VideoGamer Portugal por - Nov 14, 2021

O que andamos a ver, 14 de novembro, 2021

O que andamos a ver é publicado este domingo com dois comentários sobre um filme e uma série que estão disponíveis em exclusivo na Netflix, e também com parágrafos dedicados a uma obra que chega de uma coleção DVD. Como é habitual, é um trio de propostas díspares.

Foi no catálogo da Netflix que Pedro Martins viu Identidade, um filme acutilante, belo, e capaz de ecoar na memória de quem o vê durante horas e horas a fio. Somos transportados até aos anos vinte, mas o comentário social não destoa em 2021. É uma recomendação absoluta do diretor de conteúdos.

O Marco Gomes acedeu à sua coleção de DVD para ver Post Mortem, escrevendo sobre a película assinada por Pablo Larraín e estreada em 2010. O espectador é levado até ao Chile durante os últimos dias da presidência de Salvador Allende em 1973. Escreve o Marco, todavia, que é “uma tentativa frustrada de abanar o espectador”.

A encerrar esta edição da rubrica O que andamos a ver temos as palavras de Filipe Urriça sobre Arcane, a série Netflix inspirada em League of Legends. Apear de “não ligar nenhuma” ao jogo da Riot, o redator ficou rendido aos encantos da série, recomendando-a e ficando à espera dos novos episódios.

Pedro Martins, Identidade (Netflix)

Inspirado no livro de Nella Larsen publicado em 1929, Identidade é um filme imperdível. Pela mão da realizadora Rebecca Hall, somos levados até aos anos vinte. No seu pilar central, o filme narra os acontecimentos da chegada de uma personagem disruptiva a duas vidas estáveis.

Mais concretamente, o que acontece a Irene (Tessa Thompson) e ao seu marido Brian (André Holland) quando Clare (Ruth Negga) encontra a sua amiga de infância. Ao longo de aproximadamente noventa minutos, Identidade é uma excelente demonstração de como a sociedade lida com a cor da pele.

Na versão original, o título da película é “Passing”, que é também a descrição do ato de uma pessoa negra clarear a pele, fazendo-se passar por uma pessoa branca. Clare vive nessa situação e o seu marido, John (Alexander Skarsgard), é racista, estando em cena o tempo suficiente para o deixar em inequívoca evidência.

O comentário social não deixa ninguém indiferente, uma vez que estamos em 2021 e a sociedade continua a apresentar falências de inclusão e de igualdade. As subtilezas e os choques do filme trabalham em conjunto para que o espectador pare quando os créditos finais começam a rolar pelo ecrã.

Apresentado a preto e branco, Identidade é carregado pelas incríveis prestações de Thompson e Negga, com a última a construir uma personagem num crescendo magnético. O filme tem a dureza necessária, tal como a beleza dos planos para fortalecer a trama. Vejam-no com os olhos colados ao ecrã e os ouvidos bem abertos ao que é dito.

Marco Gomes, Post Mortem (DVD)

Em 2017 a Alambique Filmes recauchutou no formato DVD a obra editada em Portugal de Pablo Larraín. Longe de possuir a relevância editorial de caixas pensadas de raiz, ainda assim, com auxílio de um cartão de rosto agregar filmes lançados a solo no mercado doméstico comporta óbvias vantagens também para o consumidor, nomeadamente no preço final e comodidade de acesso a trabalho autoral específico.

As cinco longa-metragem inseridas no pacote, de nove até hoje realizadas pelo chileno, situam-se no intervalo cronológico de 2008 a 2016, correspondendo da segunda à sexta em seu percurso, numa sequência interrompida apenas por uma série televisiva e dois registos de menor duração. Abdicando da de abertura por antes ter visualizado, Tony Manero (2008), salto porventura seu mais icónico registo. Não confundir com a escala mediática alcançada por Jackie (2016) e, atualmente nos cinemas, Spencer (2021).

Daqueloutro resgatando Alfredo Castro, o poder aglutinador de seu papel e a época história próxima, aí começa a dúvida identitária de Post Mortem (2010), convivendo de forma habilidosa e, se é possível, ao mesmo tempo descartável com o retrato indireto de um país em emergência política.

A agudização dos acontecimentos, conduzentes à morte do presidente chileno Salvador Allende em 1973, e a substituição abrupta do tom ligeiro da película no quarto final dos noventa e seis minutos de duração fazem do processo induzido de deriva, mexendo com a cadência rítmica e, principalmente, nexo estrutural da narrativa, uma tentativa frustrada de abanar o espectador.

Filipe Urriça, Arcane (Netflix)

Não ligo nenhuma a League of Legends, apesar de estar atento ao que a Riot Games faz, sobretudo, ao que tem feito recentemente. Temos assistido, nos últimos anos, a uma expansão do universo criado pela Riot com jogos como Wild Rift, Runeterra ou o recém-lançado Hi tech Mayhem.

Quando vi que estava a ser feito Arcane para a Netflix torci o nariz, até porque é sabido que as adaptações de videojogos a filme ou série de televisão não correm sempre bem – os filmes de Paul W. S. Anderson são um bom exemplo da minha falta de confiança para ter ido ver Monster Hunter quando estreou.

Entretanto, esta semana saiu finalmente Arcane: League of Legends no gigante do streaming. A equipa de marketing mimou a imprensa e os novos críticos voláteis das redes sociais, os intitulados influencers, com merchandise da série. Contudo, tal não era necessário, porque Arcane é mesmo muito bom, até arrisco dizer que é bem melhor do que alguns episódios de Star Wars: Visions. A animação e a narrativa são tão boas que me agarraram desde o primeiro episódio.

Não sei se esta série nos vai explicar o porquê de haver combates MOBA em League of Legends com os conhecidos Champions, mas já fico satisfeito com o que se propôs a apresentar. Aqui vemos um mundo num regime totalitário e completamente segregado em classes sociais, principalmente, entre ricos privilegiados e pobres marginalizados.

Assim, é fácil adivinharmos que vai haver uma grande luta entre as diferentes classes da sociedade deste mundo de fantasia onde a ciência e a magia têm um ponto de encontro. O grande destaque vai para a ascensão dos mais desfavorecidos para tentarem encontrar um lugar na sociedade.

É claro que uma boa história necessita de um bom elenco, felizmente, Arcane tem personagens bem capazes de sustentar a narrativa que nos está a ser contada. Porém, não será Arcane que me fará regressar às partidas caóticas de League of Legends. A quem é apenas um mero curioso do mundo da Riot, aconselho vivamente que vejam Arcane, vale bem a pena. Agora, mal posso esperar que sejam lançados os próximos três episódios.

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