Um domingo com chuva é um domingo que convida a pelo menos algumas horas confortavelmente sentados defronte de um ecrã a transportar-nos para realidades longínquas. A equipa VideoGamer Portugal reuniu-se este domingo para abrir três janelas para essas mesmas realidades, como podem ler ao longo deste artigo.

We Are Who We Are é a escolha de Pedro Martins, com o diretor de conteúdos a versar sobre o primeiro episódio da obra criada por Paolo Giordano, Luca Guadagnino e Francesca Manieri para a HBO. Claramente uma estreia a lançar linhas narrativas para o resto da temporada, as primeiras impressões revelam esperança e alguma cautela.

O Marco Gomes continua enamorado pela sua coleção de DVD, uma coleção que permitiu ao responsável pelas imagens dos artigos e das análises publicadas viajar recentemente até aos anos trinta, década em que À Beira do Mar Azul começou a sua existência comercial. É uma proposta de outras andanças que nos conta a existência de dois amigos que se apaixonam pela mesma mulher. Isto depois de terem naufragado numa ilha.

A terminar este artigo dominical temos Stephen King, ou melhor, temos as palavras de Filipe Urriça sobre o segundo capítulo de It. Infelizmente, nem mesmo a presença do icónico Pennywise consegue elevar a qualidade geral da película, segundo o redator, que considera a primeira película uma proposta melhor conseguida.

Pedro Martins, We Are Who We Are (HBO Portugal)

We Are Who We Are tem um argumento que merece a atenção dos espectadores. A série, criada por Paolo Giordano, Luca Guadagnino e Francesca Manieri para a HBO, propõe-se a contar a história de adolescentes que entram na idade adulta. Momento sempre delicado que aqui é adensado pelo facto de estarmos face a vidas longe de casa: vidas numa base militar americana em Itália.

Ainda só está disponível um episódio na HBO - o segundo fica disponível a 22 de setembro - mas é desde já uma proposta robusta sobre a adaptação e sobre o valor individual enquanto lida com o pensamento e os modos estabelecidos de quem já está instalado. No centro de tudo isto está Fraser (Jack Dylan Grazer), que chega a esta base depois de Sarah (Chloë Sevigny), a sua mãe, ter sido transferida para a base onde será a nova comandante. Fraser tem uma segunda mãe, Maggie (Alice Braga), que também é transferida para a base.

Não há pressa em We Are Who We Are, pelo menos para já. A vida na base e a descoberta das personalidades, tanto as do elenco secundário, como sobretudo de Fraser e do seu agregado familiar, faz-se lentamente. É uma exposição feita com cuidado para que o espectador não perca o interesse e vá querendo um pouco mais.

A série conta com mãos experientes na sua condução e o elenco faz um trabalho assinalável, particularmente Grazer e Sevigny, que provocam sempre fascínio nas cenas em que partilham a mesma cena. Apesar do ritmo descontraído, quase como se fossem vidas a desfrutar de umas férias, os temas são acutilantes e prometem, caso sejam bem trabalhados, uma jornada para estimular o pensamento.

Marco Gomes, À Beira do Mar Azul (DVD)

Se o futuro que está a ser vendido caminha para a distribuição de conteúdo integralmente digital, ter-se-á certamente nossa clientela apercebido do paradoxo no aumento e consolidação de editoras especializadas em sua edição física, e até, iniciativa a tornar-se comum, obras em plataformas de legado. Três principais são as razões que explicam sua presença no mercado, oportunidade de negócio, gosto pelo colecionismo de videojogos e preservação da história do meio.

A esse propósito convirá aprender no passado de formas de expressão artística mais arreigadas na sociedade e passíveis igualmente de desmaterialização, sendo referencial por afinidade o cinema. Ele que vira tantos de seus filhos perecer por nenhuma cópia subsistir ao tempo ou chegando a nossos dias sem possibilidade de restauro condigno. Casos havendo em que estimular uma fita cansada pelas décadas ainda depende somente de empenho financeiro e boa-vontade.

Desconhecendo se por motivos de licenciamento na eventualidade de existir cópia restaurada, algo que investigação ligeira não deslindou, o certo é que a edição DVD disponibilizada em Portugal de À Beira do Mar Azul (1936), U Samogo Sinyego Morya de título original, geme por cuidados intensivos, quando mais tratando-se de registo historicamente enquadrado na transição de cinema mudo para sonoro.

Permitam-me interpolar um parágrafo na lógica sequencial do texto para referir que, mesmo assim, se deve a existência em nosso mercado doméstico de uma das mais, se não a mais, aclamada obra de Boris Barnet por iniciativa da Alambique Filmes, agregando-a na coleção João Bénard da Costa - No Meu Cinema. Tendo por base a homónima série da RTP produzida por Margarida Gil, faz-se cada película acompanhar de comentários introdutórios e remate daquele importante crítico, ensaísta, gestor cultural na área.

Se a aspiração é transversal a qualquer película enferma, sê-lo-á dobrada para uma das grandes. É-o no virtuosismo e engenho de cenas e sequências concretas, dessas acomodadas na memória dos cinéfilos, mais dúvidas existindo na consistência global. Daí o enfoque destas linhas, na inexistente uniformidade técnica que reparos deverão ser assacados ao realizador soviético? O mais aconselhável será desfrutar da candura e graciosidade de À Beira do Mar Azul vogando suavemente nessas águas alheado de tormentas.

Filipe Urriça, It: Chapter Two (TVCine Top)

Fiquei com alguma curiosidade em ver It: Chapter Two depois do encerramento do primeiro filme. O livro de Stephen King é tão grande que foi dividido em dois filmes, tal como a versão portuguesa do livro. A primeira parte é a infância do grupo de miúdos, a segunda são as mesmas personagens vinte e sete anos depois.

Aparentemente, Pennywise tinha morrido no primeiro filme, contudo por alguma razão, a morte não foi permanente. Por isso, Bill, Eddie, Ben, Richie, Stan, Beverly e Mike vão ter de voltar a enfrentar os horrores do palhaço de Derry para ver se o conseguem eliminar de uma vez por todas. Obviamente que esta tarefa terá de os levar a enfrentar, mais uma vez, os seus medos mais aterrorizantes.

Infelizmente, não acho que o filme tenha sido tão bom como o primeiro. Um sinal que me faz torcer o nariz perante a sequela é o facto de me ter rido mais vezes do que o normal num filme que devia deixar-me imóvel com a tensão provocada pelo escalar das cenas até ao momento em que as personagens do filme enfrentam Pennywise.

Há também uma grande falta de ritmo, que faz com que a tensão não se instale. Contudo, não é uma mau filme, só que a expetativa que o primeiro nos deu para esta sequela cai por terra. Enfim, uma desilusão.

Continuem a conversa nos fóruns VideoGamer!