Sempre que possível, aproveitar o tempo que o fim de semana nos oferece deve ser uma forma saudável de antever a nova semana que está prestes a começar. E este fim de semana de recolher obrigatório parcial, as tardes devem ser passadas espreitando o mundo pela janela - seja um rasgão aberto no cimento ou um rasgão digital.

A equipa do VideoGamer Portugal tem três propostas que podem ajudar a tornar estas horas mais curtas. O Pedro Martins continuou a explorar o catálogo do Disney+, esta semana para escrever sobre Fantasia. Obra inovadora em 2020, a mistura homogénea de animação com música clássica deve ter deixado muitas mentes atónitas em 1940, quando chegou originalmente aos cinemas.

Marco Gomes teve oportunidade de assistir a Depois da Tempestade, obra publicada originalmente em 2016 e que merece ser celebrado, segundo o Marco, também pela edificação de Shinoda Ryôta, personagem que procura inspiração para o seu próximo livro. Finalmente, o Filipe Urriça viu Schitt's Creek, série de comédia que vai muito mais além do trocadilho que alberga no seu título.

Pedro Martins, Fantasia (Disney+)

A combinação de diferentes manifestações de arte é algo que há muito fascina quem procura dar à massa cinzenta algo em que pensar. Fantasia está disponível desde 1940 para mostrar que esse encantamento tem um longo historial. Combinando com mestria a animação da Disney com o embalamento emocionante da música clássica, é uma viagem pelos sentidos que deve ser vista e experienciada.

Ver Fantasia na contemporaneidade é sinónimo de olhos arregalados e de um queixo permanentemente caído, tentar perceber o que terão sentido os espectadores há oitenta anos é um exercício assombroso. É uma película experimental dirigida pelo maestro Leopold Stokowski, que faz a Philadelphia Orchestra tocar Bach (Toccata and Fugue), Tchaikovsky (Nutcracker Suite), Stravinsky (Rite of Spring), Beethoven (Pastoral Symphony), Ponchielli (Dance of the Hours).

Não são apenas os tímpanos que são convidados. Enquanto estas composições ecoam nas colunas, o ecrã enche-se com animação que as complementa perfeitamente em sintonia. Ponchielli, por exemplo, apresenta-nos um ballet com avestruzes e hipopótamos; The Sorcerer's Apprentice de Paul Dukas é a sonoplastia de uma aventura protagonizada por Mickey e por uma vassoura encantada.

Fantasia é um filme assente nos moldes de um convite para uma tarde ou uma noite de gala, atmosfera que é definida pela apresentação de Deems Taylor. E perto do final, a dualidade entre a Night on Bald Mountain de Mussorgsky e Ave Maria de Schubert exercita o assalto às emoções. Quando esses minutos chegam, Fantasia já se assumiu como clássico intemporal.

Marco Gomes, Depois da Tempestade (DVD)

Pouco óbvia a tarefa de enquadrar a obra de Kore-Eda Hirokazu num perfil de mercado. Suas premissas expõem um cinema autoral e artístico de consenso alargado, simultaneamente corroborado e refutado numa análise cuidada aos filmes.

A margem de dúvida reside em três principais elementos de denúncia. As pequenas doses dramáticas e argumentos reflexivos para o espectador não desmentem a ligeireza da proposta, ao invés, afirmam-na em duas características tão queridas da película de consumo maciço.

A banda sonora como elemento funcional de reforço à imagem e necessidade do processo narrativo entregar suplementos do inusual, retornando ao paradoxo no trabalho do japonês quando se faz o guião em larga medida do quotidiano e suas trivialidades.

Depois da Tempestade (2016), Umi Yori Mo Mada Fukaku, o atesta, principalmente através da personagem central, Shinoda Ryôta, escritor de feitos passados que procura inspiração para o próximo livro no trabalho temporário como detetive enquanto se debate com o vício do jogo e necessidade de cumprir com os deveres de pai.

Filipe Urriça, Schitt's Creek (TVCine Emotion)

Vi Schitt's Creek porque me foi recomendado e visto que está a passar na TVCine decidi ver se era bom ou não. Vi dois episódios, que revelam bastante bem o que o resto da primeira temporada poderá ser.

Criado e protagonizado por Eugene Levy (o pai de Jim em American Pie) e pelo seu filho Dan Levy Schitt's Creek é uma comédia que melhora de episódio a episódio. A abastada família Rose vê a sua fortuna a ser confiscada pelo governo, depois de anos a fugirem aos impostos. Só lhes resta uma única propriedade que o governo permitiu que permanecesse na sua posse: Schitt's Creek.

Quando chegam à cidade que compraram, deparam-se com um local que ninguém compraria no seu perfeito juízo. Por isso, vão tentar vendê-la pelo mesmo preço que a compraram para recuperarem algum dinheiro e regressar à vida de ricos que outrora tinham. É nesta tentativa de se adaptarem a um estilo de vida diferente que se vê o caráter e o carisma de cada uma destas excêntricas personagens.

Contudo, este tipo de situações já são cliché, o que deixa o espectador adivinhar quase tudo que poderá acontecer. Mas como nos Emmy deste ano, Schitt's Creek limpou uma boa parte dos prémios da categoria de comédia, incluindo a de Melhor Série, espero sinceramente que esta série melhore muito mais para além deste par de episódios que já vi. Que seja, no mínimo surpreendente e com uma escrita acima da média, algo ao nível das primeiras temporadas de Arrested Development.

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