A superação do corpo com uma mente guerreira é a mensagem principal do filme que o Pedro Martins teve oportunidade de ver esta semana. Por cá está disponível no catálogo da HBO Portugal e tem 100 Metros como título. Quando uma vida perfeita é chocada com o diagnóstico de esclerose múltipla, Ramón decide que vai participar na prova Ironman. Co-produção entre Espanha e Portugal, é inspirado numa história real.

O Marco Gomes optou por assistir a Que Horas São Em Paris? graças à sua coleção DVD. Realizado por Tsai Ming-Liang, a obra, segundo o Marco, recorre ao sarcasmo para compor o seu guião. Quem assistir, é dito, participa numa viagem pelos caminhos do desejo e da crença como parte de um mundo que nunca para de se ajustar.

Podem também ler as palavras de Filipe Urriça, que este domingo escreve sobre o clássico da cultura popular O Momento da Verdade. Mr. Miyagi faz parte do imaginário de incontáveis adultos que assistiram ao filme enquanto crianças ou adolescentes. O TVCine levou os seus espectadores de regresso a 1984 e estão todos convidados.

Pedro Martins, 100 Metros (HBO Portugal)

Enquanto filme, 100 Metros é uma coleção de fragmentos que todos podem extrapolar para as suas vidas. Resultado de uma colaboração entre Espanha e Portugal, é também inspirado numa história real e uma mesclagem de comédia com humor cujo fruto é um comboio de inspiração. 100 Metros é a superação na vida do ecrã a dar alento à superação na existência de cada um.

Conheçam Ramón (Dani Rovira), personagem inspirada em Ramón Arroyo. Na flor da idade, quando estava a singrar profissionalmente e com uma família estável, o protagonista é diagnosticado com esclerose múltipla. Dentro de um ano, ficamos a saber, será incapaz de caminhar cem metros. Depois do choque, a pujança - física e mental.

Em vez de aceitar resignado a entrada da doença na sua vida, Ramón vira-se para o Ironman, uma das provas mais exigentes: são 3,8 quilómetros de natação em águas abertas, 180 quilómetros de bicicleta e ainda 42 quilómetros a correr. Números extenuantes para quem é saudável, uma montanha quase incompreensível para quem tem esclerose múltipla.

Durante o filme acompanhamos naturalmente o diagnóstico, mas sobretudo o treino de Ramón para a prova. Antes do Ironman chegar, há cenas com a sua mulher Inma (Alexandra Jiménez) e com o seu sogro Manolo (Karra Elejalde). A relação de Ramón com Manolo nunca foi fácil, contudo, é entre os dois que são edificadas as cenas de preparação. O pai de Inma tem a sua própria pele cheia de cicatrizes deixadas pela vida, incluindo a perda da sua mulher.

Não sabemos exatamente quais são os acontecimentos que marcaram a realidade de Arroyo, contudo, a sua participação no Ironman aconteceu. 100 Metros resulta porque nunca impõe as suas lições. É sério quando precisa de ser sério, dramático em momentos certeiros, e um manancial de bom humor que ajuda a quebrar o cinzento e o peso de um diagnóstico que puxou o tapete debaixo dos pés desta família.

Ramón nunca sofreu sozinho, mesmo quando a porta do quarto estava fechada, mas também nunca conquistou sozinho. A película de Marcel Barrena abraça a determinação, mas não quer edificar um herói impermeável a momentos menos bons. É uma história humana, uma história que em vez de construir um conto de fadas, opta por mostrar o que a mente consegue com o corpo. “Quando fiz o Ironman, a esclerose múltipla estava controlada, mas depois sofri algumas recaídas e tenho estado parado,” disse Arroyo ao Público em 2017. E é precisamente esta a lição que o filme quer passar: que no caminho para as perfeitas conquistas da vida também há recaídas.

Marco Gomes, Que Horas São Em Paris? (DVD)

Uma semana encurta vinte anos entre A Dupla Vida de Véronique (1991) e Que Horas São Em Paris? (2001), Ni Na Bian Ji Dian. Mesmo que os não separasse a temporalidade existencial sempre haveria a delimitação geográfica entre Krzysztof Kieslowski e Tsai Ming-Liang. Ou não, a crer na comunhão espiritual transfronteiriça dessas obras.

O Homem é da sociedade e de marcas vivenciais profundas, faltando mensurar o pouco da carga genética na formulação da personalidade. Nascido e crescido na Malásia, mudar-se-ia para Taiwan aos vinte anos por motivos académicos, assentando arraiais desde então no território.

A pequena nota biográfica ajuda a explicar porventura o delírio contido no trabalho de Tsai Ming-Liang. Sem abdicar dos preceitos formais nele contidos, cesura a polidez e espartilho moral de muito do cinema da China continental.

Que Horas São Em Paris? usa com sarcasmo do mais recorrente impulso temático na composição de guião, procura de mitigar a ausência de conforto interior, para se debruçar sobre os ínvios caminhos do desejo e da crença num mundo em metamorfose pelo fenómeno da globalização.

Filipe Urriça, O Momento da Verdade (TVCine Action)

Se eu perguntasse a alguém o que estava a ver na televisão e me respondessem O Momento da Verdade, não faria a mínima ideia de que filme se tratava. É curioso ficar a saber que O Momento da Verdade é o nome que foi dado em Portugal para The Karate Kid. Enfim, seja como for, como sempre tive vontade de ver os três filmes da série de filmes criados por John G. Avildsen, para depois continuar com a série Cobra Kai.

Foi ao ver O Momento da Verdade que percebi que o filme com o filho de Will Smith é quase uma cópia descarada. O filme de Avildsen continua a ser muito superior ao filme mais recente, que já não conta com os atores originais. Mãe e filho mudam de estado e vão viver para a Califórnia, onde está o local do novo emprego da mãe, assim o filho é forçado a mudar de escola. E é esta mudança que acompanhamos, onde vemos todas as vitórias e percalços do rapaz interpretado por Ralph Macchio para se integrar com os miúdos do seu bairro e do novo estabelecimento de ensino que agora frequenta.

Como é óbvio, desde que contacta com os miúdos que serão os seus novos amigos, há o que chamamos de bullies, onde se destaca o arruaceiro interpretado por William Zabka. Daniel e Johnny entram em rota de colisão por causa do interesse comum que têm numa rapariga, e é aí que Daniel se vê obrigado a retaliar para não estar sempre a ser o saco de pancada de Johnny.

É aqui que entra Mr. Miyagi, o responsável pela manutenção da zona habitacional de Daniel, que tem métodos pouco convencionais para ensinar Karaté ao jovem Daniel. O que parece ser uma forma de se aproveitar do trabalho de Daniel, é na verdade um ensinamento muito eficaz de aprender esta arte marcial. Com o passar do tempo, Daniel e Mr. Miyagi tornam-se grandes amigos e, no fundo, é a amizade o mais importante a reter deste filme. Se puderem, vejam-no, porque apesar de ser um filme de 1984 (curiosamente o ano em que nasci), é um filme que envelheceu bem.

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