por - May 14, 2017

The Witcher (Netflix) – Crítica

Um dos exercícios que terão que fazer enquanto vêem The Witcher na Netflix é separar mentalmente o que estão a ver na televisão daquilo que já jogaram através das obras da CD Projekt RED. Quanto mais depressa o conseguirem fazer, mais espaço mental têm para apreciar – e criticar – a adaptação liderada por Lauren Schmidt.

Durante os últimos dias tive oportunidade de ver os primeiros cinco episódios dos oito que compõem a temporada de estreia (a segunda já foi confirmada pela Netflix), podendo agora escrever sobre essa adaptação que, importa sempre frisar, tem como base os livros de Andrzej Sapkowski e não os videojogos. Curiosamente, os primeiros minutos parecem saídos diretamente de uma consola ou de um computador.

O protagonista, Geralt of Rivia (Henry Cavill) luta contra um monstro num pântano. Pouco depois, o caçador de monstros procura a sua próxima missão num bar. Isto dá-nos imediatamente a clara sensação do que será a estrutura da série: missão a missão, trabalho a trabalho, imprevisto após imprevisto, Geralt caminha em direção ao seu destino – que como saberão tem dois vértices à espera de serem encontrados: Yennefer (Anya Chalotra) e Ciri (Freya Allan).

Sem entrar no território minado de spoilers, estes cinco episódios são uma lenta aproximação do trio de protagonistas, o que lhes permite ter tempo para viver as suas aventuras paralelas, enquanto o espectador vai ficando a conhecer cada vez mais detalhes das suas vidas. É aqui que a série da Netflix tem os seus pontos mais fortes, mas também o seu Calcanhar de Aquiles.

Desde o momento em que Yennefer ainda é ainda apelidada de “bacorinha” até à cena final do quinto episódio, o seu crescimento é enorme e espelha bem a sede de poder que a maioria das personagens tem. Querendo mais e mais, querendo tudo, é muito fácil amar odiar quem está disposta a quase tudo para ficar poderosa – importa mencionar que inicialmente o “valor” da sua vida era irrisório, tendo sido vendida por quatro marcos. Mesmo visualmente, a transformação é notável e, sobretudo, ambiciosa.

Aliás, quase tudo em The Witcher é ambicioso. Desde a construção dos cenários aos efeitos especiais, passando pela informação passada para quem vê. Há elfos que foram mortos pelos humanos num evento conhecido como a Purga; há maldições como a do Sol Negro ou as que as personagens vão realizando para fazer o argumento avançar; há monstros da “pior espécie, a humana”; inevitavelmente, esta obsessão acaba por ser uma carga demasiado pesada para o argumento.

A forma como a estrutura narrativa foi pensada acaba inevitavelmente por oferecer momentos confusos, mesmo que estejam a seguir o desenrolar dos episódios com toda a atenção. Além das pilhas de informação contextual, o espaçamento temporal não ajuda a que o fio condutor chegue intacto a quem está a ver. Não ter a certeza de onde o que acabamos de ver deve ser colocado, não ajuda a que a imersão seja completa.

Ainda assim, o sentido de aventura sobrevive a esta confusão. A série faz efectivamente um bom trabalho em colocar à nossa frente cenas memoráveis e partes de episódios que detêm o espectador todo. Por exemplo, a forma como a exposição do monstro Estrige é feita. Pouco a pouco vamos ficando a conhecer os seus pormenores, como se fosse um micro-conto. Esta exposição começa com a constatação que “só há uma criatura tão esquisita a comer” depois de uma das personagens morrer e ser encontrada sem coração nem fígado. A Estrige é rara, uma lenda, e só aparece através de uma maldição. The Witcher executa estes contos com mestria.


 
E se esta descrição parece gutural, bem, isso é porque a série o é. Durante estes cinco episódios, a violência física e psicológica está presente em todos os episódios, tal como a linguagem rude e as cenas de nudez. Não é algo muito comum nas produções Netflix, porém, em muitas das cenas, tendo em consideração o material original, não faria sentido estar a colocar à frente de quem vê cenas imaculadas. The Witcher detém inúmeros momentos rudes, crus, perfeitamente de acordo com o arco geral da série. E sim, faz sentido ver Geralt na banheira – não uma, mas em duas cenas durante estes primeiros episódios.

Até ao momento da minha despedida de The Witcher, a personagem do trio com menos momentos avassaladores é Ciri, contudo, isso não significa que não seja uma personagem importante para o desenrolar da temporada. Estamos a falar de uma Princesa que não tem uma vida propriamente fácil, como é bem demonstrado na sua cruzada que a leva até à floresta de Brokilon – aqui as “locais” conhecidas como Dríades exultam um visual que parece inspirado em Hellblade e Ciri tem que provar as suas intenções sem mostrar todos os trunfos do seu âmago.

É a fantasia que domina The Witcher, então, como seria de esperar. Os efeitos especiais não desiludem, os diferentes locais pisados pelo trio de protagonistas são diversos, muitas vezes grandiosos, e quase sempre edificados com atenção ao pormenor. As cenas de luta com Geralt – que Henry Cavill fez questão de gravar sem duplos – estão bem coreografadas e ganham um fôlego adicional quando há magia envolvida. E por falar em lutas, uma das mortes, quando o punhal é espetado quase fotograma a fotograma, é um bom exemplo de como a recomendação para maiores de 16 anos faz todo o sentido.

Mesmo que não haja um “carregador de pianos”, permitam-me apenas destacar que Geralt, muito graças à sólida prestação de Cavill, é aqui uma personagem com várias camadas. Há trechos de rancor, outros de ódio, mas há outras cenas onde o “bruxo” revela o seu lado sarcástico, arrogante, e também o seu sentido de humor. As piadas e os momentos cómicos estão quase sempre associados ao trovador que o acompanha durante uma boa parte da aventura. Resultam porque a sua temporização encaixa bem no cômputo geral dos episódios e serve sobretudo como uma válvula de escape, sendo trechos para desanuviar de imagens bem mais pesadas.

Então vale a pena ver The Witcher? Mesmo com uma exposição assente num veículo narrativo que não foi a melhor escolha, vale. Não pensem que vão reviver aquilo que já jogaram, não pensem que têm aqui “A Guerra dos Tronos da Netflix”. Pensem sim, antes de começarem o primeiro episódio, que estão prestes a embarcar numa aventura grandiosa, onde a fantasia reina, e onde o entretenimento é gerido para que os episódios não se arrastem em demasia. Os locais ilusoriamente mágicos, a sede de poder chega-nos em crescendo, e o bardo compõe umas melodias que vão cantarolar durante dias. É uma série perfeita? Não, mas podia ser muito pior.

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