma forma de as fazer colidir sob a alçada de uma causa maior. A forma de os reunir é a parte mais fácil: Sir Reginald Hargreeves morre pouco tempo depois do primeiro episódio arrancar, o que os faz regressar à mansão para as cerimónias. Sem grande surpresa, a morte do grande arquiteto do projeto levanta imediatamente suspeitas, o que só faz com que as tais personalidades vincadas choquem sem grandes entraves.

The Umbrella Academy não demora muito at+e começar a deixar para trás alguns destes mistérios, aliás, mesmo a “Mãe” – que tem um comportamento estranho durante todo este processo – é uma figura que poderia ter sido mais aprofundada, mas que é desmascarada na primeira parte da temporada. O argumento está focado primariamente em fazer os “números” entrarem e saírem de situações complicadas, desaparecendo sem deixar rasto apenas para serem encontrados poucos episódios depois, antes de relembrar o espectador que estes membros têm poderes especiais e específicos.

São personagens bastante diferentes, tanto em personalidades, como nos poderes que têm à sua disposição – algo que se torna evidente na forma como alguns dominam os poderes e outros são dominados por eles. O Number 1, por exemplo, tem na força e na forma física ridiculamente ampliada (algo que acaba por ser explicado) o seu poder. Também conhecido como Luther, outra das muletas narrativas com que conta é a forma como começa a série na Lua. O Number 2, também conhecido na série como Diego, tem nas facas e na forma como as atira o seu poder.

Podem ser poderes diferentes, mas é provável que estejam a pensar que não são muito “super”. A Number 3, ou Allison se preferirem, não muda muito isso, pois o seu forte é contar mentiras. Fraquinho, não? A questão é que as mentiras que conta convence as pessoas que são a verdade. E o Number 4, Klaus, consegue ver e falar com os mortos. O Number 6, Ben, está morto. Contudo, consegue ser visto por Klaus, o que facilmente fará muitos traçar paralelos com O Sexto Sentido.

O Number 5 é conhecido como Number 5 e o membro da The Umbrella Academy que começa a temporada desaparecido. O seu aparecimento revela um dos pontos fulcrais para alimentar o arco narrativo. O seu poder é viajar no tempo e no espaço. O Number 5 esteve no futuro, conseguindo ver que o mundo vai acabar uma semana após a linha temporal atual. E então os membros terão pela frente a grande tarefa de – choque! – salvar o mundo da sua extinção. De salientar também que estamos a falar de uma pessoa de 58 anos num corpo de alguém com 13 anos.

E talvez o Number mais interessante do grupo, Vanya é a Number 7. Interpretada por Ellen Page, é também o membro que não tinha nada de especial e que não foi incluída pelo seu “pai” nos treinos para combater o crime. Não suficiente para haver uma fenda entre ela e os restantes membros, a jovem resolveu escrever um livro a contar o que realmente se passava naquela casa, o que como podem facilmente compreender não deixou o patriarca satisfeito – nem os restantes Numbers.

Enquanto se preparam para compreender o que podem fazer para evitar que o mundo deixe de existir – investigação que começa com um olho – o grupo, ou pelo menos parte dele, tem que lidar com a perseguição de Hazel e Cha-Cha (Mary J. Blige), vilões que também conseguem viajar no tempo. Aliás, é também uma dupla que proporciona algumas das maiores variações de tom na série. Num momento estão empenhados numa cena de tortura a um dos Numbers e minutos depois estão completamente pedrados graças a um chocolate que provavelmente não deveriam ter comido.

Enquanto se foca na tarefa a cumprir e no facto que as suas origens estão relacionadas com um mistério, as personagens conseguem levar a série com um bom ritmo, mas tal como já foi mencionado, quando se começam a prender com detalhes e com situações que não só não levam a lado algum, como não lhes dão profundidade, é quando se compreende facilmente os problemas de ritmo tão tradicionais em muitas das séries Netflix, incluindo aquelas que ostentam o nome Marvel no título.

The Umbrella Academy consegue também tocar em alguns pontos humorísticos, ainda que com resultados variados, e em alguns pontos sombrios. Não só graficamente, mas também em termos de personalidades. Klaus usa e abusa de substâncias ilícitas e Vanya, a Number 7, está completamente arrasada pela própria vida. Aliás, o talento de Ellen Page é consumido a ilustrar alguém apagado que encontrou no violino a sua nova paixão. É alguém que simplesmente não quer estar ali na companhia daquelas pessoas, alguém que chega mesmo a ter que recorrer a um novo amigo quando não tem mais nenhum lugar para onde ir – o que ironicamente chega a fazer em algumas cenas de Beyond.

Importa mencionar que a série conta com alguma cinematografia bastante interessante, apesar do uso de alguns efeitos gerados por computador que não ficam na memória. Entre o aspeto dos Numbers até alguns cenários, os produtores foram inteligentes ao inspirarem-se noutras obras de entretenimento que permitem esta flexibilidade de tons e de emoções que vão fazendo sentir. Outro ponto de destaque é uma banda sonora muito bem conseguida, sendo de destacar o quão bem sabe estar: isto é evidente numa cena logo no primeiro episódio em que os membros estão a dançar e também no final do quarto capítulo, em que a tristeza e a raiva são donas e senhoras das emoções.

Com The Umbrella Academy a Netflix parece querer testar as águas do que consegue fazer sem estar dependente de adaptações de propriedades já estabelecidas. Não é a melhor disponível e está longe de sanar os problemas que muitas das propostas anteriores já mostravam, mas não é terrível se lhe perdoarem algumas sequências de marasmo. Não consegue estar ao nível, por exemplo, de American Gods, que se prepara para regressar com a segunda temporada, mas não é perigosamente inferior aos super-heróis que já vimos chegar. Talvez não fosse má ideia perceberem de uma vez por todas que oito episódios por temporada permite cortar uma boa parte do tecido morto.

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