Os últimos dias têm convidado - bastante - a estadias no sofá enquanto o televisor vai servindo de janela mágica para mundos edificados por videojogos, filmes ou séries. Ontem destacamos os mundos que nos têm passado pela frente em termos de videojogos e este domingo é a vez dos filmes e das séries.

O Pedro Martins continua a prestar atenção às novidades Netflix. Depois de na semana passada ter visto El Camino, o filme que mostra um novo capítulo na vida de Jesse Pinkman, este domingo destaque é para Living with Yourself, série protagonizada por Paul Rudd, que interpreta duas versões de uma personagem depois de uma clonagem ter corrido mal.

Green Book foi a escolha de Filipe Urriça. A obra realizada por Peter Farrelly estreou originalmente em 2018, contudo, recentemente ficou disponível no TVCine, motivo que levou o redator a ver Viggo Mortensen e Mahershala Ali no ecrã. A obra de Farrelly acabou mesmo por vencer o Oscar para Melhor Filme este ano, ainda que não tenha escapado a algumas críticas à forma como retratou as questões raciais.

Este domingo o Marco Gomes continua a dedicar o seu tempo a David Lynch. Depois de na semana passada ter assistido a um documentário sobre a sua vida e obra, agora escreve sobre duas dezenas de curtas assinadas pelo celebrado realizador. Podem ler os seus parágrafos no final deste artigo.

Pedro Martins, Living with Yourself (Netflix)

O arco narrativo de Living With Yourself começa com um acontecimento estapafúrdio, mas que consegue alimentar a primeira temporada com perguntas minimamente pertinentes sobre a identidade e sobre o que está ao nosso alcance para ajustarmos o quotidiano. Felizmente, os momentos que usam a lamechice para serem inspiradores não abundam.

Insatisfeito com a rotina cinzenta da sua vida, Miles Elliot (Paul Rudd) resolve aceitar uma sugestão de um colega de trabalho e visitar um spa para rejuvenescer o corpo e mente. Local secreto e apenas disponível mediante recomendação de um cliente já existente, este spa usa um procedimento que corre mal, bastante mal, e o Miles original acaba por ser dar origem a dois Miles.

Com duas personagens na mesma linha temporal, o Miles original continua a sofrer com o peso do mundo nos seus ombros, enquanto a nova versão do protagonista encara tudo e todos com uma energia positiva e com uma presença que irradia positivismo. Os dois terão que gerir como lidam com o trabalho e, sobretudo, com a esposa, Kate (Aisling Bea), que importa sublinhar estava saturada da relação, da vida nos subúrbios, e da dificuldade em começar uma família.

Quando Living With Yourself coloca os dois Miles em rota de colisão, ou seja, a confrontarem os aspectos menos bons das suas vidas, a criação de Timothy Greenberg apresenta os seus melhores momentos. Isto porque permite alguma introspecção, tanto para os espectadores que se sentem encalhados, como também para os que irradiam luz vinte e quatro horas por dia.

Ao longo destes oito episódios de aproximadamente vinte e cinco minutos cada há também vários momentos para o humor ligeiro e para “saídas de cena” mais fáceis do que os próprios momentos pediam. Nota-se que a série não quer ser um drama pesado - algo perfeitamente ilustrado no último episódio, quando um dos Miles está no extremo e apresenta dois ou três trejeitos de comédia para quebrar a tensão. Sem trair o cômputo geral da proposta, são segmentos que pouco fizeram pelo meu interesse ou pelos meus sorrisos.

O destaque é Rudd, que consegue com a sua representação colocar no ecrã duas versões vincadamente diferentes da mesma pessoa - sim, convém não esquecer que são a mesma pessoa, o que levanta inúmeras questões morais com a sua esposa. Tanto quanto estão os dois a contracenar consigo ou quando estão a interagir com o resto do elenco, os Miles são precisamente o que a série precisava e isso deve-se, sobretudo, ao ator.

É uma série que pode ser vista facilmente num dia e que mesmo com algumas falhas em entregar rotundamente alguns dos seus pontos, vale a pena ver. O final, como seria de esperar com um original Netflix, deixa a porta escancarada para uma eventual segunda temporada. Os três, Miles, Miles e Kate ficam num ponto das suas vidas em que têm aquilo que lhes faltava, mas com um enorme e inesperado ponto de interrogação. Em última instância,  Living With Yourself mostra que nem sempre é fácil convivermos connosco e que isso não ter que ser um bicho de sete cabeças.

Filipe Urriça, Green Book - Um Guia Para a Vida (TVCine 1)

Ontem à noite, vi Green Book - Um Guia para a Vida, que foi o vencedor para Melhor Filme na última edição dos Óscares. Fiquei genuinamente curioso em saber o quê que levou aos juízes da academia norte-americana a premiar um filme como este.

O filme tem dois grandes atores em destaque, Viggo Mortensen e Mahershala Ali, que interpretam um par de amigos improváveis. Dr. Donald Shirley é um pianista negro que está em digressão pelo sul dos Estados Unidos, ajudado pelo seu motorista Tony Lip que o afasta de eventuais perigos numa das regiões mais racistas dos EUA. A química entre as duas personagens é evidente, desenvolvendo-se uma amizade forte e credível.

Quem já viu Amigos Improváveis, conhecido também como Les Intouchables, tecerá certamente comparações com Green Book. A minha primeira comparação foi em perceber o porquê de Green Book ter ganho Oscar de Melhor Filme, enquanto que o filme francês passou despercebido. Provavelmente, porque o tema do racismo ganhou uma nova importância nos últimos anos e Green Book aborda este tema de forma supérflua.

Com isto não quero dizer que Green Book seja um mau filme, longe disso, mas não é, na minha opinião, um filme merecedor de Oscar quando estão a disputar na mesma categoria películas como Roma, Vice ou A Favorita.

Marco Gomes, 20 Curtas David Lynch (DVD)

O programa era singelo, um amigo almoçava cá em casa e, em seguida, veríamos a edição caseira do, ainda agora, último filme de David Lynch, Inland Empire (2006), provavelmente onde seu método se aproxima mais da abstração pura no exercício de descodificação do espectador. Nem dez minutos contados, adormecêramos.

Sendo a memória a mais relevante faculdade do ser humano, e a que define, em grosso modo, a identidade dos elementos da espécie, lembrei-me do episódio adormecendo após o almoço na primeira investida pelo disco que compila vinte de suas curtas-metragens. Alheio ao facto não sendo também o problema técnico que dos excertos afasta a imagem selecionando a opção de visualização conjunta.

Dividas em três secções Dumbland (2002), sete, Dynamic : 01(2006), oito, e The Short Films of David Lynch, cinco, de agregação temporal diversa, representam cerca de um terço da produção autoral no registo, ainda assim, mais do que suficientes para demonstrar seu desassossego criativo na multiplicidade de propostas: animação, documentário, videoinstalação ou mesmo gravações caseiras de ficção.

Menos pelo fator curiosidade do que pelo esmero e engenho colocado em sua conceção, poder-se-ão considerar, todavia, serem coqueluches do conjunto as três mais antigas entradas, Six Men Getting Sick (1966), The Alphabet (1968) e The Grandmother (1970), representando a passagem de testemunho entre a produção, até ali exclusiva, em artes plásticas e a adoção da fita como registo preferencial nas décadas seguintes.

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