Na primeira edição de maio da rubrica onde a equipa VideoGamer Portugal escreve sobre entretenimento que não pode ser experienciado com um teclado ou comando, ficam três opiniões sobre propostas díspares, tanto nas plataformas como no conteúdo.

O Pedro Martins teve oportunidade de ver I Care a Lot no catálogo da Netflix Portugal. Película que se afirma pela qualidade das prestações, em vez de se preocupar em edificar heróis infalíveis, estamos perante uma proposta em que os protagonistas conhecem os resultados diretos das suas ações. Vejam-no se tiverem uma subscrição, é a recomendação do diretor de conteúdos.

Posteriormente podem ler as considerações de Marco Gomes, que este domingo destaca Alemanha, Ano Zero. Filme assinado por Roberto Rossellini é, segundo o Marco, o mais poderoso da “Trilogia da Guerra” e “um gesto de bondade” do realizador italiano.

Black-ish, série que está disponível no catálogo do Disney+ em Portugal, foi a escolha do Filipe Urriça para encerrar o artigo. Pode ser uma sitcom, mas é também um comentário social e onde o preconceito e a injustiça estão bem presentes -  tal como as situações protagonizadas pelos problemas que se vivem em família.

Pedro Martins, I Care a Lot (Netflix Portugal)

I Care a Lot - ou Tudo Pelo Vosso Bem em português - é um carrossel de momentos fortes, um filme francamente marcado pela prestação da sua protagonista, Rosamund Pike. Disponível em Portugal no catálogo da Netflix, é um prazer ver um alinhamento de personagens não serem heróis e heroínas, mas sim uma vilã destemida que não olha a meios para impor o seu egoísmo. Até encontrar alguém tão macabro como ela.

Com quase duas horas de duração, a película assinada pelo realizador conta a história de Marla Grayson (Pike), que encontrou um esquema para se tornar cuidadora de dezenas de pessoas idosas e lucrar imensamente com os seus últimos tempos de vida. Grayson “toma conta” (leia-se: rouba) bens, propriedades, contas bancárias, tudo o que consegue enquanto os atordoados idosos e as suas famílias são expropriados nas retas finais das suas existências.

Grayson encontra, porém, Roman Lunyov (Peter Dinklage). Podia-se pensar que Lunyov é o herói que a tenta parar, mas não, é sim um senhor do crime que vive no anonimato há anos devido aos seus próprios problemas com a lei. São dois lados da barricada em que ninguém é inocente, com o argumento de I Care a Lot a dar ao espectador diversas oportunidades para adivinhar se haverá um vencedor quando os créditos rolarem no ecrã.

É um final que surpreende a dobrar. Sem entrar em território de spoilers, basta apenas dizer que o filme tem em consideração que não edificou heróis. Mais do que satisfatório, alinha-se com os acontecimentos até então. Se têm uma conta Netflix, vale a pena ver. Pelas prestações - nunca esquecendo Dianne Wiest muito bem na pele de Jennifer Peterson, a personagem que desbloqueia o filme e começa um jogo de fumo que faz duas horas parecerem vinte minutos.

Marco Gomes, Alemanha, Ano Zero (DVD)

O filme que encerra a chamada “Trilogia da Guerra” de Roberto Rossellini, e por conseguinte a caixa DVD da Leopardo Filmes a ela dedicada, Alemanha, Ano Zero (1948), Germania Anno Zero, desconheceu o sucesso de bilheteira dos antecessores não deixando, todavia, de imprimir suas fortes imagens na memória de cinéfilos.

Simbolicamente devemos considerá-lo mesmo o mais poderoso do trio por ser também um gesto de bondade do italiano, olhando as consequências do pós-Segunda Guerra Mundial na pátria do agressor, e que, direta ou indiretamente tanto sofrimento levou a si e aos seus.

Numa Berlim derreada ao poder das bombas acompanhamos os esforços de sobrevivência do jovem Edmund, numa visão crua e totalmente despida de esperança das sequelas do conflito.

Já antes tendo visto Roma, Cidade Aberta (1945), mostra-se como dado mais relevante de análise à trilogia o estado embrionário, ou se quisermos, ainda pouco burilado de marcas autorais rossellinianas, mas principalmente o mistério de coexistir numa mesma narrativa o empoderamento da trama, descaradamente influenciado pela escola americana, e em simultâneo sua violenta repulsa.

Filipe Urriça, Black-ish (Disney+ Portugal)

Sem saber o que ver no Disney+, escolhi Black-ish visto que vejo sitcoms sem problemas, mesmo que sejam más. Black-ish não é mau, mas também não é a melhor comédia de sempre, fica uns graus abaixo de Uma Família Muito Moderna. Já quis ver esta série há algum tempo, dado que fiquei curioso pelo facto de terem surgido os spin-off Mixed-ish e Grown-ish, por isso, mesmo que os primeiros episódios não convençam, é provável que fique a gostar depois de ver uma boa parte deles.

Black-ish é sobre uma família afro-americana com um pai e chefe de família que vive numa crise constante de identidade cultural. Praticamente tudo gira em torno de problemas de racismo. Claro que todas estas situações lidam com este tema sério de forma cómica, apesar de que a melhor comédia surge quando são expostos problemas de família e de parentalidade, porque este casal, com quatro filhos, está muito bem servido para lidar com dificuldades.

Obviamente, como uma sitcom americana que é, esta série põe os seus atores a expressarem-se com um exagero desmedido e claro as piadas são quase sempre baseadas em preconceitos e estereótipos. Porém, Black-ish conquistou pela personalidade das suas personagens, mesmo que esta seja exagerada. Rio-me com Andre por ser um pai com a sua falta de confiança própria, com a Rainbow ser uma mãe que é uma esposa e que é o suporte emocional do seu marido, mesmo que se exceda quando Andre faz as suas asneiras.

Enfim, Black-ish é divertido, mesmo haja muitas situações desconfortáveis de tão estranhas que são. Black-ish é, no fundo a personificação de Andre, esforça-se muito para ter piada e, pontualmente, faz-nos esboçar alguns sorrisos

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