por - Nov 20, 2016

Às Cegas – Crítica

Não demora muito tempo até que as perguntas comecem a surgir quando se vê Às Cegas, o título português para Bird Box, um dos filmes do momento na Netflix. Sendo uma adaptação do livro de Josh Malerman, o argumento assinado por Eric Heisserer consegue arrancar com uma premissa suficientemente interessante, mas há vários problemas com a obra protagonizada por Sandra Bullock.

Somos transportados para mais uma versão de um mundo pós-apocalíptico, com a maioria das pessoas a serem vítimas de um fenómeno que as leva a terem comportamentos psicóticos que normalmente resultam não só no suicídio, como em tentativas de arrastarem as restantes pessoas a verem o que elas estão a ver e a padecer do mesmo desfecho. É uma epidemia inexplicável que começa na Europa de Leste e rapidamente chega aos Estados Unidos, onde o filme se desenrola.

De forma inteligente, Às Cegas é alimentado por duas linhas temporais separadas por cinco anos. Malorie (Sandra Bullock) e Jessica (Sarah Paulson) são irmãs que começam a obra a mostrar o lado mais ligeiro do argumento enquanto trocam piadas a caminho da ginecologista, onde Malorie tem consulta de acompanhamento à sua gravidez. Cinco anos mais tarde, a trama coloca Malorie num barco com duas crianças e uma caixa com pássaros. O filme, ao longo de duas horas, vai mostrando como é que os acontecimentos da primeira linha temporal levaram ao que se passa na segunda.

Malorie e as duas crianças – que são tratadas por Rapaz e Rapariga até às cenas finais da obra – terão que fazer esse percurso pelo rio abaixo, passando pelo perigo de ataques e dos rápidos. Inicialmente, quem vê não compreende o porquê desta viagem ser tão crucial nem obviamente qual será o desfecho, todavia, o filme faz um bom trabalho em ir liderando com os acontecimentos “cinco anos antes” até termos alguma empatia por aquele grupo de sobreviventes.

E por falar em sobreviventes, as partes em que Malorie vai aprendendo a lidar com o que se passa nesta versão da sociedade prestam-se a encurralar um grupo de pessoas que não sabem muito bem em quem confiar nem o que se está a passar. Sem grande surpresa, o argumento tem na chegada e na partida de novas personagens uns dos fios condutores que faz com que quem vê partilhe a desconfiança das personagens. Não é propriamente um veículo novo para fazer mover um argumento, mas é executado com algumas reviravoltas minimamente interessantes.

A melhor parte de Às Cegas é a forma como nos faz questionar esta realidade e mantém a nossa curiosidade com ele, como mencionei no início deste texto. O que é que as pessoas conseguem ver de tão fascinante se não taparem os olhos? O que levou a que esta onda de desespero acontecesse? Olhando para o título da obra em inglês, há também perguntas sobre o papel que os pássaros têm no contar dos acontecimentos e se não serão apenas uma alusão à obra de Hitchcock. Melhor ou pior, o filme responde a quase todas estas perguntas, ainda que tenha achado que o final poderia ter sido mais irrefutável.

A Netflix tenta algo que não seja apenas um chorrilho de clichés associados ao género tão apetecível – e consegue-o de certa forma. O que a realizadora Susanne Bier não consegue é colocar Às Cegas como um bom filme de suspense. Os leitores precisam de compreender que muitas das cenas colocam as personagens obrigadas a não olhar, pelo que o uso das vendas é uma obrigatoriedade em vários planos, especialmente na viagem pelo rio abaixo. Esperava-se que estas cenas fossem aproveitadas para emulsionar o medo das personagens pelo que as rodeia, pelos sons e sensações que não conhecem, algo que raramente acontece.

O mais frustrante é que são diversos os momentos em que a tensão começa, mas falha em ser executada até todo o seu potencial. Enquanto estão encurralados na casa, o grupo de sobreviventes fica sem mantimentos e tem que fazer uma viagem até ao supermercado mais próximo. Uma vez que não podem olhar para verem o caminho com medo de serem vítimas do tal comportamento alicerçado pelas visões sedutoras, a solução passa por pintar os vidros de um carro e fazer a viagem guiados pelo sistema GPS. Pode não ser propriamente a cena mais lógica de sempre, mas tinha um enorme potencial para fazer com que os espectadores temessem cada metro da viagem.

Infelizmente, não é o que acontece. Novamente a dar para a causa da frustração, sente-se que Bier está próxima de entregar cenas memoráveis e tensas, mas mesmo quando as misteriosas entidades rodeiam o carro, a recompensa não é tensa, enveredando estranhamente por algumas linhas de diálogo que tentam ser engraçadas. Compreende-se que a personagem queira quebrar o gelo, mas dificilmente tentar ser engraçado e divertido seria o comportamento lógico de quem pode estar prestes a deixar de existir. Na prática, isto quebra a imersão e a tensão que se começava a fazer sentir. E misturar estas tiradas “divertidas” com comportamentos mais temerosos de outros ocupantes do veículo não presta para agarrar quem vê pelo colarinho.

A essência de Às Cegas é encapsulada numa cena presente durante a viagem de barco. O espectador é liderado pela promessa de uma escolha terrível que Malorie terá que fazer quando chegarem aos rápidos. Essa antecipação é em crescendo, mas no momento decisivo, há o medo de a executar, com o argumento a optar pela saída mais fácil e até mais previsível. E é aqui que está a principal diferença entre este filme e Um Lugar Silencioso – obra em que as personagens estão quase sempre privadas do som, mas que vai até ao fim com as ideias que tem (por exemplo, aquela cena perto da ponte) e não tem medo de ter a atenção completa do espectador, dando-lhe material não para o susto fácil, mas para uma tensão que não deixa ninguém indiferente.

Não é um filme terrível e é um filme que, graças a oferecer duas linhas temporais, faz um bom trabalho a explicar praticamente tudo aquilo que tem explicação. Talvez o factor mais redentor da obra seja a mensagem que tem a passar no seu final. Sem mencionar spoilers, está relacionado com a consulta na ginecologista e na forma como as crianças que acompanham Malorie são chamadas de Rapaz e Rapariga quase até ao final. Há esta mensagem de quem passa pelos piores anos da sua vida, seja pela confusão do fenómeno, seja por todas as perdas repentinas com que teve que lidar.

Seria impossível terminar um texto sobre Às Cegas sem dedicar algumas linhas ao seu elenco. Com nomes como Sarah Paulson, Tom Hollander (que teve uma interpretação memorável em O Gerente da Noite, série também realizada por Bier), BD Wong (sim, Whiterose em Mr. Robot), John Malkovich e Sandra Bullock, acabam por ser estes últimos dois nomes que mais marcam, especialmente a prestação de Bullock, que vai desde a confusão ao desespero, até ao excelente timing numa troca de piadas sarcásticas com Douglas, a personagem de Malkovich. Mesmo nas cenas em que Malorie está sozinha a lutar contra o desconhecido, a performance da atriz é assinalável e mostra o quanto levou esta obra a sério.

Às Cegas tem, pelo menos para mim, o mérito de tentar algo novo e de não se alavancar em demasia no que é o habitual tratamento dado à versão pós-apocalíptica da sociedade. Algumas decisões foram inteligentes, faltando apenas o tacto para que o espectador sentisse a urgência e a angústia da privação de um dos sentidos. As perguntas que começamos a fazer cedo não são infundadas. O argumento escalonado alimenta-nos a curiosidade e sacia algumas das suas partes e as respostas levantam uma nova pergunta: o que se segue, Susanne Bier?

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