por - Jun 16, 2019

Watchmen, uma estreia que gravita em direção ao memorável

Naturalmente, os fãs estavam algo apreensivos com uma série de televisão com Watchmen no título. Foram muitos os que não gostaram do filme realizado por Zack Snyder e o livro de Alan Moore lança uma sombra muito densa sobre tudo o que se aproxima do nome. Contudo, a estreia da série na HBO Portugal é feita de uma fibra própria, é um exercício em como alimentar aos espectadores de forma estudada.

É uma obra de entretenimento que manda colocar as pipocas em pausa, que me mostrou segurança e, sobretudo, televisão com algo a dizer, com muito a dizer. A primeira cena decorre em Tulsa, 1921. Há violência nas ruas, destruição abundante, algumas pessoas abatidas, outras a arder enquanto suspiram as suas últimas golfadas de ar. Há que salvar o miúdo, que com ele tem apenas uma nota “Cuidem deste menino”. Esta abertura conta o Massacre de Black Wall Street.

Watchmen começa com uma declaração: quem vê é confrontado com as questões raciais e nas injustiças cometidas. Essa declaração não demora muito para que seja na mente do espectador o fio condutor que a conduzirá ao segundo episódio. Em Watchmen, os agentes da polícia precisam de pedir autorização para a arma ser libertada; em Watchmen os polícias usam uma bandana amarela para não serem reconhecidos com medo de represálias.

Uma das cenas que marca estes minutos é uma operação policial. O agente vê algo que lhe detem a atenção: contrabando da Cavalaria. O item é uma máscara Rorschach. E a cavalaria mencionada é a Sétima Cavalaria, uma organização de supremacistas brancos. “Não somos ninguém. Somos toda a gente. Somos invisíveis.” será mencionado para descrever a organização posteriormente.

Como estarão lembrados, o livro Watchmen conta uma versão alternativa da Guerra Fria. A série Watchmen liderada por Damon Lindelof (nome associado a Lost e a Leftovers) começa por contar esta tensão entre a polícia e a Cavalaria, uma tensão em crescendo durante o episódio e sempre alicerçada pela injustiça, pelo sofrimento e pela vontade de infligir sofrimento. Não é à toa que depois da introdução, a ação continua em Tulsa, Oklahoma. E também não é apenas uma coincidência que o musical Oklahoma seja abordado por diversas vezes durante este episódio – incluindo uma produção inteiramente negra.  

Os polícias que agora usam máscaras foram atacados na “Noite Branca” e tiveram aproximadamente três anos de paz antes de a Cavalaria voltar a atacar depois de estar “hibernada”. A tensão é tal que num determinado momento do episódio é invocado o artigo quatro. Na prática, todas as armas ficam desbloqueadas porque as vidas dos agentes estão em perigo imediato.

Watchmen caminha rapidamente para um ponto sem retorno – que acontece no final do episódio. Antes, num vídeo protagonizado por vários membros da Cavalaria encapuzados com a máscara, é dito “uma carcaça de polícia na autoestrada ontem à noite. Em breve, a porcaria preta acumulada será lavada à mangueirada e as ruas de Tulsa serão esgotos a transbordar de lágrimas liberais”.

É um discurso violentíssimo que acaba com quaisquer dúvidas sobre o abismo que há entre os dois lados. O racismo continua a ser abordado com os Redfordations. Depois da presidência de Richard Nixon, este universo tem Robert Redford como presidente nas últimas três décadas. Redford é um presidente liberal que instituiu ressarcimentos pelos danos causados. Redfordations é a designação racista que é dada a essas indemnizações.

O mundo de Watchmen está cheio de injustiças, racismo, passando uma boa parte do primeiro episódio não a mostrar o que está errado com a segregação social, mas a mostrar que esta ficção coloca uma facção vincada e violentamente no lado errado da história. É um combate que dá os primeiros passos durante este episódio, mas com umas bases solidamente delineadas.

No centro deste combate está Angela Abar, a personagem brilhantemente interpretada por Regina King. Nas traseiras de uma pastelaria, Abar encontra o seu equipamento, a sua máscara preta e o fato com o icónico capuz, que podem ver na imagem que inicia este texto. É uma personagem com duas facetas, sendo uma zeladora da sua família e também protagonista na extração de informações assente num método pouco legal. Está também no carro quando se ouve uma sirene antes de começar a chover lulas – um mistério que “cheira mal” e que poderá ser um gancho para os próximos episódios e um piscar de olho a Ozymandias.

Já na reta final do episódio entra em cena a personagem interpretada por Jeremy Irons. Adrian Veidt, que poderá não ser apenas conhecido por este nome, vive num castelo ajudado por dois servos que a série faz questão de ilustrar como pouco comuns. Não só porque uma das personagens lhe faz uma estranha massagem às coxas, como a outra lhe dá uma ferradura para cortar o bolo. Sim, é o aniversário de Veidt, que anuncia aos seus dois criados que estava a trabalhar numa peça chamada “O Filho do Relojoeiro”.

Watchmen faz muito neste primeiro episódio, especialmente na edificação deste conflito, mas também em cenas estilizadas sem recorrer em demasia aos efeitos. A escrita não só consegue dar profundidade às diferentes personagens, como a Judd Crawford, o chefe da polícia interpretado por Don Johnson, como coloca à nossa frente diálogos que, no meio de tanta desordem e dissabores, estão impecavelmente fluídos e naturais.

Como nota de rodapé fica apenas a nota que Trent Reznor e Atticus Ross assinam uma banda sonora que se enquadra perfeitamente com o tom das cenas e com o alcance geral do episódio. Como é óbvio não sei onde nos levará o resto da temporada, contudo, sei que este episódio mostra que quase todos os receios sobre ver, novamente, o nome Watchmen ser sinónimo de dissabor podem dar descanso ao vosso pensamento. É uma daquelas séries que arranca de uma forma tão impetuosa que o bilhete para o segundo episódio está já comprado e o passe para o resto da temporada fica já apalavrado.

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