A equipa VideoGamer Portugal volta a reunir-se este domingo com algumas sugestões para quem procura algo que não videojogos para ocupar alguns minutos do seu dia. O Pedro Martins escreve sobre 8:46, o especial de Dave Chappelle que todos devem ver no YouTube.

Por sua vez, o Marco Gomes assina uma participação sobre Old Stone - Pedra Antiga e, finalmente, no final do artigo podem ler as palavras que Filipe Urriça dirige a Yesterday, um filme que ficou longe de o convencer, tanto pelo conceito como pela história.

Como é habitual, são três propostas diferentes - aliás, a participação do Filipe, por exemplo, não é tanto uma recomendação, mas mais um aviso que não vale a pena investirem o vosso tempo em Yesterday. Resta-nos desejar a todos os nossos leitores a continuação de um bom domingo e um excelente arranque da nova semana.

Pedro Martins, 8:46 (YouTube)

É impossível alguém no mundo ficar indiferente ao que está a acontecer depois da morte de George Floyd. O racismo não conhece nacionalidades ou territórios, pelo que além de obviamente o condenar com todas as fibras do corpo de cada um, julgo ser importante educar-nos sobre o passado, para estarmos o melhor que conseguirmos no presente, e assegurar que a história futura é justa entre semelhantes.

Como parte desta educação é importante ver 8:46, o novo especial de Dave Chappelle. É muito, muito importante. Publicado de surpresa no YouTube, 8:46 - o tempo que o polícia esteve ajoelhado no pescoço de George Floyd - é uma reflexão histórica e acutilante que coloca bem em evidência que passou muito pouco tempo desde que a escravatura era vivida na primeira pessoa.

Chappelle não está no palco para contar piadas, mas sim para fazer ver e sentir. Ocasionalmente há uma gargalhada, mas vejam-no como uma lição e, se possível, como um claro abrir de olhos. É crucial que o mundo perceba o que se está a passar e é crucial que estes dias não sejam passageiros. Chappelle tem um microfone, um bloco de notas e uma câmara não para colocar sal na ferida, mas para ajudar a fazer ver quanto essa ferida sangra.

E enquanto estão no YouTube, vejam também este episódio de Last Week Tonight, onde John Oliver versa aberta sobre o papel da polícia nos Estados Unidos da América. Não importa se concordam ou não com tudo o que é dito, mas para se ter uma conversa profunda sobre qualquer tema, é preciso que conheçam o tema. Ao longo destes 33 minutos, acho que todos aprendemos algo.

Marco Gomes, Old Stone - Pedra Antiga (DVD)

Existem filmes que tiram a paciência a um santo. Da lista seguramente consta a estreia em formato longa-metragem do chinês Johnny Ma, Old Stone - Pedra Antiga (2016), Lao Shi de título original.

Tornar a constatação inteligível leva-nos à teoria que um princípio imutável nunca o é tendo mutáveis premissas. Enquanto muitas obras elevam-se pela difícil ou impossível classificação de género, não ser carne nem peixe destapa a vulgaridade de Old Stone.

Drama a mais para ser thriller, thriller a mais para ser drama, até o facto daquele se manifestar despudoradamente apenas no terço final do filme inviabiliza o potencial trunfo, latente até ali no desenho sonoro, no esquema de planos e ritmo acelerado da montagem. Os argumentos estão lá, falta competência e critério para os manipular.

Da forma desajeitada com que Johnny Ma laça o embrulho não faltam recalques moralistas e pacóvio caráter reflexivo à súmula narrativa, ela porventura exemplo conclusivo da falta de sedimentação do projeto. Mas claro, são os pequenos detalhes que à lupa observam as fragilidades, imperdoáveis quando a lagartixa se tenta passar por jacaré, que é como quem diz, fazer-se maior do que é.

Filipe Urriça, Yesterday (TVCine Top)

Fiquei curioso com a premissa de Yesterday, um filme de Danny Boyle, por fazer dos The Beatles o centro da sua narrativa. Todavia, o conceito não funciona e a história de amor que apresenta não convenceu minimamente.

Jack Malik é um jovem músico com problemas a atingir o sucesso e, por isso, vê-se na obrigação de tomar decisões relativamente à sua carreira de artista musical. Quando estava prestes a desistir da sua carreira, para se tornar num funcionário de um supermercado, numa viagem de bicicleta sofre um acidente após um estranho apagão mundial. Após ter recuperado do acidente, repara que ninguém se recorda de uma das maiores bandas de sempre The Beatles.

Malik vê aqui a sua oportunidade para interpretar músicas que ninguém conhece, cometendo plágio. Assim, Jack entra na indústria da música pela mão de Ed Sheeran que o convidou para começar um dos seus concertos. Esta narrativa é muito previsível e marca pela ausência de emoção que provoca em quem vê.

O filme tem carisma suficiente para ter alguns momentos de comédia, para ter algum romantismo e, claro, a fantástica música dos The Beatles. Contudo, como não sou fã nem grande admirador da banda, acho que fica conteúdo perdido, visto ter muitas referências feitas às letras das músicas da banda britânica.

Não gostei muito do filme, principalmente pelo seu final, porque há amor e decisões tomadas sem consequências para a personagem principal. Malik apercebe-se tarde dos seus erros e não sofre absolutamente nada por isso. Porventura, deverá ser castigo suficiente viver numa realidade sem os The Beatles.

Continuem a conversa nos fóruns VideoGamer!