Na penúltima edição de 2020, a rubrica O que andamos a ver apresenta mais um trio de propostas com aquilo que a equipa VideoGamer Portugal tem andado a testemunhar no ecrã. Há uma série sobre o colapso da sociedade, uma série documental sobre os escritores galardoados com o prémio Literário José Saramago e uma coleção que mistura cinema e música.

O Pedro Martins passou em revista O Colapso, série composta por oito episódios que está neste momento disponível na Filmin Portugal. É uma proposta boa, muito boa. Os episódios são curtos e com um ritmo imaculado. Escreve ainda o diretor de conteúdos que o trabalho da câmara - os episódios foram gravados usando um plano-sequência - é imaculado e dá força ao trabalho dos Les Parasites.

De seguida podem ler os comentários que Marco Gomes tece a Cinema & Rock ‘n’ Roll - Short Films. São oito curtas metragens que nos chegam do coletivo de realizadores Bando à Parte e apostas em conteúdos “representativos da nação berço da produtora”. É um destaque que merece ser lido e talvez descoberto, caso tenham oportunidade.

No final do artigo este domingo está a participação de Filipe Urriça, com o redator a versar sobre Herdeiros de Saramago. Como o título deixa antever, a produção da RTP dá espaço aos vencedores do Literário José Saramago e, entre outros, estão presentes Gonçalo M. Tavares, João Tordo, Andréa del Fuego e Ondjaki. Se são fãs dos escritores, é um bom espaço para os conhecerem melhor, mas é também uma boa proposta para descobrirem novos autores.

Pedro Martins, O Colapso (Filmin Portugal)

O Colapso é uma série recomendada sem restrições. Criada pelos Les Parasites e em exibição no Filmin (em janeiro de 2021 chegará ao AMC Portugal), é uma proposta que pergunta o que aconteceria se a sociedade entrasse em colapso. A resposta é dada ao longo de oito episódios filmados em plano-sequência que agarram o espectador pelo colarinho e nunca mais o larga.

No início de cada episódio é exibido um contador com os dias que passaram desde o início deste colapso - o oitavo e último episódio é capaz de surpreender - e transporta-nos para uma situação diferente. Um supermercado, uma estação de serviço, um aeródromo, um lar para pessoas idosas, uma ilha, enfim, são locais diferentes que servem de âncora a um argumento que surpreende e performances que se afirmam pela naturalidade.

Guillaume Desjardins, Bastien Ughetto e Jérémy Bernard (Les Parasites), apostaram em episódios curtos e diretos, ou seja, o espectador não tem tempo para parar durante a viagem. É quando termina cada episódio que reparamos que o queixo no chão, que o coração está a bater forte e que os olhos acabaram de testemunhar um plano-sequência.

O sétimo episódio, por exemplo, tem como título “A Ilha”, mas decorre maioritariamente num barco. O trabalho da câmara - e da atriz - dentro e fora da água é impressionante. Não há cortes nos planos, não há saltos na edição. Há sim o colocar do espectador onde a ação decorre. Curiosamente, o último episódio, ainda que interessante, é o menos “agitado”, mas é também necessário para perceber o que é verdadeiramente este colapso da sociedade.

Seja no Filmin ou no AMC, vejam a série se tiverem oportunidade. Não é sobre a pandemia que nos está a afetar, mas os paralelismos são inevitáveis; não é sobre um colapso concreto, mas é um aviso que facilmente nos cativa e fascina, que facilmente nos faz devorar os oito episódios. É um trabalho tecnicamente impressionante e artisticamente belo. É uma recomendação facílima que entretém de uma forma crua e tantas vezes dura, mas que vale a pena todos os segundos que lhe forem dedicados.

Marco Gomes, Cinema & Rock ‘n’ Roll - Short Films (DVD)

Seguramente é a proposta desta semana uma das mais curiosas trazidas a este espaço enquanto compilação heterogénea de registos em pequeno formato do coletivo de realizadores, Bando à Parte.

Com parte significativa do trabalho em longa-metragem vocacionado para co-produções internacionais e apoio a autores estrangeiros, são os exemplos contidos no pacote, todavia, representativos da nação berço da produtora, mostrando o talhe português em curtas-metragens de fita convencional, animação, 3D (com auxílio dos característicos óculos de lente azul e vermelha incluídos) e videoclipes musicais.

Seguramente não fora propositado, o alinhamento respeita de forma quase imaculada uma hierarquia qualitativa descendente com destaque para O Facínora (2012) de Paulo Abreu, qual tese aplicada sobre o expressionismo alemão no cinema mudo, e Tile-Jail Toilet-Tale (2008) de Soetkin Verstegen, cruzamento engenhoso entre animação tradicional e modelação.

Filipe Urriça, Herdeiros de Saramago (RTP Play)

Adoro policiais e thrillers, são estes livros que me agarram e me mantém durante semanas interessado no mundo em que mergulhei. Estou curioso para ver como é que A Paciente Silenciosa, de Alex Michaelides, pousado na minha estante, me vai pegar pelos colarinhos e só me largar na última página. Infelizmente, além de alguns livros de António Lobo Antunes, não tenho a quantidade desejada de livros escritos por autores portugueses.

Tenho hábitos de leitura, algo essencial para quem escreve, contudo gostava de ler mais autores portugueses do que a literatura estrangeira que consumo. Por isso é que fiquei muito curioso em ver a série de Carlos Vaz Marques, o moderador do Governo Sombra, Herdeiros de Saramago. Não sabia no que me estava a meter, mas a curiosidade foi tanta que abri a série na minha aplicação e apesar da só ter visto dois episódios, fiquei encantado.

Cada episódio faz o que se previa: apresenta um autor diferente em cada um, um escritor que ganhou o Prémio José Saramago. Vi dois episódios, o primeiro abordou Paulo José Miranda e o outro José Luís Peixoto. E em Herdeiros de Saramago fazemos uma viagem à vida pessoal destes autores, onde conhecemos o seu pretérito que os levou a este presente.

Aqui vemos o quotidiano destas pessoas que fizeram da escrita a sua vida, onde nos falam das suas inspirações e do quê que os levou a tomar este rumo que os fez escrever livros. Carlos Vaz Marques, com a sua voz radiofónica fantástica, lê-nos algumas passagens dos livros destes escritores, contextualizando as narrativas que estão a ser transmitidas por estes escritores.

Sinceramente, acho esta série muito boa e não digo excelente porque ainda não vi todos os episódios. Tem um ritmo lento e pausado, mas também deve-se salientar e elogiar o trabalho de câmara muito bem feito. Temos planos de contraste e cores, simetrias bem delineadas, e paisagens que se vão desenhando à medida que a câmara se afasta ou se aproxima. Gostam de ler ou estão curiosos em saber o que leva alguém a fazer da escrita a sua vida? Então vejam Herdeiros de Saramago, é gratuito na RTP Play.

Continuem a conversa nos fóruns VideoGamer!