Neste artigo estão reunidos novamente os textos de todos os membros da equipa VideoGamer Portugal e, novamente, os temas abordados são bastante díspares. O Pedro Marques dos Santos regressa para escrever sobre um dos seus desportos de eleição, ou seja, sobre ténis, mais concretamente, sobre ténis em Wimbledon, torneio que chega ao fim hoje.

O Marco Gomes continua a sua viagem pelo mundo dos DVD, esta semana dedicando algumas linhas ao filme Salaam Bombay!. O Filipe Urriça, enquanto não chega a nova temporada de A Guerra dos Tronos viu Preacher. Finalmente, eu tive oportunidade de ver um documentário interessantíssimo: Mãe Querida, Mãe Morta. Se tiverem oportunidade, não deixem de lhe dedicar o vosso tempo.

Imagens O que Andamos a ver 16 julho 2017

Pedro Marques dos Santos, Wimbledon (Sport TV)

Poucas semanas após Roland Garros, o mundo do ténis virou atenções nesta última quinzena para o All England Club, o mítico complexo onde todos os anos se disputa o possivelmente mais emblemático torneio deste desporto, Wimbledon. Confesso que não morro de amores pela temporada de relva, não só por ser extremamente curta, mas porque raramente nos proporciona as batalhas que tornam este desporto tão interessante, isto é, as longas trocas de bolas são raras e os pontos são quase sempre resolvidos em três ou quatro pancadas.

Talvez por isso tenha gostado mais dos jogos da prova feminina que vi do que dos jogos masculinos, porque já se sabe que é nesse setor que acontecem as maiores surpresas e as constantes reviravoltas de resultados. A final foi algo anticlimática, uma vez que Muguruza, a espanhola que ganhou no ano passado Roland Garros e havia sido finalista deste torneio há dois anos, dizimou a veterana Venus Williams por 6/0 no segunda set, depois de uma primeira partida equilibrada.

Pelo meio coroou-se uma nova número um mundial, a checa Karolina Pliskova que, curiosamente, foi eliminada bastante cedo da competição, mas que fruto dos seus excelentes resultados desde o US Open de 2016 e com o baixar de rendimento de Kerber, que não conseguiu defender os pontos do ranking relativos à final do ano passado após perder contra a futura campeã da prova, conseguiu ascender ao topo do classificação, isto depois da romena Halep ter, tal como aconteceu no Grand Slam francês, ficado a apenas uma vitória de assumir essa liderança.

No lado masculino, o torneio decorreu sem grande surpresas até uma fase avançada do torneio. É certo que Wawrinka, finalista de Roland Garros, caiu logo à primeira, mas basta olhar para os seus resultados em relva este ano e no passado para perceber que a sua eliminação precoce não foi propriamente surpreendente. O melhor ficou efetivamente reservado para a segunda semana, quando Nadal e Muller proporcionaram possivelmente o melhor - e mais longo - encontra da temporada que acabaria por sorrir e de forma justa, diga-se, ao luxemburguês de 34 anos e especialista de relva num 5º set que terminou com o parcial 15/13.

Relativamente aos outros favoritos, Murray voltou a desiludir e a colocar cada vez mais em causa a sua liderança no ranking após ceder nos quartos-de-final para Sam Querrey, que já no ano passado havia sido o carrasco de Djokovic em Wimbledon, enquanto que Djokovic surpreendeu ao desistir devido a lesão após perder o 1º set na mesma fase do torneio para Berdych. Com o quadro aberto, Cilic, o croata que surpreendeu meio mundo ao conquistar de forma imperial o US Open em 2014 e depois eclipsou-se, aproveitou a ocasião para atingir a sua segunda final de um Grand Slam onde vai encontrar o inevitável Federer que ainda não perdeu qualquer set nesta edição do torneio.

Apesar de Federer ser o favorito, acredito que Cilic, que me parece ser o jogador em melhor forma nesta fase da época, pode perfeitamente voltar a surpreender e conquistar o seu segundo Grand Slam, embora para isso seja necessário que se exiba ao seu melhor nível e que Federer tenha um dia menos positivo.

Imagens O que Andamos a ver 16 julho 2017

Marco Gomes, Salaam Bombay! (DVD)

Valendo-se de sua fragilidade e inocência como acendalha instantânea da impressão, recorrentemente atribui o cinema social protagonismo a menores no período de infância.

Contudo, outros dois motivos sustentam a constatação, recurso à espontaneidade de quem desconhece maneirismos da função representativa e usurpação de sua extravagante aura fantasiosa, no grosso dos casos, promovendo despique entre contexto vivencial impiedoso e a inata pulsão escapista das crianças.

As que vaguearam, vagueavam pelas sarjetas de Bombaim, órfãs ou de indigente seio familiar, forneceriam a Mira Nair inspiração para sua primeira longa-metragem de ficção, estava a penúltima década do século XX quase da balada.

Com os favores do exotismo, valia ajustada à condição de quem observa, revela a triste epopeia de Chaipau - na altura, também ele menino de rua de nome real Shafiq Syed - perseguindo o mais vulgar dos sonhos, regressar a casa numa qualquer aldeia de província, por intermédio de exercício agitador de consciências tão cruel quão encantatório, até pelos quadros de divagação festiva, não isento, contudo, de seus momentos de previsibilidade narrativa e desajuste na cadência e enquadramento de um bom punhado de sequências.

Imagens O que Andamos a ver 16 julho 2017

Filipe Urriça, Preacher (AMC)

Vi a primeira temporada de Preacher que tinha guardado nas gravações da minha box. Esta série baseada na banda desenhada criada por Garth Ennis e Steve Dillon, publicada pela Vertigo, mistura muitos elementos do sobrenatural, metafísica e religião cristã. Mas esta adaptação para a televisão consegue manter quem a vê motivado para a seguir do início ao fim. 

Preacher conta a história de um padre com um passado cheio de pecados que obteve um poder muito estranho. No seu grupo de amigos há um vampiro irlandês e Tulip, a sua namorada que partilha o mesmo passado criminoso deste padre que procura Deus. Esta sua procura colocou anjos a descerem à Terra para recuperarem Genesis, o tal estranho poder que adquiriu que lhe permite persuadir tudo e todos. Basta-lhe dar ordens que quem o ouve não tem outra opção a não ser obedecer.

É uma grande mistura de conceitos, que se não tivesse grandes personagens e personalidade própria, porque o que não faltam são séries que abordam o sobrenatural, não me continuava a interessar para conhecer todos os segredos que esconde. Esta série da ainda consegue ser bastante cómica e faz um bom uso da sátira. Cassidy, o vampiro desta conto absurdo, é uma das fontes de humor, mesmo que tenha momentos assustadores e provoque banhos de sangue quando tem fome. 

Acho que esta série ainda tem muito para dar, com tantos nós desatados que deixou na sua narrativa. Será muito interessante conhecer quem será responsabilizado pelo final explosivo da primeira temporada e que jornada aguardará ao trio - Cassidy, Tulip e Jesse - visto que o padre está em busca de Deus.  

Imagens O que Andamos a ver 16 julho 2017

Pedro Martins, Mãe Querida, Mãe Morta (TVCine)

Não conhecia a história contada no documentário Mommy Dead and Dearest, Mãe Querida, Mãe Morta, em português. Em 2015, Dee Dee Blanchard foi assassinada em Springfield. Os suspeitos principais do homicídio são a sua filha, Gypsy, e o seu namorado na altura. Pode-se pensar que é mais um documentário sobre o mistério de uma morte e a resolução do caso, mas depois de o ter visto percebi que é algo muito mais além.

Originalmente criado pela HBO Documentaries e exibido em Portugal pelo TVCine, Mãe Querida, Mãe Morta é uma excelente janela para se perceber o que afinal aconteceu durante aquela noite, mas sobretudo para perceber a relação entre mãe e filha, que rapidamente é revelada como um jogo de aparências, uma história de abuso e, sobretudo, um relato de libertação, mesmo que tal esteja sempre associado a um crime.

Gypsy sempre foi uma criança com vários problemas de saúde incapacitantes, incluindo a dependência de uma cadeira de rodas, doenças mentais, e leucemia. A comunidade ajudou esta família: a mãe terá levado a sua filha mais de cem vezes ao hospital e o armário onde guardava os medicamentos estendia-se por várias prateleiras. Ou seja, era uma criança francamente dependente da sua zeladora, a sua mãe.

Sem estragar o desenvolvimento e o final do documentário a quem quer ver - será novamente transmitido no TVCine 2 dia 13 agosto - o grande gancho é que estas doenças de Gypsy foram inventadas pela mãe, que manteve a filha numa redoma de vidro tamanha, que os intervenientes no documentário comparam a situação a um rapto.

A mãe, diagnosticada com Síndrome de Münchhausen, acaba por caminhar a linha entre vítima ou vilã, com o espectador a assimilar a situação toda e a formar para si próprio um caso. Isto deve-se à fascinante e desoladora matéria-prima, mas também à habilidade de Erin Lee Carr em contar a narrativa de uma forma cativante. 

O resultado do julgamento e tudo o resto ficará para quem tiver interesse em analisar esta história por si próprio, mas é um documentário que recomendo sem grandes reservas. Sim, a história incomoda, mas surpreende e deixa-nos perceber mais um caso de como a mente e a vontade humana funcionam, até onde vão para conquistar a atenção dos seus pares, até onde vão sem olharem para quem prejudicam.